O poder do Ritual, parte 1 – A necessidade do homem por rituais e os ritos de masculinidade

O York Blog publicará nos próximos domingos uma sequência de textos do excelente blog americano “The Art. of Manliness“, ou, ‘ A arte da masculinidade’, que lidam diretamente com a questão do ritual para o homem contemporâneo. Essa é uma questão que deveria ser cara para os maçons, pois parte fundamental da Maçonaria é feita através de rituais. Esperamos que os textos, que não são especificamente maçônicos, possam ajudar os maçons a decifrarem seu lugar no mundo.

O mundo moderno, entretanto, rejeita os rituais. Vemos com grande frequência o desdém com que os mais jovens e os mais velhos tratam os rituais maçônicos como meras fórmulas vazias, lidos e repetidos automaticamente, sem força e vitalidade.

Agradecemos ao Blog pela gentileza em autorizar a tradução e publicação dos textos

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A necessidade do homem por rituais e os ritos de masculinidade

Por Brett McKay e Kate McKay

Tradução: Edgard da Costa Freitas Neto

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A vida moderna já te pareceu terrivelmente rasa para você? Um panorama sombrio, despojado de camadas, ritmo, interesse e consistência?

Você já se viu assombrado pela questão “É isto tudo o que há?

Você já olhou para uma imagem antiga e teve a sensação de que aquela cena possuía uma inexplicável riqueza, tão forte que você praticamente podia tocá-la?

A superficialidade estéril do mundo moderno tem seu fundamento em muitas questões, como o consumerismo irrefletido, a falta de desafios significativos e a perda de valores e normas compartilhados, ou mesmo de tabus compartilhados contra os quais se rebelar. Mas qual a solução?

Muitos responderiam apressadamente: Fé, filosofia, relacionamentos. Todas boas respostas.

Mas o que é que pode vivificar crenças até a medida em que elas transformem sua perspectiva não apenas por uma hora de domingo, mas também nos momentos mundanos ao longo da semana? O que pode mover a compreensão de verdades abstratas da sua mente até a sua medula? O que pode transformar ligações superficiais em laços profundos e cheios de significado?

A resposta que eu sugiro é ritual.

Nosso mundo moderno está quase vazio de rituais – ao menos no modo em que tradicionalmente pensamos neles. Aqueles que restam – como os que estão nos entornos dos feriados religiosos – perderam boa parte do seu poder transformativo  e são hoje mais suportados do que propriamente apreciados, dos quais participamos mais por convenção do que por convicção. Ritual, hoje, é algo associado ao que é podre, vazio, sem sentido.

O fato de que toda cultura, em toda parte do mundo, em todas as eras, têm seus rituais é sugestivo de que o ritual é parte fundamental da condição humana. Os rituais já foram chamados, inclusive, da forma mais básica de tecnologia; são um mecanismo pelo qual coisas podem ser mudadas, problemas podem ser resolvidos, certas funções podem ser desenvolvidas e resultados tangíveis, atingidos. A necessidade é a mãe da invenção, e rituais surgiram da perspectiva límpida de que a vida é intrinsecamente difícil  e que uma realidade “pura” pode, paradoxalmente, parecer irreal. Por eras os rituais foram os instrumentos pelos quais os homens puderam liberar e expressar emoções, construir sua identidade pessoal e a identidade da tribo, trazer ordem ao caos, orientar-se no tempo e no espaço, produzir transformações reais e construir camadas de significado e consistência para suas vidas. Quando os rituais são arrancados de nossa vida e esta necessidade humana não é satisfeita a apatia, inquietação, alienação, tédio, a perda das raízes e a anomia são o resultado.

OS RITOS DA MASCULINIDADE

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Pretendemos no futuro escrever posts mais profundos sobre alguns dos rituais mais centrais na significação e construção da masculinidade, tais como ritos de passagem, iniciações e juramentos. Vamos começar com os fundamentos destes posts tratando da definição de ritual e as várias maneiras pelas quais os rituais são tão vitais para uma vida completa e plena de significado.

O QUE É RITUAL?

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De acordo com Catherine Bell, professora de estudos em rituais e autora de um livro essencial sobre o tema, ritual é definido tradicionalmente como uma ação em que falta “uma relação prática entre os meios escolhidos para os determinados fins“. Por exemplo, apertar as mãos quando se encontra alguém é considerado um ritual pois não existe uma razão real pela qual agarrar a mão de alguém e apertá-la por um segundo ou dois seja necessário para induzir o reconhecimento. É um gesto relacionado à cultura; Podemos perfeitamente saudar alguém com um tapinha nas costas ou sem qualquer contato físico. Outro exemplo: lavar as mãos para limpá-las não é um ritual, já que existe uma relação direta entre meio e fim. Mas se um padre submete suas mãos à ablução para “purificá-las”, então temos um ritual, já que a função da água é meramente simbólica e não é efetiva em eliminar as bactérias.

