A Virtude Cardeal da Prudência

O York Blog publicará nas próximos quartas-feiras uma sequência de Audiências Públicas dos Papas João Paulo I (1978) e João Paulo II (1978-2005) realizadas em 1978 sobre as três virtudes teologais (pelo Papa João Paulo I) e as quatro virtudes cardinais (pelo Papa João Paulo II). Essas virtudes estão imensamente presentes nos nossos rituais e devem ser tratadas com a devida atenção. Esperamos que os textos, que não são especificamente maçônicos, possam ajudar os maçons a trabalharem e entenderem melhor essas virtudes.

Todos os textos foram retirados diretamente do site do Vaticano já traduzidos para o Português.

 

A VIRTUDE DA PRUDÊNCIA

por João Paulo II

25 de outubro de 1978

Quando na quarta-feira, 27 de Setembro, o Santo Padre João Paulo I falou aos que tomavam parte na audiência geral, ninguém podia imaginar que se tratasse da última vez. A sua morte — depois de 33 dias de pontificado — surpreendeu e encheu o mundo inteiro de luto profundo. Ele que despertou na Igreja tão grande alegria e inspirou nos corações dos homens tanta esperança, em tão breve tempo consumou e levou a termo a sua missão. Na morte que teve, verificaram-se as palavras tão repetidas do Evangelho: Estai preparados, porque o Filho do homem virá na hora em que menos pensardes (Mt. 24, 44). João Paulo I vigiava sempre. A chamada do Senhor não o surpreendeu. Seguiu-a com a mesma vibrante prontidão com que, a 26 de Agosto, tinha aceitado a eleição para o sólio de São Pedro.

Hoje apresenta-se a vós, pela primeira vez, João Paulo II. À distância de quatro semanas daquela audiência geral, deseja saudar-vos e falar convosco. Deseja continuar os temas já iniciados por João Paulo I. Recordamos que falou das três virtudes teologais — fé, esperança e caridade. Acabou tratando da caridade. Esta virtude — que formou o seu último ensinamento — é na terra a maior, como ensinou São Paulo ( Cor. 13, 13); é a que atravessa o limiar entre a vida e a morte. Pois, quando termina o tempo da fé e da esperança, continua o Amor. João Paulo I .iá passou o tempo da fé e da esperança; e também o de a caridade se expressar na terra tão magnificamente, a caridade cuja plenitude só na eternidade se revela.

Hoje devemos falar doutra virtude, porque dos apontamentos do Pontífice falecido conclui que era sua intenção tratar, não só das três virtudes teologais — fé, esperança e caridade —, mas também das quatro virtudes chamadas cardeais. João Paulo I queria falar das “sete lâmpadas” da vida cristã; assim lhes chamava o Papa João XXIII.

Pois bem, hoje eu quero continuar esse esquema, que o Papa desaparecido preparara, e falar brevemente da virtude da prudência. Desta virtude não pouco trataram já os antigos. Devemos-lhes,  por isso, reconhecimento profundo e gratidão. Em certo sentido ensinaram-nos que o valor do homem deve medir-se com o metro do bem moral, que ele realiza durante a vida. É isto exactamente o que, em primeiro lugar, assegura a virtude da prudência. O homem prudente, que se aplica a tudo o que é verdadeiramente bom, esforça-se por medir todas as coisas, todas as situações e todo o seu operar, pelo metro do bera moral. Prudente não é pois aquele que — como muitas vezes se entende — sabe arranjar-se na vida e sabe tirar dela o maior proveito; mas aquele que sabe construir toda a sua existência segundo a voz da recta consciência e segundo as exigências da moral justa.

Assim a prudência constituí a chave para a realização do encargo fundamental que Deus confiou a cada um. Este encargo é a perfeição do próprio homem. Deus entregou a cada um de nós a humanidade que tem. necessário que nós correspondamos ao encargo recebido programando-o como ele requer.

Mas o cristão tem o direito e o dever de observar a virtude da prudência, também noutra perspectiva. A prudência é como imagem e semelhança da Providência de Deus nas dimensões do homem concreto. Porque o homem sabemo-lo pelo livro do Génesis — foi criado à imagem e semelhança de Deus. E Deus realiza o Seu plano na história da criação e sobretudo na história da humanidade. A finalidade deste desígnio é — como ensina São Tomás — o bem último do universo. O mesmo desígnio torna-se na história da humanidade simplesmente o desígnio da salvação, o desígnio que diz respeito a todos nós. No ponto central da sua realização encontra-se Jesus Cristo no Qual se expressou o eterno amor e a solicitude do próprio Deus, Pai, pela salvação do homem. Esta é, ao mesmo tempo, a plena expressão da Divina Providência.

Pois bem, o homem que é a imagem de Deus, deve ser — como de novo ensina São Tomás — de certo modo, a providência. Mas na medida da sua vida. Ele pode participar neste grande caminho de todas as criaturas para o termo, que é o bem do que foi criado. Deve — exprimindo-nos ainda mais na linguagem da fé — participar no divino desígnio da salvação. Deve caminhar para a salvação e ajudar os outros a salvarem-se. Ajudando os outros, salva-se a si mesmo.

Peço a quem me escuta que pense agora, a esta luz, na própria vida. Sou prudente? Vivo em consequência com o que sou, responsavelmente? O programa que realizo serve para o verdadeiro bem? Serve para a salvação que querem de nós Cristo e a Igreja? Se hoje me escuta um estudante ou uma estudante, um filho ou uma filha, olhe a esta luz para as próprias obrigações de escola, as leituras, os interesses, os passatempos e o ambiente dos amigos e das amigas. Se me escuta um pai ou uma mãe de família, pense um pouco nos seus deveres conjugais e de progenitura. Se me escuta um ministro ou homem de Estado, olhe para a extensão dos seus deveres e responsabilidades. Procura ele o bem verdadeiro da sociedade, da nação e da humanidade? Ou só interesses particulares e parciais? Se me escuta um jornalista, um publicista, uni homem que exerce influxo na opinião pública, reflicta sobre o valor e sobre o fim desta sua influência.

Também eu que vos falo, eu o Papa, que devo fazer para actuar prudentemente? Vêm-me ao espírito as cartas de Albino Luciani, então Patriarca de Veneza, a São Bernardo. Na sua resposta ao Cardeal Luciani, o Abade de Claraval — Doutor da Igreja — recorda com grande insistência que deve ser “prudente” quem governa. Que há-de fazer então o novo Papa a fim de proceder prudentemente? Sem dúvida muito deve fazer neste sentido. Deve sempre aprender e sempre meditar em tais problemas. Mas, além disso, que pode Ele fazer? Deve orar e fazer o possível por ter aquele dom do Espírito Santo que se chama dom do conselho. E todos quantos desejam que o novo Papa seja Pastor prudente da Igreja, peçam para Ele o dom do conselho. E para si mesmos, peçam também este dom, por meio da especial intercessão da Mãe do Bom Conselho. Porque deve desejar-se muito que todos os homens se comportem prudentemente e que procedam com verdadeira prudência aqueles que exercem o poder. Para que a Igreja — prudentemente, fortificando-se com os dons do Espírito Santo e em particular com o dom do conselho — participe com eficácia neste grande itinerário para o bem de todos, e para que a todos mostre o caminho da salvação eterna.

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