Je suis Charlie?: Uma perspectiva maçônica

Jean-Jullien-Je-Suis-Charlie-illustration_dezeenEstá viva ainda na memória de todos o infame atentado terrorista ao jornal francês Charlie Hebdo, ocorrido em janeiro deste ano. Estavam entre as vítimas dois maçons do Grande Oriente de França e o esposo de uma mestra de uma Loja Mista.

No mundo as manifestações a favor do jornal ganharam um tom: “Je suis Charlie”. Mas pode um maçom antigo e regular o ser?

Explico o porquê. O Charlie era um jornal iconoclasta radical, irreverente, ateu, libertino. Não respeitava a nada e nem a ninguém. Se Maomé foi retratado de maneira que os muçulmanos julgaram blasfema, também o cristianismo foi retratado de maneira ainda mais blasfema.

Dizer “Sou Charlie” significa endossar esses impropérios?

A Maçonaria tem uma origem religiosa bastante clara. Os antigos manuscritos dos nossos precursores operativos, todos, invocavam a proteção à Santíssima Trindade e submetiam o candidato a um juramento de fidelidade à Igreja.

Na fase especulativa, já as Constituições da Grande Loja de Londres (Modernos), feita por James Anderson, preconizava, sobre o maçom:

O maçom é obrigado a obedecer a Lei moral, e se ele compreende corretamente a Arte jamais será um estúpido ateu ou um libertino irreligioso.

Aquele mesmo documento estabelece que os maçons obedecerão “àquela religião na qual todos os homens concordam” (frase que por si só vale um tratado) e que nas Lojas nossas crenças particulares assim devem ser, de forma que a Maçonaria seja um centro de união e conciliação entre pessoas que, de outra forma, permaneceriam sempre distantes.

O Ahiman Rezon, as Constituições da Grande Loja dos Antigos, por seu turno, preconizava que

O maçom é obrigado pelo seu dever a acreditar firmemente na verdadeira adoração de Deus Eterno, bem como nos registros sagrados que os dignatários e os Pais da Igreja compilaram e registraram para o uso de todos os homens de bem. Assim, ninguém que compreenda corretamente a Arte jamais poderá seguir a senda irreligiosa e infeliz dos libertinos ou ser induzido a seguir as lições arrogantes dos promotores do ateísmo ou do deísmo. Não seguirá, também, os erros grosseiros da superstição cega, mas terá a liberdade de seguir a religião que julgue apropriada. (…) Para a Ordem, ao invés de ingressar na futilidade das disputas desnecessárias sobre as opiniões e persuasões dos homens, admite-se na fraternidade todas as que são boas e verossímeis.

A maçonaria desenvolveu naquele tempo um ânimo de se manter fora das disputas políticas e religiosas, não obstante muitos maçons fossem debatedores ativos em suas sociedades.

Na exortação ao novo aprendiz maçom o Mestre da Loja lembra ao iniciando que ele deve repudiar a blasfêmia ao Pai nos céus como se esta fosse dirigida aos seus pais na Terra (fórmula parecida com a dita, na sequencia dos ataques, por S.S. o Papa Francisco).

Os que foram DeMolay na juventude aprenderam as lições de tolerância e defesa da reverência pelas coisas sagradas.

Pois bem.

Muitas pessoas deploraram o ataque sofrido pelo Charlie Hebdo, entretanto ponderaram que o Charlie não deveria ter mexido com a religião alheia.

Como homens dignos e honrados – maçons – dificilmente nos meteríamos em querelas tais como feitas pelo Charlie. Mas não podemos cair no canto da sereia de achar que a liberdade de expressão não envolve o direito de ofender.

Irmãos: quando sentir-se ofendido der a alguém algum direito, creiam, todos se sentirão ofendidos por qualquer coisa.

Se aceitarmos que não se pode ofender caímos na armadilha de outorgar a alguém o poder de definir quais os limites da liberdade de expressão. Quem definiria o que é ofensivo? Quem definiria qual discurso é lícito, qual é ilícito? Sob que critérios?

A liberdade de expressão é fácil de se defender quando o discurso em questão nos é agradável.

Uma velha piada conta que um turista americano disse para Fidel Castro: “Nos Estados Unidos eu tenho o direito de subir num palanque e falar mal do presidente Bush!”, ao que o cubano respondeu: “Grande coisa. Aqui em Cuba eu também tenho liberdade de subir num palanque e falar mal do presidente Bush!”.

Ocorre, meus irmãos, que a liberdade de expressão só é verdadeira se ela incluir, também, os discursos que nós odiamos. Quem de nós é tão onissapiente e infalível capaz de afirmar peremptoriamente que está correto e o outro, errado?

Afinal, se assim não o for, quem garante que o discurso hoje lícito e aceitável para nós não seja considerado, amanhã, pernicioso e violento, a ser tolhido pelas leis e pelo populacho?

Já não é isso o que ocorre com qualquer um que receba hoje o rótulo de “machista”, “homofóbico”, “ racista”, muitas vezes rótulos completamente aleatórios?

Defender o direito do Charlie Hebdo de dizer seus disparates é apenas defender o direito de se viver num mundo em que o debate público, o “livre mercado de ideias” funcione. Como maçons não devemos permitir discussões políticas e religioso sectárias ocorram em nossas Lojas, mas não podemos ignorar que sem um discurso livre não faz sentido falar em liberdade religiosa ou política.

(Peça apresentada na Loja Maçônica Fraternidade, Auxílio e Verdade, n. 187 – GLEB, em 04/02/2015)

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