“Com que roupa eu vou?”

A Maçonaria é uma organização que possui suas leis escritas e não escritas. As chamadas “leis não escritas” são aquelas oriundas dos usos e costumes. Albert Mackey, um dos mais célebres autores maçônicos americanos de todos os tempos, desdobra a legislação maçônica em três: os Landmarks, os Regulamentos Gerais e os Regulamentos Locais.[1] Os Landmarks, para ele, constituiriam nos costumes – a lei não escrita – costumes esses que, para serem assim reconhecidos, devem existir sem oposição desde tempos imemoriais.

Mas existem outros costumes cuja defesa custa bastante energia aos irmãos. Abordarei hoje um deles: o da vestimenta.

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Cena da esquete “Como identificar um Franco-Maçom”, do grupo de humor Monty Python

Nós sabemos que o distintivo do maçom é o seu avental. É um ponto pacífico, presente em todos os rituais da maçonaria simbólica que eu conheço. A vestimenta a que me refiro não é, pois, o avental, mas o binômio terno alvinegro / balandrau.

Se você perguntar a qualquer maçom mediano o porquê dessas roupas ele provavelmente responderá à moda de Chicó, personagem de Suassuna: “Não sei… só sei que é assim”. Ou então dará alguma explicação esquisotérica a respeito da dualidade do alvinegro, etc., mas sempre com a convicção de que o uso de terno ou balandrau é uma universalidade auto-evidente.

Mas não é essa a realidade. O uso de terno alvinegro não é uma obrigatoriedade universal, e não vejo razão de ser assim encarado. Explico minha posição.

A moda maçônica, por assim dizer, nada mais é do que um reflexo da moda masculina do momento. A moda está em constante mudança[2]. No século XVIII, por exemplo, os trajes formais dos homens eram variedades de jaquetas, jaquetões, calças e lenços. Ao longo do século XIX essas vestimentas foram evoluindo para paletós, casacas, sobrecasacas até chegar na forma atual

Aparentemente esses maçons do Século XVIII não receberam o memorando avisando da roupa alvinegra
Aparentemente esses maçons do Século XVIII não receberam o memorando avisando da roupa alvinegra.

O perfil do maçom brasileiro, historicamente, é o de homem de classe média ou alta, com uma boa proporção de profissionais liberais. Essas classes tradicionalmente sempre usaram essas variações das roupas formais nas reuniões pois eram as roupas que se esperavam de um homem sério no trato social.

Ocorre que os tempos mudaram, e o conceito de “roupa séria” ou “roupa de trabalho” se expandiu, abarcando mesmo calças jeans e camisas pólo ou de manga curta. Se em 1950 um homem não estava adequadamente vestido nem para ir num banco ou no médico usando camisa polo e calça jeans, não se pode dizer o mesmo hoje.

Vivemos em uma realidade consideravelmente mais agitada do que a dos nossos irmãos de trinta anos atrás. As jornadas de trabalho já frequentemente se estendem além do normal e o trânsito está muito pior. Além disso, o ambiente cultural é cada vez mais refratário a culturas como a maçônica, o que torna a ambientação dos novatos ainda mais difícil.

Neste contexto não é incomum que um irmão se veja desestimulado a atravessar a cidade do trabalho para casa e da casa para a Loja apenas para trocar de roupa, sob pena de ter que usar um balandrau (os quais, sabidamente, só vêm em dois tamanhos: muito grande ou muito pequeno, e tradicionalmente vêm perfumados por uma longa linhagem de catingas acumuladas).

Entendo que a Loja deve ser um lugar confortável para os seus membros. E, não sendo a vestimenta externa um item dos landmarks, e nem um costume imemorial – já que a moda muda constantemente – não vejo sentido em amarrar todas as lojas aos padrões e gostos de alguns.

