O Ágape

Por Rodrigo Peñaloza*

Para nós, o termo “amor” é um termo equívoco, ou seja, o mesmo termo é usado para referir-se a uma imensidade de sentimentos distintos. O nosso idioma não os diferencia porque, no fundo de nossas mentes e da psiquê coletiva, não dedicamos a devida reflexão a eles. Os antigos gregos, entretanto, já pensavam sobre isso.

Eles vislumbravam quatro tipos diferentes de amor e para cada um deles havia uma palavra específica. Primeiro, havia a palavra éros (ἔρος), que designava o amor de natureza sexual, o amor do Homem inteiramente sujeito às forças da Natureza, fosse virtuosa ou viciosamente. Outra palavra para esse mesmo tipo de amor era hímeros (ἵμερος), também significando o desejo e a paixão sexual.

Em segundo lugar havia o termo storgué (στοργή), que designava o Amor com afeição, aquele tipo de amor que conecta os pais aos filhos. Esse tipo de amor é ainda sujeito à Natureza, pois o amor paterno é instintivo, é natural, mas, embora de natureza instintiva, existe nele uma importante diferença de grau: ele é virtuoso, ele expressa a virtude da conexão paterno-filial e é complementado pela boa vontade.

O terceiro tipo era a filia (φιλία), um tipo mais elevado de amor. É o amor do Homem que escolhe livremente quem ou o que amar. Ele não mais é sujeito à Natureza ou à força dos instintos (seja sexual ou de afeto familiar), mas agora são seu espírito e sua mente os únicos determinantes. Os gregos usavam esse termo para se referirem à amizade, pois os amigos são escolhidos, e o usavam também para designar o amor que tinham por algo que desejassem estudar ou cuidar, como, por exemplo, o filósofo, aquele que ama a sabedoria, em que o amor pela sabedoria é do tipo descrito pela palavra filia, não pelas palavras éros ou storgué.

Finalmente, o quarto e mais elevado tipo de amor era o agápe (ἀγάπη), pronunciado assim mesmo, paroxítono, e que deu origem à nossa palavra ágape, tornada proparoxítona por influência de sua latinização. Esse termo designa o amor absolutamente incondicional.

Note a gradação dos tipos de amor. Primeiro, o amor que surge por determinação da Natureza, dividido em dois subtipos: éros, o sexual, que indica submissão total e egoísta à Natureza, expressão mais básica da preservação da espécie e, depois, a storgué, que, transcendendo o sexual, se manifesta no afeto familiar, também expressão do instinto de preservação da espécie, mas de uma natureza mais elevada, menos egoísta, transportando o interesse próprio para o interesse da família ou da comunidade. Segundo, o amor já liberto da Natureza, que surge não por determinação dela, mas por decisão própria do Homem, surge voluntária e livremente de sua mente e de seu coração e que, igualmente, se divide em duas subespécies: filia, que é o amor que se escolhe e se devota voluntariamente a alguém ou a algo específico e, por fim, o agápe, o amor incondicional e universal, sem distinção de especificidades.

Muitos, por ignorância, associam o ágape a uma mera refeição entre Irmãos após os trabalhos e destroem a egrégora desse momento transformando os Irmãos em simples comensais de gula e de cerveja, pois não entendem que a alegria que o Maçom deve sentir com a companhia de seus Irmãos é de uma natureza totalmente distinta da alegria profana que sente num churrasco regado a cerveja. Esses são os que fazem da Maçonaria apenas mais um clube em suas vidas profanas e não acordaram para a realidade maior da vida espiritual. Seus corpos estão no Templo, mas suas mentes estão nos vícios da matéria. Quantas e quantas vezes um Irmão se põe de pé e à ordem para o churrasco ou para a cerveja, mas não auxilia o Irmão que roga sua presença numa atividade filantrópica?

Quando reclamamos que a Loja tem que estar unida, em vez de propormos uma confraternização no restaurante, que tal propormos uma atividade filantrópica conjunta, uma visita ao hospital, um auxílio ao necessitado? Não é suficiente a companhia física dos Irmãos. É preciso que suas mentes e vontades estejam coesas e voltadas para um propósito genuinamente louvável. A união na atividade filantrópica une mais os Irmãos do que a embriaguez conjunta, pois quando nossas mentes estão dominadas pelo vício da embriaguez, da conversa grosseira, da piada sexualizada e desrespeitosa, da gula e de todo tipo de excessos, nossas mentes se tornam receptáculos poderosos de energia negativa, mas quando, ao contrário, as nossas mentes estão voltadas para o Bem do próximo, compromissadas em realmente fazer feliz a Humanidade e não a si mesmo, recebemos do G.’.A.’.D.’.U.’. influxos de energia inimagináveis.

Não é propósito primordial da Ordem Maçônica a filantropia, mas ajudar os seus membros a dominarem as paixões e fortalecerem as virtudes. Isso, porém, se dá pela busca do auto-conhecimento, da meditação profunda sobre a espiritualidade da Vida e pela prática constante do Bem. A Ordem não nos pede a filantropia, mas nos conclama a decidir por ela. Todos manifestamos certamente os três primeiros tipos de amor, uns mais intensamente do que outros. Quando, na abertura do Livro da Lei, se lê o Salmo 133 da União Fraternal, o que ouvimos é um chamamento que desperta em nossos corações e mentes a vontade sincera de sair dos níveis mais instintivos do amor rumo aos níveis mais elevados.

Toda a Loja de Aprendiz nos remete a esse auto-conhecimento para, finalmente, exercemos o amor incondicional e universal simbolizado pelo ágape. A Loja de Aprendiz, portanto, é toda nossa vida, não apenas uma sessão.

* PhD em Economia pela University of California. Mestre em Economia Matemática pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Bacharel em Economia pela Universidade de Brasília, onde é Professor Adjunto. Mestre Maçom, membro da Loja “Abrigo do Cedro”, 08, GLMDF.

This article has 6 Comments

  1. Estou conhecendo esse blog graças à indicação do mano Kennyo Ismail. Cada peça de arquitetura, cada artigo que leio é fantástico! Um melhor que o outro! Vocês estão de parabéns pela profundidade de conteúdo, sabedoria e erudição que tenho a oportunidade de ver em cada texto, e é extremamente louvável a iniciativa de traduzir a obra Old Tiler Talks.

    Parabéns, mais uma vez.

  2. Lendo atentamente esse texto, passa um filme em minha cabeça. Muitos dos meus pensamentos afloram como um Déjà vu. Termino essa leitura um pouquinho melhor do que quando comecei. Rogo ao G.’.A.’.D.’.U.’. que esta reflexão possa tocar o maior número de corações.

    Grato,

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