“Ausculta Fili”: Um comentário em 7 pontos

O escritor Luiz Cláudio de Assis Pereira escreveu uma réplica à minha resenha crítica sobre seu livro “Entre Dois Amores”, democraticamente publicada aqui no meu York Blog. Julgo de bom alvitre, entretanto, fazer um (espero que breve) comentário sobre a réplica, sumarizado em 7 pontos essenciais sobre os quais o Sr. Luiz Claudio não prestou atenção:

  1. RESENHA OMISSA?

A réplica se inicia com uma reclamação de que a resenha teria sido omissa em não comentar algumas das várias afirmações do seu livro. Isso não foi feito, de fato, e por uma boa razão: resenhas não se destinam a refutar de modo completo, mas a apresentar, de um modo geral, um determinado texto. Neste sentido, a resenha só poderia, como de fato fez, escolher alguns aspectos, sob pena de se converter em outro livro. Neste sentido, a crítica exposta na resenha de que o autor aponta uma grande quantidade de pessoas como sendo maçons, mas falha em comprovar esta filiação, é suficiente para demonstrar a sua falta de rigor metodológico.

De todo modo, a resenha foi bem clara ao apontar um problema óbvio: do fato de que um ou mais agentes sejam maçons não segue necessariamente que suas ações sejam maçônicas. Esse salto indutivo, tônica do livro resenhado, é uma falácia.

  1. COMO IDENTIFICAR UM MAÇOM?

O autor se queixa das dificuldades em identificar um determinado cidadão como maçom, reclamando que a resenha teria apontado de modo falacioso uma suposta facilidade em obter tal informação. Inicialmente, quem ler com atenção a resenha verá que em nenhum momento foi sugerido que a busca pelas informações seria “fácil”. Quando se tratar de pessoa morta, por exemplo, o pesquisador pode ir atrás de fontes primárias – documentos, testemunhos de primeiro grau, por exemplo – ou secundárias, como notícias de jornal.

Quando se trata de pessoa viva, entretanto, surge uma facilidade: é possível perguntar diretamente à pessoa – que pode ou não confirmar, e ao seu círculo social direto.

Dois que são frequentemente apontados como maçons são Edir Macedo e Silas Malafaia. No meio evangélico contemporâneo a condição de maçom é anátema, de forma que esta acusação é sempre utilizada para fins de difamação. Ambos negam categoricamente serem ou terem sido maçons. A biografia de Edir Macedo escrita por Christina Lemos, por exemplo, afirma que o pai de Macedo era maçom, mas nada diz sobre o filho. A negativa pode ser mentirosa? Pode. Mas neste caso, invariavelmente, ela impõe um ônus sobre o pesquisador que queira afirmar este fato.

É possível afirmar categoricamente, por exemplo, que Michel Temer e o General Hamilton Mourão são maçons? Sim, pois nenhum dos dois fez segredo desta afiliação, existindo fotos deles paramentados, ou de seus cadastros maçônicos. É possível saber a Loja em que foram iniciados, o dia, etc.

Mas quando o autor afirma, por exemplo, que Palocci, Maluf, Edir Macedo, José Sarney, etc, são maçons não traz nenhuma fonte que corrobore tal informação, a não ser a tal lista dos 110 maçons famosos. Só que esta lista, apócrifa que é, não serve isoladamente como fonte de absolutamente nada.

A famosa lista de 110 maçons à qual o resenhado/replicante se apega é uma compilação de outras listas, igualmente apócrifas que circulam desde o início dos tempos na internet. Quando DeMolay ativo, em 2002, editei um jornalzinho do meu Capítulo e publiquei uma compilação de uma dessas listas, retirada da internet. Fonte? Times New Roman.

O fato de esta versão específica ter sido publicada por um maçom não lhe confere especial autoridade. Como disse na resenha, a lista tem nome de maçons notórios e de outros não tanto. Não há maiores indicações de fontes adicionais. Se eu publicar essa lista – ou, pior, os 231 nomes com o “tag” maçons do Brasil no Wikipedia isto conferiria autoridade à citação? Não, apenas afundaria qualquer pretensão de autoridade que eu tivesse.

Na minha dissertação de mestrado estou pesquisando as relações entre maçonaria e política na África Ocidental. Eu nunca afirmo a condição maçônica de alguém sem antes cruzar dados. Quando não consigo confirmar, coloco uma ressalva. Se a única fonte é duvidosa (como por exemplo um grupo salafista que protestou contra a realização do REHFRAM 2018 alegando que a Rihanna é uma agente maçônica) eu simplesmente ignoro.

  1. O PROBLEMA DAS FONTES

O problema das fontes não é um problema apenas da pesquisa maçônica, é um problema geral de qualquer pesquisa em ciências humanas e sociais. Já falamos aqui das fontes primárias – depoimentos de testemunhas, documentos originais, etc. E as fontes secundárias?

Ao contrário da queixa do replicante eu não desdenho de autores não-maçons. Alguns, inclusive, são amplamente citados nos meus escritos e/ou compõem parte central, por exemplo, da minha dissertação de mestrado. De autores estrangeiros, por exemplo, cito José Ferrer Benimelli, Guillermo de los Reyes, Jessica Harland-Jacobs, Margaret C. Jacob, Reinhart Koselleck; dos nacionais Alexandre Mansur Barata, Marcos Morel, David Gueiros. Todos fizeram ou fazem pesquisas direcionadas à história da Maçonaria e nenhum, até onde eu saiba, é ou foi maçom.