Bell lista seis atributos de um ritual:

  1. FORMALISMO: Esta é uma qualidade fundada no contraste entre o quão restritivo ou expressivo é o código de comportamento para uma dada situação ou evento. Por exemplo, um churrasco no quintal é bem casual e não se parece com um ritual pois existem poucos parâmetros para determinar o comportamento de alguém. De outro lado, um jantar formal tem um escopo de comportamentos aceitáveis bem mais restrito, de forma que é bem parecido com um ritual. Bell argumenta que enquanto podemos, às vezes, ver a formalidade como entulhação, já que ela tolhe formas mais espontâneas de expressão, atividades formais não são “necessariamente vazias ou triviais” e “podem ser convincentes, tanto esteticamente como politicamente, invocando o que um analista certa feita descreveu como ‘ de um alcance metafórico de considerável valor, com simplicidade, direção, vitalidade e ritmo’. A restrição de gestos e falas a um pequeno número que são praticados, aperfeiçoados e que logo se tornam familiares podem dotar estas atividades formais de grande graça e beleza
  2. TRADICIONALISMO: Rituais são normalmente enquadrados como atividades que trazem consigo valores e comportamentos que estão presentes desde o surgimento da instituição. Esta ligação com o passado dá ao ritual poder e autoridade e confere ao participante um senso de continuidade. O ritual pode simplesmente evocar aqueles que nos antecederam, como os graduandos que vestem a beca, que um dia já foi a roupa diária do estudante, ou pode buscar recriar um evento fundamental – como a cerimônia americana de Ação de Graças.
  3. DISCIPLINA INVARIÁVEL: Normalmente visto como um dos elementos mais marcantes do ritual, este atributo envolve “um conjunto de ações disciplinadas marcadas pela repetição precisa  e por controle físico“. Pense em soldados marchando em ordem unida ou o padrão senta/levanta/ajoelha adotado pelos católicos na Missa.A disciplina invariável suprime a significância “pessoal e particular do momento em favor da autoridade imemorial do grupo, suas doutrinas e práticas” e “subordina o individual e o contingente ao senso de abrangência e durabilidade“;
  4. GOVERNANÇA PELAS REGRAS: Rituais são normalmente governados por um conjunto de regras. Tanto a guerra como os esportes são atividades bem parecidas com rituais quando suas regras definem o que é e o que não é aceitável. Regras podem frear ou direcionar certas tensões. Por exemplo, um jogo de futebol americano direciona a agressividade masculina para uma forma ritualizada e controlada de violência. De vez em quando as regras são insuficientes para frear a tensão que borbulha abaixo da superfície, como quando uma briga generalizada emerge entre os jogadores. O fato de que o jogo reflete uma tensão similar dentro da sociedade é a razão pela qual o público acha o ritual tão convincente.
  5. SIMBOLISMO SACRO: Rituais podem transformar objetos, locais, partes do corpo ou imagens ordinários ou “profanos” em algo especial ou “sagrado”. “A sacralidade“, escreve Bell, ” é o meio pelo qual o objeto deixa de ser a mera soma de suas partes e aponta para algo além de si mesmo, desta forma evocando e expressando valores e atitudes associados com ideias maiores, mais largas e transcendentes.” Assim, algo como um incenso pode ser uma mera mistura de plantas e óleos feito para perfumar um ambiente ou, quando balançado num turíbulo, pode representar a oração do fiel ascendendo aos Céus.
  6. PERFORMANCE: Performance é um modo particular de ação feito para uma audiência. Um ritual sempre tem uma audiência desejada, mesmo que seja Deus. Tom F. Driver, professor de Teologia, argumenta que “performance é ao mesmo tempo fazer e mostrar”. “Não é uma questão de “mostrar e contar” mas de “fazer e mostrar”. Humanos são atores naturais, que gostariam de ver a si mesmos como personagens numa narrativa maior, e desejam o tipo de desafio próprio de toda narrativa atemporal. Os rituais funcionam como narrativas dramáticas e podem satisfazer esta necessidade. Na falta de um ritual as pessoas podem também apelar para o exibicionismo nas redes sociais ou criando seus próprios dramas, muitas vezes com relacionamentos ou substâncias tóxicas,.

Quantos mais desses atributos um comportamento/evento/situação invoque, o mais diferente da vida ordinária e o mais parecido como um ritual será. Quanto menos destes atributos estejam presentes, mais casual e ordinário parecerá.

Para uma definição ainda mais simples de ritual, eis uma que funciona: Pensamento + Ação. Um ritual consiste em fazer uma coisa na sua mentes (muitas vezes sentindo em seu coração) enquanto simultaneamente conecta-a com algo que você está fazendo através de seu corpo.

