Maçonaria na Literatura: “O Cemitério de Praga”, de Umberto Eco

Umberto Eco, notável escritor italiano, faleceu ontem, 19 de fevereiro de 2016, aos 84 anos. Um dos seus últimos livros, “O Cemitério de Praga”, conta – misturando história e ficção – o surgimento dos “Protocolos dos Sábios de Sião”, uma das peças fundamentais das teorias da conspiração judaico-maçônica. Um dos grandes destaques do livro é a participação do protagonista do affaire Taxil, que até hoje influencia as teorias da maçonaria como satanismo.

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“Um dos problemas que enfrentamos foi como caracterizar o general Pike, o grão-mestre da Maçonaria Universal que, de Charleston, dirigia o destino do mundo. Porém, não existe nada mais inédito do que aquilo que já foi publicado.

Assim que iniciamos a publicação de Le Diable, saiu o esperado volume do monsenhor Meurin, arcebispo de Port-Louis  – onde diabos ficava isso? – La Franc-Maçonnerie Synagogue de Satan; e o doutor Bataille, que mastigava o inglês, havia encontrado durante suas viagens The Secret Societies, um livro publicado em Chicago em 1873, de autoria do general John Phelps, inimigo declarado das lojas maçônicas.

Precisávamos apenas repetir o que havia nesses livros para desenhar melhor a imagem daquele Grande Ancião, grão-sacerdote do paladismo mundial, talvez fundador da Ku Klux Klan e participante do complô que levara ao assassinato de Lincoln. Decidimos que o grão-mestre do Supremo Conselho de Charleston ostentaria os títulos de Irmão Geral, Soberano Comendador, Mestre Perito da Grande Loja Simbólica, Mestre Secreto, Mestre Perfeito, Secretário íntimo, Preboste e Juiz, Mestre Eleito dos Nove, Ilustre Eleito dos Quinze, Sublime Cavaleiro Eleito, Chefe das Doze Tribos, Grão-Mestre Arquiteto, Grande Eleito Escocês da Volta Sacra, Perfeito e Sublime Maçom, Cavaleiro do Oriente ou da Espada, Príncipe de Jerusalém, Cavaleiro do Oriente e do Ocidente, Soberano Príncipe Rosa-Cruz, Grande Patriarca, Venerável Mestre advitam de todas as Lojas Simbólicas, Cavaleiro Prussiano Noaquita, Grão-Mestre da Chave, Príncipe do Líbano e do Tabernáculo, Cavaleiro da Serpente de Bronze, Soberano Comendador do Templo, Cavaleiro do Sol, Príncipe Adepto, Grande Escocês de Santo André da Escócia, Grande Eleito Cavaleiro Ka- dosch, Perfeito Iniciado, Grande Inspetor Inquisidor Comendador, Claro e Sublime Príncipe do Real Segredo, Trinta e Três, Potentíssimo e Potente Soberano Comendador-Geral Grão-Mestre do Conservador do Sacro Paládio, e Soberano Pontífice da Franco-Maçonaria Universal.

E citávamos uma carta dele em que se condenavam os excessos de alguns irmãos da Itália e da Espanha que, movidos por um ódio legítimo ao Deus dos padres , glorificavam o adversário deste sob o nome de Satanás – um ser inventado pela impostura sacerdotal, cujo nome jamais deveria ser pronunciado em uma loja. Assim, condenavam-se as práticas de uma loja genovesa que havia ostentado, em uma manifestação pública, uma bandeira com o texto Glória a Satanás! , mas posteriormente se descobria que a condenação era contra o satanismo superstição cristã , ao passo que a religião maçônica deveria ser mantida na pureza da doutrina luciferiana. Foram os padres, com sua fé no diabo, a criar Satanás e os satanistas, bruxas, bruxos, feiticeiros e magia negra, enquanto os luciferianos eram adeptos de uma magia luminosa, como a dos templários, seus antigos mestres. A magia negra era dos sequazes de Adonai, o Deus mau, adorado pelos cristãos, que transformou a hipocrisia em santidade, o vício em virtude, a mentira em verdade, a fé no absurdo em ciência teológica, e do qual todos os atos atestam a crueldade, a perfídia, o ódio pelo homem, a barbárie e a repulsa à ciência. Lúcifer é, ao contrário, o Deus bom que se opõe a Adonai, como a luz se opõe à sombra.

