Artuzinho

Em agosto de 2012 um irmão apresentou em loja um texto onde falava sobre um acidente de trânsito ocorrido com um amigo, tirando a vida de uma criança, o Artuzinho. Fora o depoimento emocionado, questinando o motivo daquilo que ele chamava de brutalidade, referindo-se a conduta do outro motorista envolvido no acidente, o “Motorista da Hilux“. Deu vontade de escrever algo sobre o caso na época e, agora, em época de retorno de carnaval, achei pertinente publicar novamente…

“O Motorista da Hilux”

Publicado Originalmente em 11 de outubro de 2012

Há algumas semanas, no dia da sessão de homenagem ao dia dos pais, o depoimento/desabafo do Ir Luciano, narrando os acontecimentos do dia 29 de julho tocou a todos nós, e a mim de forma especial. É algo que vejo frequentemente em minha atividade profissional, é da mesma forma pela qual antes mesmo de eu nascer, perdi um avô, quando pequeno perdi um tio e há 5 anos pedi um primo, este último, no mesmo local do acidente de Artuzinho.

Preparei este texto para apresentar na reunião subsequente àquela, porém nesse dia o Irm Luciano não se fez presente, nas semanas subsequentes foram reuniões de Companheiro e Mestre, e as semanas foram passando sem que ambos estivéssemos aqui. Talvez este atraso tenha sido providencial, já que a cada semana eu atualizava os dados apresento a seguir, além de estarmos na semana nacional de trânsito.

Pesquisando nos sistemas da PRF, verifiquei que no mesmo dia do acidente de Artuzinho, nas Rodovias Federais ocorreram 518 acidentes, que deixaram 43 mortos. Sei que o Ir Luciano pode estar pensando: “Nossa, Artuzinho virou um número na estatística de mortos…” e eu digo, é ainda pior meu irmão, como ele saiu vivo do local do acidente, como ele ainda foi para o hospital, para as estatísticas mascaradas de nosso governo ele consta como “ferido”, um entre os 362 que ficaram machucados aquele dia.

Do acidente até hoje, passaram-se 72 dias, a ferida no coração da família e dos amigos ainda deve estar aberta Por falar em feridas, nesse mesmo período, outras 18.014 pessoas se machucaram em 32.022 acidentes que também deixaram 1.642 mortos. Isso sem contar os muitos “Artuzinhos” que do hospital não retornaram às suas famílias. Será que é só a mim que esses números assustam? Alguns dias atrás, quando liguei para a central da PRF solicitando esses dados, por coincidência fui atendido pela mesma colega que me forneceu os dados há cerca de um mês. Ela repetiu a pesquisa várias vezes, pois achava que havia algo de errado, em um mês não poderiam ter morrido tantas pessoas… Em 72 dias perdemos mais vidas do que os soldados que perdemos na segunda guerra, ficaram feridos o equivalente a 5% do número de pessoas que se feriram em 20 anos de guerra do Vietnã. E até agora só falei do meu quintal, só falei das Rodovias Federais, e em um período com parte do efetivo da PRF em Greve, nem tudo foi registrado.

Mas, atendendo a filosofia dos nossos governantes, vamos parar de falar de coisas sem importância, tais como vidas, dor, sofrimento Vamos falar do que interessa, vamos falar em dinheiro! Está lá no site do Ministério da Saúde: o equivalente a 60% do dinheiro da saúde pública do Brasil é gasto com atendimento às vítimas de acidentes de trânsito. Será que ninguém mais parou para olhar isso? Vi nessas eleições candidatos falando em projetos mirabolantes para salvar a Saúde, vejo prefeitos empurrando na falta de verba a culpa pela situação de hospitais como o que Artuzinho foi levado (o mesmo de meu primo), e ninguém fala em fechar esse gargalo que leva mais da metade dos recursos.

Mas e agora? Como podemos transformar essas palavras em algo útil, como podemos usar nossa indignação para salvar uma vida que pode ser a nossa, a do nosso filho… afinal, quem aqui nunca perdeu um conhecido em acidente?

Às vezes duvidamos da nossa capacidade de mobilização. Algumas semanas atrás, transmiti aqui um pedido de socorro de um sobrinho DeMolay precisando de doação de sangue em Aracaju. O resultado da campanha é que em uma semana o banco de sangue de Sergipe recebeu mais doadores do que tem capacidade de atender em um ano. A Família Maçônica se mobilizou para salvar um sobrinho, por que não podemos nos mobilizar com o mesmo empenho para salvar milhares de vidas?

Não vou aqui dizer o que fazer, pois todos já sabem as regras de trânsito. Se alguém me vier dizer que conhece o motorista da Hilux do acidente de Arthuzinho e que ele é uma boa pessoa, um homem ou uma mulher de bem Desculpe a franqueza irmão Luciano, mas eu sou capaz de acreditar. Se me disserem que ele teve um pai que lhe ensinou o valor da vida, uma mãe que lhe ensinou a respeitar o próximo, que ele é um dito “cidadão de bem”, não vou duvidar Sabe por quê? Porque em algum momento, todos nós já fomos o “motorista da Hilux”, podemos não ter causado acidentes, mas já infringimos regras, já criamos situações de risco que pela graça do G A do U não resultaram em consequências mais graves. Basta dizes, que nesses mesmos 72 dias desde o acidente, foram registradas 287.730 autuações. São quase duzentos e noventa mil desrespeitos a alguma regra de trânsito! Duzentos e noventa mil situações de risco registradas, imagine-se o que não o foi. Apenas no plantão de ontem eu fiz 13 notificações de ultrapassagem proibida. O que faltou ao motorista da Hilux foi aquilo que pode evitar que um “cidadão de bem” se torne um criminoso, faltou educação de trânsito, que a meu ver também faz parte da educação doméstica. Até hoje vejo pais que mesmo com a cadeirinha no banco de traz preferem colocar o filho no colo, pois “Vai só dar uma voltinha” ou porque “ele estava chorando”. Vejo pessoas que deixam de usar o cinto porque “não vai pegar a estrada” ou que bebem antes de dirigir porque está “pertinho de casa”. Nas estradas acontece a mesma coisa. A placa diz que a curva é perigosa, mas eu confio em minha habilidade Está chovendo, mas eu confio na estabilidade do meu carro É proibido ultrapassar, mas não vinha nenhum carro Neste período que falei mais de 3.000 motoristas foram autuados por dirigir alcoolizados. Acredito que isso se deu por interferência do Pai Celestial! A mão do G A D∴ U pôs em seus caminhos a Polícia, se tivessem seguido, na curva seguinte poderiam encontrar o carro de algum “Arthuzinho”. Cuidado meus irmãos, tudo que fazemos serve de exemplo, é absorvido e às vezes copiado por nossos filhos. Lembremos que um dia eles podem dirigir uma Hilux.

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