Diálogos de um velho Cobridor – I:7

Diálogos de um velho Cobridor

Por Carl Claudy (1879-1957)

Tradução: Edgard da Costa Freitas Neto, M∴ M

Os “Diálogos do Velho Cobridor” são uma série de pequenas peças escritas pelo Ir∴ Carl Claudy no ano de 1924. São 70, no total, divididas em 7 capítulos. O YORK BLOG disponibilizará a tradução de dois diálogos por semana para os seus leitores, às terças e quintas.

Capítulo I – Shekinah

7. Por que os homens amam a Maçonaria?

 Na antessala da Loja o maçom novato se aproximou do velho Cobridor. Puxou uma cadeira e se sentou ao seu lado, cruzando as pernas e estendendo-lhe um maço de cigarros.

Puxe um e me tire uma dúvida que está me deixando encasquetado.

O velho cobridor aceitou o cigarro com um sorriso.

Eu tenho muitas dúvidas também. Me conte, o que há?

Sou louco pela Maçonaria. Amo. Eu e uma torcida do Flamengo de outros homens. Mas não sei a razão. Nem encontro alguém que a dê. Cobridor, me diga, por que os homens amam a Maçonaria?

O velho cobridor se levantou e atravessou a sala junto a uma caixa de livros, apanhando um volume e retornando:

Já li essa pergunta nesse livrinho, ‘A magia da Maçonaria‘, de Arthur E. Powell. Deixe-me ler para você.

O velho cobridor folheou o volume até encontrar a passagem. Então se sentou e começou a ler:

– ‘Por que os homens amam a Maçonaria? O que os leva até lá? Que encantamento os mantém lá ao longo dos anos? Que cabo é esse que os prende a reboque desde o coração, numa amarração apertada, quando tantos outros se partem em nosso mundo? O que há na natureza que apela para as coisas selvagens? Que segredos secretos a montanha sussurra para o alpinista, tão silencioso mas tão alto que pode ser ouvida desde a rés do chão? Que mistérios conta o mar para o marinheiro, o deserto para o árabe, o gelo ártico para o explorador, as estrelas para o astrônomo? Quando respondermos a essas questões aí poderemos, talvez, adivinhar a magia da Maçonaria. Quem saberá o que é, o como ou porquê, senão um longo reboque de Deus, que vai de coração em coração…”

O velho cobridor fechou o livro e aguardou.

Um longo reboque de Deus – repetiu o novato – Eis uma frase bonita.

É mais que uma frase, penso eu – respondeu o velho Cobridor. – Tal como vejo, o coração da Maçonaria, para o qual todos os tipos de homens são atraídos  é apenas isso: a ânsia por estar em comunhão o o Altíssimo.

Hum… o senhor deve estar enganado. Os homens que buscam a Deus vão para a Igreja.

Você vai para a Igreja?

Bem….. errrrr…. às vezes

E à Loja, você falta?

Bem, não, mas….

Sem isso de “mas…” – O cobridor sorriu – Muitos homens vão à Loja mas não encontram conforto em suas Igrejas. A Loja não é substituta da Igreja, a Maçonaria não é religião. Se a Igreja falha eventualmente, é por que todas as instituições humanas falham. Nenhum pastor, padre ou Igreja pode satisfazer todos os homens. alguns homens encontram a comunhão com o Altíssimo de modo mais satisfatório na Maçonaria que na Igreja. Acho que é por isso que alguns homens amem a maçonaria tanto assim.

Você me toma por mais religioso que eu sou – retorquiu o novato.

Os homens são religiosos incuráveis – asseverou o velho cobridor. – Muitos não o sabem e recusam o rótulo, como você, por exemplo.Numa Igreja conta-se aos homens muitas coisas sobre Deus. Numa Loja os homens podem falar o que quiserem. Numa Igreja lhe é ensinado um Credo e um ou mais dogmas. Não há tal coisa na Loja. Numa Igreja você fica quieto e contrito, e sussurra, praticamente, se desejar falar. A Loja é mais íntima, pessoal. Você pode ser um fanfarrão na Loja, exceto nas concessões dos graus. Ali estão outros homens, seus irmãos. Pensam como pensamos. Crêem em Deus, como cremos. Repetem as mesmas palavras, os mesmos gestos, como nós. Nos sentimos em casa, assim.

Através de anos de graus simples e profundos, formamos esse laço místico. Não sabemos dizer de que é feito. Não podemos dar-lhe um nome. Como disse Santo Agostinho, ‘Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a quem me pede, não sei.’. No seu coração você sabe – eu sei – o que esse laço místico, a Maçonaria, é. Mas você não sabe descrever, nem eu. E é por isso que usamos símbolos, para expressar aquilo que as palavras não bastam.

Dentro de nós está algo que compreende o que o cérebro não consegue, que sabe o que a mente não compreende. A Maçonaria dialoga com esse algo em sua linguagem própria. Se formos passar para palavras, Deus é a única que se encaixa. Mas ao falar em Deus a Ordem não invoca nenhuma deidade específica, mas tudo aquilo que é belo na vida, na amizade, na fraternidade e na caridade,

Então, irmão, não há razão para dúvida, nenhum homem pode respondê-la. A Maçonaria é amada porque vai no coração, e fornece meios para responder às dúvidas que a língua não consegue

A menos que seja a língua de um Cobridor mui sábio. Obrigado, irmão, não tenho mais aquela dúvida!

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