Maçons, eleições e discussões políticas

Polarização de redes políticas no Facebook. Extraído do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados in https://www.ibpad.com.br/blog/comunicacao-digital/analise-de-redes-para-compreender-a-polarizacao-politica-do-brasil-no-facebook/)

(trabalho apresentado na Loja Maçônica Fraternidade, Auxílio e Verdade nº 187, Grande Loja do Estado da Bahia, em 19 de setembro de 2018)

Amados Irmãos,

Estamos nos aproximando das eleições profanas nacionais, e eu me sinto na obrigação de oferecer uma breve preleção sobre uma das mais antigas proibições da Maçonaria: a proibição de discussões políticas entre seus membros.

Vamos ao contexto histórico. Esta proibição remonta, no mínimo, às Constituições de Anderson, de 1723. A Maçonaria especulativa surge na Inglaterra do início do século XVIII, um país que nos últimos cem anos foi sacudido por conflitos religiosos e uma guerra civil. Os ingleses sabiam na pele o que a intolerância e o fanatismo político e religioso eram capazes.

A Ordem trazia uma grande inovação. Ela trazia a semente do que hoje chamamos sociedade civil, conceito que só seria trabalhado filosoficamente décadas mais tarde com Adam Ferguson (1723-1816) e Georg Hegel (1770-1831). Ferguson afirmava que as sociedades polidas se caracterizavam por um senso de humanidade mais refinado, com apreço pela sabedoria e justiça e com repulsa pela violência descontrolada. Hegel definia a sociedade civil como um espaço de convivência diferente da família, do Estado e das religiões, onde os homens se ligavam de modo voluntário.

Nesta grande inovação a Maçonaria rompeu com o princípio “cuius regio eius religio”, que tornava obrigatório que o súdito seguisse a religião do Rei e fazia com que os não-conformistas fossem tratados como cidadãos de segunda classe. Este princípio vigia em toda a Europa, mesmo nos países protestantes, como a Inglaterra. As Constituições de Anderson – como, posteriormente, a de Dermott – diziam que o Maçom deveria crer em Deus – mas não poderia fazer proselitismo em Loja; Deveria ser um súdito fiel e pacífico do Estado, mas ao mesmo tempo proibia a expulsão de um irmão apenas pelo crime de Rebelião.

Este fato permitiu que às reuniões maçônicas pudessem atender homens de todas as religiões e de todos os partidos políticos. Fez, por exemplo, com que católicos e jacobitas pudessem conviver em Loja com anglicanos e hanoverianos. A condição necessária, entretanto, era a de que eles se abstivessem de debater justamente estes dois pontos, justamente os pontos que mais promoviam a discórdia.

A ideia por trás desta proibição está no fato de que nas discussões político-partidárias ou religioso-sectárias frequentemente os ânimos se exaltam, a temperança e a prudência caem pelo ralo e o amor fraterno – cimento que “une homens de todos os países, religiões e opiniões e fomenta uma verdadeira amizade entre aqueles que, de outro modo, poderiam permanecer eternamente distantes uns dos outros”  – é posto em risco.

Quando tal princípio não foi observado a Maçonaria se tornou um braço de partidos políticos, instrumentalizada para seus fins, e se tornou ora vítima, ora algoz, sempre que os ventos políticos sopravam numa ou noutra direção.

Tenho assistido com muito desgosto os “debates” políticos atuais. Mas me limito a alguns poucos comentários, a maior parte deles jocosos, na minha própria página pessoal ou, mais raramente, na de amigos íntimos com quem tenho recíproca liberdade. Mas vejo irmãos se lançando com paixão uns contra os outros por conta de suas opções políticas, utilizando adjetivos de baixo calão, chavões, slogans, flood. Vejo parentes se ofendendo mutuamente. Vi uma filha bloquear ostensivamente a mãe numa rede social!

Já disse em uma ocasião, aqui nesta Loja, que devemos nos esforçar para construir pontes, não muros. Como maçons, devemos lembrar das palavras de Thomas Smith Webb, e usar nossa condição para “amortecer as disputas que amarguram a vida e azedam o temperamento humano, zelando-se assim pelo bem comum, principal objetivo da Ordem”. Por mais que gostemos do nosso candidato – e desgostemos do outro, não devemos nos misturar à ralé que luta pelos políticos como quem luta por suas famílias. Não devemos nos isolar nas bolhas políticas que se formaram, abertos apenas às ideias e opiniões com as quais já concordamos.