A crítica direcionada a Gustavo Barroso se justifica e permanece. Por todas as glórias literárias que ele tenha, é um fato notório que os seus escritos contra a Maçonaria foram fortemente influenciados pela literatura fascista ou proto-fascista e antissemita. Isto não pode ser ignorado por nenhum autor que o cite.

Mas este não é um problema que aflige apenas o campo anti-maçônico. A Maçonaria já teve – e ainda tem – apologistas inconsequentes que reproduziam qualquer boato que julgassem válido. No Brasil, por exemplo, autores como Arcy Tenório D’Albuquerque (que, por coincidência, foi colega de Gustavo Barroso na Ação Integralista) endossou a tese de que tudo o que foi feito no Brasil o foi pela Maçonaria.

Só que as dificuldades de pesquisa da década de 30 não são mais as de hoje. É inconcebível que um autor busque escrever uma história política da maçonaria, nos dias de hoje, calcado em autores como Barroso e Albuquerque, ignorando TODA a produção historiográfica subsequente.

  1. QUANTAS CORRENTES IDEOLÓGICAS EXISTEM NA MAÇONARIA?

A má escolha das fontes acarretou na má compreensão do fenômeno. O autor persiste em sustentar a existência de três grandes linhas político-ideológicas da maçonaria, ilustrando esta afirmação com a união entre Roosevelt, Churchill e Stálin. Que Roosevelt e Churchill foram maçons não há dúvidas – é um dado histórico facilmente comprovável. Mas Stálin?

Pondo de modo simples: Não havia maçonaria na União Soviética, e a associação com a maçonaria poderia valer uma viagem só de ida para o Gulag. A Maçonaria foi perseguida pelos Czares e pelos Bolcheviques. O Grande Oriente da Rússia funcionou, no início do século XX, apenas entre 1905 e 1917, e era associado aos liberais urbanos e à facção Menchevique, tendo sido radicalmente suprimida após o golpe bolchevique. A 4ª Internacional, em 1922, declarou a incompatibilidade entre ser maçom e ser comunista.

A tese de que o bolchevismo era ligado à maçonaria existe por força da adesão dos fascistas aos Protocolos dos Sábios de Sião, segundo o qual as forças da revolução e a maçonaria eram ambas instrumentos do judaísmo. Era uma tese endossada por Gustavo Barroso, mas essencialmente falsa.

Existem correntes na Maçonaria? Sim, mas elas não dizem respeito à política ideológica exterior, mas à política ideológica interna, decorrente da adesão a um ou outro discurso de regularidade maçônica.

  1. ALBERT PIKE: FALTA DE PERSISTÊNCIA OU PERSISTÊNCIA NA FALTA?

Na resenha foi dado o benefício da dúvida ao autor do livro – já que ninguém pode ser inteiramente culpado de má pesquisa – mas a réplica dissipou, infelizmente, a dúvida. Não é razoável alguém citar Abel Clarín de La Rive, alegar luciferanismo de Albert Pike e ignorar o caso Taxil.

O replicante diz que conhece o caso Taxil, mas o julgou irrelevante. Significa que ele deliberadamente utiliza citações que sabe ser falsas ou descontextualizadas. Não é mais o caso, assim, de supor mero desleixo metodológico, mas afirmar cabalmente a desonestidade intelectual.

Leo Taxil se retratou publicamente, mas não como um arrependido, mas como um gozador. Ele não mostrou a farsa com aquele olhar compungido desses pequenos marginais que pedem “perdão pelo vacilo”, mas como um Sérgio Mallandro gritando “Pegadinha! Gluglu iéié!”.

  1. QUEM MANDA EM QUEM?

O replicante, ainda, insiste na existência de subordinação do GOB com a Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI). Como “prova”, cita o link geral da homepage da GLUI. Em  local algum no site da GLUI se diz que o GOB é subordinado. O Distrito da América do Sul é subordinado à GLUI, mas não o GOB. O GOB tem um tratado de reconhecimento mútuo com a GLUI. Potências maçônicas, de regra, apenas reconhecem-se, umas às outras, mas cada uma é autônoma.

  1. UMA REDE OU UMA HIERARQUIA?

Um comentário final: A maçonaria tem uma estrutura hierárquica, mas o que se destaca no ambiente social é seu caráter horizontal, como rede. A natureza fraternal da maçonaria, seus símbolos como língua franca possibilitam a formação de laços – fortes ou fracos – entre homens que em princípio não têm outra coisa em comum.

A visão conspiracionista de mundo vê nisso um perigo. A falta de provas só pode ser vista como prova da falta.Ocorre que do fato de se facilitar este contato não segue que os maçons necessariamente ajam como bloco. Não existe uma “bancada do bode” em sentido estrito, mas parece ser um bom tema de pesquisa. Em verdade, o atual cenário político mostra de modo cabal a existência de grupos de maçons que atuam politicamente nos diversos campos ideológicos, existindo grupos de maçons à esquerda, à direita e liberais.

Se isto não é prova da falta de unidade de ação e intenção, então não sei o que mais pode ser.

CONCLUSÃO:

Reitero o afirmado: as relações entre maçonaria e política são um campo que merece um estudo acadêmico sério, mas creio que a obra analisada passou longe desta meta.

 

 

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