Diálogos de um Velho Cobridor – I:6

 

Os “Diálogos do Velho Cobridor” são uma série de pequenas peças escritas pelo Ir∴ Carl Claudy no ano de 1924. São 70, no total, divididas em 7 capítulos. O YORK BLOG disponibilizará a tradução de dois diálogos por semana para os seus leitores, às terças e quintas.

Diálogos de um velho Cobridor

Por Carl Claudy (1879-1957)

Tradução: Edgard da Costa Freitas Neto, M∴ M

Capítulo I – Shekinah

6. O significado íntimo

O terceiro grau da Maçonaria diz algo mais do que efetivamente diz?”, perguntou o novato, na antessala, àquele que porta a espada, oferecendo-lhe um cigarro.

E o que ele efetivamente diz?”, inquiriu o velho Cobridor, tirando um cigarro do maço e acendendo-o.

Quê? Você sabe o que diz! Engraçado me perguntar isso; quem te ouve pode pensar que você nunca assistiu à cerimônia!”

Ah, já a assisti um monte de vezes”, respondeu o velho Cobridor. “Assim como outros tantos homens. Mas me parece que o terceiro grau parece dizer algo diferente para cada homem que o recebe , bem como para todos que assistem. Então, antes de responder se ele significa algo mais do que diz, precisarei saber o que significa para você, certo?”

Mas esse é o ponto! Não sei o que significa para mim!”, lamentou o novato. “É tudo tão novo e tão estranho. Ele deve ter um mais profundo do que apenas a cerimônia. Não pode ser apenas a repetição do que pode ou não ser um fato histórico!”

O velho Cobridor deu uma baforada em seu cigarro. “Penso que o terceiro grau da Maçonaria é um dos símbolos mais bonitos já erigidos pelo homem para ensinar-lhe o que ele já sabe e para ensinar aos outros o que eles devem saber. Suas lições óbvias e imediatas são a fidelidade à confiança depositada, a fortaleza em face do perigo, o fato de que o bem que o homem faz sobrevive a ele e a inevitabilidade da Justiça. Mas existem outros. Imortalidade, por exemplo.”

Eu vi que o grau de Mestre ensina sobre a imortalidade”, respondeu, afobado, o novato. “E que a encenação pode ser interpretada como simbolizando a ressurreição, como, de fato, o ritual explica em parte“.

Mas existe um significado mais central no ensinamento sobre a imortalidade“, continuou o velho Cobridor. “Você tem um cordão com apenas um final?”

Que? Tal coisa não existe.. Ou ele não tem fim, sendo circular, ou tem dois fins

O velho Cobridor olhou seu interlocutor fundo nos olhos. “Imortalidade, também, não pode ter apenas um fim. Qualquer coisa que existe para viver para sempre precisa ter vivido desde sempre. Se teve um começo determinável, então deve ter um fim.

Você está dizendo que a Maçonaria ensina a teoria da reencarnação, pela qual todos nós já vivemos antes, e viveremos novamente?”, perguntou, agastado, o novato. “Não sou budista!”

Não quis dizer nada do tipo“, explicou o Cobridor. “A teoria budista da reencarnação é apenas mais uma maneira de entender a teoria da imortalidade. Claro que é possível crer que a nossa parte imortal, a qual nos foi dada diretamente por Deus eterno, sem pensar se ela já viveu anteriormente em outra pessoa ou noutro animal, como crêem os animistas. Mas não vejo como como alguém que creia numa vida sem fim possa crer também que nossas almas surgiram quando nossos corpos nasceram.

Se eu serei imortal no futuro, e tenho uma alma que foi imortal no passado, devo portanto ter uma alma imortal agora.  Sou tão imortal e terno agora como serei quando meu corpo estiver sendo depositado na terra e meus irmãos vestirem meus restos mortais com meu avental branco e um ramo de acácia for jogado sobre minha forma sem vida.

Assim, portanto, se eu devo ir mais longe nos ensinamentos da imortalidade para extrair o significado central do terceiro grau eu não preciso do grau de mestre maçom para me ensinar o que o senso comum diz sobre um cordão com um final apenas!

Todos os homens são, em certo sentido, casas assombradas. Os fantasmas dos seus ancestrais há muito mortos se levantam para caminhar consigo. O homem bom que faz uma coisa ruim, o homem esperto que faz algo estúpido, o estúpido que faz algo muito sagaz, todos são assombrados por aqueles que já passaram pela vida. Não somos apenas uma pessoa, mas uma multitude. Temos o nosso eu do dia a dia; Temos um eu melhorzinho, , um eu egoísta, um eu altruísta, um eu amável. Algumas vezes um desses ‘eu’ está no controle, outras, outro.

O terceiro grau não me ensina apenas a importalidade da alma, mas a soerguer meu melhor eu na minha própria casa, aquele ‘templo construído não através das mãos humanas’. Ele me ensina a vencer minhas paixões e a permitir que meu melhor eu, meu eu ‘Mestre’ se erga onde quer que ‘naquela colina’ os rufiões o tenham enterrado, para que brilhe, como as estrelas, em mim

O velho cobridor calou-se. O novato quebrou o silêncio para perguntar: “Cobridor, você já estudou para ser pregador?

Não sei tanto assim”, respondeu, rindo. “De onde você tirou essa ideia?

Talvez você não saiba tanto para pregar “, respondeu, lentamente. “Mas certamente sabe o suficiente para ensinar. Próxima vez que for a uma cerimônia de elevação ao terceiro grau, a verei com outros olhos“.

Bondade a sua“. O velho cobridor fez um meneio. “Minhas ideias são apenas as ideias comuns de um maçom ordinário

São as ideias comuns do melhor dos maçons!”, declarou o novato.

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