Estátua de Albert Pike no centro de controvérsia nos EUA.

As feridas da Guerra Civil Americana (ou Guerra de Secessão) ainda sangram nos Estados Unidos. Desde o massacre de Charleston (2015), onde um supremacista branco abriu fogo contra fieis de uma igreja, matando nove pessoas, avolumaram-se as críticas contra os símbolos dos Estados Confederados da América que resistem nos estados sulistas que o compunham.

O anúncio da retirada de uma estátua equestre do General Confederado Robert Lee (1807-1870) na cidade de Charlottesville (Virgínia) causou nos dias 11 e 12 últimos uma manifestação de protesto da extrema-direita que acabou confrontada diretamente por uma manifestação da extrema-esquerda, numa espiral de violência que resultou em um morto e quase quarenta feridos.

O episódio acendeu um rastilho de manifestações, depredações e retiradas de estátuas de líderes confederados por todo o Sul dos EUA. E neste contexto a estátua de Albert Pike (1809-1891) se tornou o alvo mais recente de protesto, vandalismo e do oportunismo de políticos locais

Albert Pike é conhecido pelos maçons como sendo o autor de diversas obras sobre simbolismo e filosofia maçônica, tendo sido Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Rito Escocês da Jurisdição Sul dos EUA por mais de trinta anos. Também é objeto de lendas e mitos, como o de ser satanista e fundador da Ku Klux Klan.

Pike serviu no exército americano durante a Guerra Mexicano-Americana (1846-1848) no posto de Capitão, servindo posteriormente ao exército da Confederação durante a guerra civil, com o posto de General de Brigada, comandando uma unidade de índios (Pike morara bastante tempo com os índios Cherokee). Durante a Batalha de Pea Ridge (março de 1862) índios de sua unidade mataram e escalpelaram soldados da União capturados. Acusado de incompetência e malversação (acusações depois levantadas por falta de provas), Pike renunciou ao posto no Exército Confederado, retornando para o Estado do Arkansas depois de um breve período de prisão.

A estátua em questão foi mandada construir em Washington D.C. pelo Supremo Conselho do Rito Escocês após sua morte para lembrar seus feitos como maçom, tendo recebido autorização do Congresso dos EUA para tal. Ocorre que, tendo sido também General do exército confederado, Pike permanece sendo o único oficial confederado a ter uma estátua sua no Distrito de Columbia. Não possui nenhum símbolo militar ou da Confederação; a Estátua mostra apenas Pike Segurando um exemplar de sua obra prima Moral & Dogma e um estandarte com um símbolo do Supremo Conselho.

Protestos contra ela não são exatamente novos. No início dos anos 90 militantes de extrema direita liderados pelo professor e teórico da conspiração Lyndon LaRouche exigiram a retirada da estátua, acusando-o de satanista.

A acusação de satanismo tem origem no chamado Affaire Taxil (1890), quando um pornógrafo francês chamado Leo Taxil, fingindo-se convertido, inventou e distorceu uma série de textos de Pike, convencendo o clero católico de que Pike seria uma espécie de Papa mundial da Maçonaria e que tinha contatos com Satanás em pessoa (não é exagero, isso foi afirmado MESMO). Posteriormente a fraude foi revelada pelo próprio Taxil, mas requentada décadas depois (com a exclusão da referência à fonte) por fundamentalistas protestantes antimaçônicos.

Já a acusação de Pike ter sido membro da KKK não encontou qualquer respaldo probatório até hoje. Segundo Christopher Hodapp, citando um artigo de Gary Scott, a Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou a Ku Klux Klan na década de 1870 escreveu um relatório 13 volumes sem que o nome de Pike fosse citado uma única vez relacionado a qualquer atividade da KKK.

Pike era racista e defendia a segregação racial, e no período que antecedeu a guerra civil aceitava a escravidão como instituição social. Mas, como bem lembra Arturo de Hoyos, o principal especialista em Albert Pike na atualidade, Pike era um homem de seu tempo: Praticamente todos eram racistas e segregacionistas naquele tempo, incluindo aí muitos dos abolicionistas.

Políticos locais, como o conselheiro David Grosso, se apressaram em declarar que a estátua de Pike como um símbolo de ódio e opressão.

De todo modo, se antecipando ao oportunismo à direita e à esquerda que podem querer usar a estátua como plataforma de seus projetos de reescrita da história, De Hoyos já antecipou a um jornal local que o Supremo Conselho aceitará qualquer decisão da administração distrital sobre a estátua. “Certamente não queremos que um monumento erigido  em realidade para honrar a Fraternidade sirva de ponto divisivo na comunidade em matéria racial”.

Aguardemos cenas do próximo capítulo.

Montagem de autoria de Arturo de Hoyos

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