Claro que há bons argumentos em defesa dos ternos e da uniformidade; Cliff Porter, por exemplo, em “A Traditional Observance Lodge: One mason´s journey to fulfillment” (Colorado Springs: Starr Publishing, 2013) sustenta a utilidade de se criar um uniforme, uma identidade visual de cada loja, que refletisse a importância e a solenidade que o próprio indivíduo dedica à Loja.

Mas ao mesmo tempo Porter não sustenta que deve haver um padrão para todas as lojas, mas sim que cada loja deve buscar o seu padrão.[3]

É neste sentido que me quero fazer entender: não estou atacando a formalidade do terno, mas sim a sua obrigatoriedade para sessões econômicas, imposta de cima para baixo, impedindo que cada Loja possa discutir e decidir o melhor para a sua própria realidade.

Nos Estados Unidos – país que ainda tem a maior maçonaria do mundo mas que apesar disso é visto neste campo com desdém por nós, latinos – cada Loja faz sua regra, salvo melhor juízo. Umas são mais formais, outras são informais. Há Lojas que criaram uma identidade visual adequada à cultura local, como as “Farmer´s Lodges”, em que os membros usam roupas de trabalho no campo; as Lojas Militares, em que os membros usam seus uniformes, e grupos especiais para concessão de graus, como o  Confederado, que usa uniformes militares da época da guerra civil, e o time dos homens da montanha, que usam uniformes dos montanheses do século XIX (ambos sob a jurisdição da Grande Loja do Mississipi).

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Não é possível mais se prender ao acessório e não ao principal. No passado havia quem reprovasse maçons barbudos e cabeludos que “andassem com calças apertadas com passos de gazela”. Até recentemente não se viam maçons tatuados ou com brincos.

Trecho do Livro "Recortes Maçônicos", de Oswaldo Bernardes de Souza, c. 1970. O autor pediu o quit-placet de sua Loja por conta de barbudos e cabeludos serem iniciados.
Trecho do Livro “Recortes Maçônicos”, de Oswaldo Bernardes de Souza, c. 1970. O autor pediu o quit-placet de sua Loja por conta de barbudos e cabeludos serem iniciados.

Quando reconhecermos que são apenas modas, e que o importante é o homem, não a vestimenta, possamos talvez agir com o pragmatismo do Sherlock Holmes de Jô Soares em “O Xangô de Baker Street”:

 

– Não lhe dê crédito, senhor Holmes, são exageros de amigo. Que tipo de roupa gostaria? Tenho aqui as mais lindas flanelas e casimiras da sua terra. O que prefere?

Holmes respondeu enquanto alisava os panos sugeridos:

– Nem uma coisa nem outra. Gostaria que o senhor me fizesse quatro ternos de linho branco.

– Linho? – espantaram-se Guimarães e o alfaiate. – Mas ninguém que seja de qualidade usa disso por aqui – argumentou Calif.

– É coisa para o zé-povinho – completou Guimarães Passos.

– Pois inaugurarei a moda – afirmou, teimosamente, o inglês.

– Que seja linho, então – disse Salomão pegando a fita métrica e aproximando-se de Holmes em frente ao espelho.

– E branco, não se esqueça. Não entendo como vocês não usam roupas mais leves, adequadas ao calor dos trópicos

.´.

[1] Masonic Jurisprudence, p. 14

[2] A título de exemplo, o Ritual de Aprendiz do Rito Escocês publicado pela Grande Loja da Bahia em 1947 previa que em sessões magnas o traje de rigor seria o preto com luvas brancas, enquanto nas estações quente o terno poderia ser….branco!

[3] Porter vai além e desaconselha mesmo o uso de pins e joias que não sejam as dos postos oficiais, para que a atenção não se desvie do trabalho para o indivíduo, no que inclusive tendo a concordar.

PS.: descobri depois que usei a expressão “terno” de forma inadequada. Entendam como o conjunto mínimo paletó – calça – gravata – sapatos & meias pretos e camisa branca.

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