Boullan tentava nos explicar as diferenças entre os vários cultos daquilo que, para nós, era simplesmente o demônio:

– Para alguns, Lúcifer é o anjo caído que se arrependeu e poderia tornar-se o futuro Messias. Existem seitas apenas de mulheres que consideram Lúcifer um ser feminino, e positivo, oposto ao Deus masculino e malvado. Outros o veem de fato como o Satanás amaldiçoado por Deus, mas consideram que Cristo não fez o bastante pela humanidade e, por conseguinte, se dedicam à adoração do inimigo de Deus – e esses são os verdadeiros satanistas, aqueles que celebram missas negras e assim por diante. Existem adoradores de Satanás que seguem apenas seu gosto pela prática de bruxaria, pelo envoûtement, pelo sortilégio, e outros que fazem do satanismo uma verdadeira religião.

Entre eles há pessoas que parecem organizadoras de cenáculos culturais, como Joséphin Péladan, e, pior ainda, Stanislas de Guaita, que cultiva a arte do venefício.

E, finalmente, existem os paladianos. Um rito para poucos iniciados, do qual fazia parte até um carbonário como Mazzini – e dizem que a conquista da Sicília por Garibaldi foi obra dos paladianos, inimigos de Deus e da monarquia.

Perguntei-lhe por que acusava de satanismo e de magia negra adversários como Guaita e Péladan, ao passo que me constava, através de mexericos parisienses, que justamente ele era acusado de satanismo por esses dois.

– Eh – respondeu Boullan -, nesse universo das ciências ocultas são delgadíssimos os limites entre Mal e Bem, e aquilo que é Bem para uns, é Mal para outros. Às vezes, até nas histórias antigas, a diferença entre uma fada e uma bruxa é só de idade e aparência bonita ou feia.

– E como agem esses sortilégios?

– Dizem que o grão-mestre de Charleston entrou em contato com um certo Gorgas, de Baltimore, chefe de um rito escocês dissidente. Então, conseguiu obter, corrompendo a lavadeira, um lenço dele. Colocou-o para macerar em água salgada e, a cada vez em que acrescentava sal, murmurava: Sagrapim melanchtebo rostromouk elias phitg.

Depois, fez o tecido secar expondo-o a um fogo alimentado com ramos de magnolia; em seguida, por três semanas, a cada manhã de sábado pronunciava uma invocação a Moloch, mantendo os braços estendidos e o lenço desdobrado sobre as mãos abertas, como se oferecesse um presente ao demônio. No terceiro sábado, à tardinha, queimou o lenço em uma chama de álcool, colocou a cinza em um prato de bronze, deixou-a repousar por toda a noite e, na manhã seguinte, misturou a cinza com cera e fez uma boneca, um bibelô. Tais criações diabólicas se chamam dagyde. Colocou a dagyde sob um globo de cristal alimentado por uma bomba pneumática com a qual produziu, dentro do globo, o vácuo absoluto. A essa altura, seu adversário começou a sentir uma série de dores atrozes, cuja origem não conseguia entender.

– E morreu disso?

– São sutilezas, talvez ele não quisesse chegar a tanto. O que importa é que com a magia se pode agir a distância, e é isso o que Guaita e seus companheiros estão fazendo comigo.

Não quis me dizer mais nada, mas Diana, que o escutava, acompanhava-o com um olhar de adoração.”

Umberto Eco Maçonaria

 

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