Chatometria

Há dois tipos de chato: o inseto, que se elimina com inseticidas; e o humano, que é, em si, a personificação de uma doença chamada ‘chatice’. Esta pode se apresentar sob as formas crônica ou aguda, sendo primeira a mais comum (e incurável), e a segunda, sua crise ou surto.

O agente causador é um artrópode pediculídeo, ectoparasito hematófago com habitat preferencial na região pubiana e que, em casos severos, pode migrar para outras áreas pilosas, tais como axilas, sobrancelhas, barba e bigode; se as houver…

Seu nome científico é “Phtirius pubis”. O vulgo pode chamá-lo de “piolho-das-virilhas ou piolho-dos-soldados”, primo-irmão do piolho da cabeça – o Pediculus capitis. Ambos são chatos porque obrigam o portador a coçar-se em ritmo paroxístico nos momentos e lugares mais impróprios…

          Do chato, portanto, surgiu a ‘chatice’, moléstia exclusiva do ser humano; o portador é sempre chato. De modo inescapável. Sistemático. Absoluto. Contumaz. Reincidente.

         Das centenas de alcunhas que o chato admite, citarei apenas algumas para não me tornar eu mesmo um chato.

Na linguagem castiça, o chato é o “Maçante, enfadonho ou cacete”. Na mais vulgar, é o mala, o sarna, o cricri, o grude e o famoso ‘de galocha’. São subtipos comuns do chato: “o morrinha etílico(dispensa descrição), o irresistível (campeão das conquistas amorosas), o confidencial (fala ao-pé-da-orelha), o sabichão-garganta(exagera vitórias pessoais), o pregador (sempre a impor sua fé), ocutucador (cutuca as costelas do interlocutor), o chafariz (cospe e respinga ao falar), o poliqueixoso (sofre de tudo; os médicos logo o reconhecem), o obequioso (sempre pronto a ajudar, ainda que não solicitado), o engraçadinho (de cujas piadas ninguém ri). Por fim, o chatode-largo-espectro, que não é nada disso, mas é chato sempre, faça o que fizer, diga o que disser.

         Quem não conhece algum chato? Faz parte da vida em comunidade. Mas tudo tem limite. Chega um momento em que, mesmo com toda a paciência, não dá pra agüentar. Urge, então, dar o fora para não explodir.

Por sorte, sou dono de um chatômetro de alta precisão, sensível aos mínimos indícios da chatice: a voz, a risadinha, a gesticulação, a solicitude com que tira uma caspa inexistente da minha lapela ou me ajeita o nó da gravata e me aperta o colarinho, o contorno geral, sei lá… Num instante, faço meu diagnóstico e começo a preparar a retirada estratégica. Quando dá… Quando não dá, fazer o quê?

O chato é um lutador infatigável, persistente, ou seja, o chato é um forte. Sabe que é chato, mas faz uma força danada para não sê-lo. Só não consegue porque desconhece a fórmula e, quanto mais tenta, mais chato fica. Ele é um exímio abridor de clareiras, que esvazia qualquer rodinha. Enfim, o chato é um antígeno; seu destino, seu fardo é criar anticorpos…

Pode-se medir o chato pela constância com que é visto sozinho ou acompanhado de um cachorrinho na coleira. Mas cuidado! Ele está sempre caçando. Bobeou, ele ataca. E, por uma compulsão insuperável, começa logo a agir.

Esse triste espécime, claro, não tem amigos, e se consola seguindo os passos aleatórios e as paradas contingenciais de seu cão. Itinerário, que é bom, ele nunca tem; é feito de-poste-em-poste. E em nome da profilaxia das doenças circulatórias, ele caminha, caminha… horas-a-fio, sempre atento à perspectiva de grudar em alguém.

Certa vez, um chato me abordou num velório com missa-de-corpo-presente. Não pude escapar. Em vez de louvar as virtudes do defunto – que as tinha em profusão – ele enfiou três perguntas descabidas, pronunciadas alto-e-bom-som e precedidas de uma leve cotovelada na minha costela:

– Mas que prazer, Mario!

      – Como vai? – respondi, cauteloso, aproveitando a austeridade da circunstância para não sorrir.

– Vou bem. Aliás, sempre vou muito bem. A propósito, que achas da campanha do Corinthians?

– Não ligo a mínima pro Corinthians – retruquei, peremptório, embora baixinho, como obrigava o protocolo.

– Ah, tudo bem. Então, que opinas sobre o assassinato do Kennedy? Foi o Lee Oswald mesmo?

          – Isso aconteceu em 1963… – observei em tom grave e monocórdio.

– Até hoje persistem dúvidas…

– Ora, por favor…

O saco estava enchendo, e ele voltou à carga:

          – Tudo bem, tudo bem. Nesse caso, me responde: quem vai ser eleito?

         Já notaram que quase todo chato é um perguntador? Acho que sei por quê: ele raramente tem respostas…

Pronto! Enchi e o convidei a sair. Lá fora, o saco estourou:

         – Você acha que o momento recomenda esta conversa? Estamos num velório, cara…

         – Desculpa, não fiz por mal.

         – Tudo bem. Agora, com licença. Vou voltar pr’a igreja.

         – Claro. Fique à vontade.

Assim, com esse destempero, me livrei desse Pthrius pubis. Hoje, ele não me aborda mais. Mesmo assim, pra me garantir, basta avistá-lo de longe e já trato de me desviar e passar ao largo…

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