Não, irmãos! Existe uma hierarquia de valores neste mundo. Nossos deveres com Deus, nossas famílias e nossos irmãos, revelados pelas virtudes cardeais (prudência – fortaleza – temperança – justiça) e teologais (fé – esperança – caridade) com que devemos trabalhar, vêm em primeiro lugar. Devemos, pelo exemplo pessoal, persuadir os exaltados, os zelosos, os extremistas (ou, como se dizia naquele tempo, os entusiasmados), a manterem o padrão e o decoro, evitando tentar impor, pela linguagem intemperada e comportamento bruto, suas visões sobre os outros.

Devemos ser corteses, e esta cortesia implica em aceitarmos que não precisamos ir ao embate com qualquer pessoa que, em nossa opinião pessoal, esteja errada. O filósofo Conde de Shaftesbury, uma inspiração mais ou menos perceptível na filosofia subjacente à Maçonaria britânica no século XVIII escreve em sua obra “Characteristicks of men, manners, opinions, times.” (1709), p. 42, sobre a importância da polidez no trato social: “Toda cortesia é credora da liberdade. Polimo-nos uns aos outros e desbastamos nossas arestas e lados brutos por um tipo de ‘colisão amigável’. Impor isso [nossos valores e visão de mundo] equivale, inevitavelmente, a enferrujar o entendimento entre os homens. É a destruição da civilidade, da boa educação e da caridade mesma, sob o pretexto de protege-la.”.

Na mesma obra, à p. 426, ele recapitula que o “homem sábio e apto, que se interesse por tais coisas [beleza, conhecimento, razão, Bem], tendo perante si os modelos corretos, se aplicará em cultivar um tipo de solo diferente, construir com matérias diferentes da pedra e do mármore, ou seja, se tornará Arquiteto da própria vida e sorte, depositando em si as fundações duradouras da Ordem, Paz e Concórdia”.

A prudência e a temperança, duas virtudes cardeais trabalhadas em alguns Ritos Maçônicos logo no Primeiro Grau, nos oferecem um modelo para atuação. Evitemos, pois, a linguagem imoderada, o comportamento imprudente. Como diz Webb em sua exortação ao Terceiro Grau, “deveis (…) pela regularidade de vosso próprio comportamento, dar o melhor exemplo dela para os menos esclarecidos”. Sejam, pois, faróis em suas famílias, nos seus trabalhos, nas suas classes.

Aproveito aqui dois tópicos trabalhados pelo psicólogo Jordan Peterson em recente livro: Sejam bons ouvintes. Presuma que a pessoa com quem você está conversando sabe de algo que você não sabe. Perguntem mais do que afirmem. Quando precisarem afirmar, o façam de forma precisa e direta, sem desperdiçar energia com adjetivos ofensivos e inúteis.

Não se empolguem, pois, com a política, pois é um simples desperdício de tempo – a menos que esta seja sua profissão – pois nem tudo é política, em especial aquelas três coisas no topo da hierarquia das prioridades. A política é o espaço do embate, da retórica e da erística – ou seja, da pura persuasão per fas et nefas – e não da contemplação e da busca pela beleza, conhecimento, razão do Bem e da Verdade.

Não estou dizendo que não devamos ter opiniões políticas, fortes e contundentes. Apenas alerto que existem locais, modos e momentos convenientes para expressá-las. E os espaços de Loja, definitivamente, não o são, como não são a mesa de jantar, o grupo de cursilhos e os correspondentes grupos de Whatsapp.

Na pior das hipóteses, caso se veja preso a um desses tipos insuportáveis e bitolados, não desça ao nível da imbecilidade do seu interlocutor. Sem um interlocutor honesto e disposto a aprender não há diálogo possível, senão, talvez, conforme o “Diálogo ultrarrápido”, de Mário Quintana (in Poesia completa. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 2006):

            “- Queria propor-lhe uma troca de ideias…

             – Deus me livre!”

Era o que eu tinha para dizer hoje, irmãos. Boa noite.

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