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Rituais podem ser incluídos numa ampla variedade de categorias. O teórico Ronald Grimes lista 16 delas:

  • Ritos de Passagem
  • Ritos de Casamento
  • Ritos Funerários
  • Festivais
  • Peregrinações
  • Purificação
  • Cerimônias Civis
  • Rituais de troca (como os sacrifícios rituais)
  • Adoração
  • Mágica
  • Ritos de cura
  • Ritos de interação
  • Ritos de Meditação
  • Ritos de Inversão
  • Sacrifício
  • Ritual dramático

O importante de se perceber sobre os ritaus é que eles não se limitam a eventos grandes e formais. Rituais podem, de fato, ser grandes ou pequenos, privados ou públicos, pessoais ou sociais, religiosos ou seculares, unificadores ou divisores, conformistas ou rebeldes. Funerais, casamentos, posses presidenciais, missas, batismos, iniciações, , ritos tribais de passagem são todos rituais. Apertos de mãos, encontros, saudações e despedidas, tatuagens, boas maneiras à mesa, a caminhada matinal ou mesmo cantar “Parabéns para você” podem ser rituais também.

PARA ONDE VAI O RITUAL?

Em muitas sociedades tradicionais praticamente todo aspecto da vida foi ritualizado. Mas por que há tanta morte dos rituais na cultura moderna?

O apego ao ritual no mundo ocidental foi enfraquecido primeiramente por duas coisas: A Reforma Protestante e sua rejeição aos ícones e cerimonialismo e a ênfase Iluminista no racionalismo.

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O historiador Peter Burke argumenta que “A Reforma foi, entre outras coisas, um grande debate, sem paralelo em sua escala e intensidade, sobre o significado, função e forma dos rituais“. Muitos protestantes concluíram que muitos dos rituais praticados pela Igreja Católica davam muita ênfase a fórmulas vazias ao invés do estado de Graça individual. Eles rejeitavam a “eficácia mágica” dos ritos, como a transformação do pão e do vinho literalmente no Corpo e Sangue do Cristo.

A eficácia mágica do ritual foi atacada, de outro lado, pelos pensadores iluministas. Como dissemos acima, os rituais são inerentemente irracionais, já que não existe relação prática entre a ação e o resultado desejado. Não há uima razão racional para crer que pintar o corpo antes da batalha vá oferecer proteção, ou que um rito de passagem torne um menino em homem, ou que fumar o cachimbo da paz possa selar um tratado. Além do mais, os rituais começaram a ser associados às superstições dos povos primitivos.

Suspeitas contra os rituais cresceram após a Segunda Guerra Mundial, quando muitas cerimônias rituais forma usadas para solidificar a lealdade à causa nazista.

A adesão cultural aos rituais começou a ruir de vez durante os movimentos sociais dos anos 60, que enfatizaram a livre expressão, liberdade pessoal e satisfação emocional acima de tudo. Rituais – que prescrevem certas condutas sob certas situações e que requerem que a pessoa abra mão de alguma individualidade em prol da sincronia e da identidade grupal – constrangem a espontaneidade a  habilidade de se fazer o que se bem entenda. Rituais passaram a ser vistos como repressores e inautênticos.

Por estas razões o uso e a participação em rituais decresceu muito. Ou, talvez, como argumenta Peter Burke, nós substituímos os velhos rituais por outros, novos. “Se em nossas sociedades industriais as pessoas não vão mais regularmente à Igreja ou participam de rituais de iniciação, isto não significa que o Ritual declinou. O que ocorreu é que novos tipos de ritual – política, esportes, música, escola – tomaram o lugar dos tradicionais.” Mas estes novos rituais – assistir esportes, ir em festivais de música, postar trivialidades no Facebook, fazer compras, ir em clubes de strip-tease no 18º aniversário – não dão sustança ao espírito e não satisfazem. Rituais tradicionais proveem mecanismos através dos quais as pessoas podem direcionar e processar aquilo que é difícil de lidar: morte, maturação, agressão, permitindo aos partícipes descobrir novas verdades sobre si mesmos e sobre o mundo. Novos rituais, se é que podem ser chamados assim, tentam mitigar tudo o que é feio na vida (não se esqueça de manter a carteira aberta) e apresentam uma fachada brilhante e colorida – a “cultura do confete” – que facilita o consumo passivo e rejeita o exame aprofundado das assunções.

No próximo post (domingo que vem, N.T) vamos argumentar que apesar do desdém cultural pelo ritual, ele é uma arte humana que deve ser revivida. É verdade que o ritual pode ser usado para o bem ou para o mal, mas que os seus benefícios são tão grandes que o medo do mal não deve nos compelir a jogar fora o bebê junto com a água do banho. Ainda que um homem não veja posição para um ritual em sua fé, ele pode ter outros usos para ele em outras áreas de sua vida (e, de fato, se a sua fé é desritualizada é quando ele vai ter ainda mais necessidade de outros tipos de rituais). Vamos argumentar que mesmo o homem mais racional pode encontrar espaço em sua vida para alguma “mágica”, e que mesmo que o ritual seja visto como restritivo, ele pode ser, paradoxalmente, empoderador ou mesmo libertador. Como isso é, veremos no próximo post.

This article has 2 Comments

  1. Importantíssimo assunto a ser tratado, especialmente em nossa ordem. Há, conheço, alguns irmãos que suportam nossos rituais para aproveitar a discussão filosófica e a fraternidade, sem entender que o fundamento que is rituais nos dão é o que, primeiramente, nos transformar.

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