RÉPLICA À RESENHA DO LIVRO “ENTRE DOIS AMORES”

O York Blog publica hoje uma réplica à resenha do livro “Entre Dois Amores”, escrita pelo autor da obra resenhada, Luiz Claudio de Assis Pereira. O texto segue reproduzido na íntegra, sem qualquer edição, e será objeto de uma tréplica amanhã.

RÉPLICA À RESENHA DO LIVRO “ENTRE DOIS AMORES”

LUIZ CLAUDIO DE ASSIS PEREIRA

Vou iniciar essa réplica por aquilo que Edgard Freitas omitiu na resenha que fez do livro de minha autoria, intitulado “Entre Dois Amores – Como a Maçonaria vem transformando o Brasil e o mundo”. Nela o meu oponente conclui que “A pesquisa sobre a influência maçônica na política é extremamente complicada pela impossibilidade de demonstrar relações causais com precisão, em parte por conta do véu de segredo, em parte pela razão de os fatos sociais terem causas múltiplas e complexas, de forma que nenhum dado, isoladamente, poderá ser interpretado como a causa.”.

Quanto a essa afirmação, tenho a observar que a resenha foi omissa ao não comentar fatos narrados, e comprovados, no livro, quanto a várias questões relacionadas à perniciosa relação entre o poder constituído e agentes públicos e privados maçons, relação essa feita de forma orquestrada e institucionalizada pelas três correntes ideológicas abrigadas pela Maçonaria brasileira. Exemplos:

1- a resenha foi omissa ao não comentar o “entra governo, sai governo”, apontado no livro, tendo sempre um maçom comandando o Poder Executivo Federal, Estadual e Municipal, descrito em detalhes, no capítulo referente à ascensão e queda do Partido dos Trabalhadores, e nos exemplos dados no capítulo seguinte, “A atuação política da Maçonaria brasileira”, tanto do Estado do Mato Grosso do Sul, quanto do Distrito Federal, além da atuação institucional da Maçonaria paulista nas eleições municipais.

2- a resenha foi omissa ao não comentar sobre os diversos maçons membros do Poder Judiciário, inclusive do Supremo Tribunal Federal, do Supremo Tribunal de Justiça, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, além de políticos das mais diversas agremiações partidárias, citados por outros maçons em solenidades oficiais, tal como relatado na transcrição do discurso proferido no Senado Federal pelo maçom ex-senador Mozarildo Cavalcanti, quando da comemoração do 40º aniversário de fundação do Grande Oriente do Distrito Federal.

3- a resenha foi omissa ao não comentar fatos narrados, e comprovados, no livro, quanto à tentativa de intervenção militar engendrada dentro da sede do Grande Oriente do Brasil, pelo atual candidato à vice-presidência da República, na chapa de Jair Bolsonaro, com apoio declarado de maçons da iniciativa privada, tais como o catarinense dono da Havan, Luciano Hang.

4- a resenha também foi omissa ao não comentar a existência de um grupo autodenominado “maçons petroleiros” que agiu junto ao governo do ex-presidente Lula para a criação de uma subsidiária ligada à Petrobras para atender interesses de seus membros e que essa ação, tal como comprovada, foi articulada pelo Grão Mestre Estadual do Grande Oriente do Estado de São Paulo, Benedito marques Ballouk Filho.

5- a resenha foi omissa ao não comentar fatos narrados, e comprovados, no livro, quanto à idêntica ingerência da maçonaria na política de outros países, dados os exemplos da França e Portugal.

6- por fim, vale também dizer, a resenha foi omissa ao não reconhecer o nível de detalhes dos fatos narrados e comprovados no livro, fatos estes que nenhum jornalista investigativo no Brasil, até hoje, teve coragem de revelar.

Nesse sentido, a meu ver, temos algumas questões muito importantes que formam a base dessa discussão e que vamos ter que a ajustar para dar sequência ao debate. A meu juízo, a mais importante de todas trata da dificuldade, inerente a qualquer sociedade secreta (ou discreta, como queira), de se identificar um cidadão como membro daquela organização, e se, no caso da maçonaria, ele (ou ela) está ativo ou “adormecido”, qual o grau que atingiu, ou seja, se ainda está, e irá permanecer, nos graus inferiores, ou se já entrou nos graus filosóficos e em que nível se encontra, qual o rito que segue a sua Loja, e assim por diante. Obviamente, essa é uma questão crucial. Sem isso, nosso debate vai entrar pelo campo do “eu acho que fulano é maçom” e do “eu acho que não”, e aí, não vamos chegar a lugar nenhum. No livro, eu aponto nomes de agentes públicos e privados, muitos deles com provas cabais da sua pertença à maçonaria, inclusive reproduzindo fotos registradas em sites maçônicos durante a realização de eventos nas respectivas Lojas. Edgard Freitas questionou alguns nomes que aparecem numa lista de 110 maçons ilustres. Para ajudar a clarear esse ponto específico, a lista dos 110, eu já solicitei a colaboração do conhecido e reconhecido escritor Laurentino Gomes. Espero que ele dê essa enorme contribuição ao debate. Creio que o primeiro ponto a ser debatido deva ser: “O maçom que seja agente público ou mesmo aquele que, sendo agente privado, tenha alguma interface com a esfera pública, tipo um financiamento do BNDES, por exemplo, deve declarar sua condição de membro da maçonaria? Não sendo assim, como posso identificar um maçom que exerça atividades nessas condições?”.

Sob esse aspecto, vale salientar que a facilidade mencionada por Edgard Freitas para se saber se um determinado cidadão pertence ou não à Maçonaria é, sim, me desculpe usar o mesmo termo utilizado por ele, uma falácia. Isso, simplesmente, não existe. Vá você procurar saber se um determinado sujeito é maçom ou não para você ver qual resposta irão lhe dar.

Em determinada altura, a resenha passa por essa questão, volto a dizer, crucial, que é a exposição de dezenas de pessoas citadas no livro como maçons, especialmente políticos das mais diversas correntes ideológicas, como por exemplo, Antônio Palocci, Michel Temer, Paulo Maluf, e etc. Nesse particular, a resenha comete um erro grave ao afirmar que a lista dos 110 maçons ilustres do GOB é apócrifa, pois não é. Ela tem autor e o mesmo é um membro do próprio GOB, tal como citado na pág. 34. Aliás, sob esse aspecto, na mesma página eu menciono o fato de que essa “lista estava em pdf anexada à página da Loja Maçônica à qual pertence o Venerável que a publicou”. E concluo o parágrafo dizendo que antes do site ser retirado do ar, “várias pessoas produziram vídeos mostrando a sua veracidade”. Detalhe: temendo que fatos semelhantes venham a ocorrer com diversos sites e vídeos citados no livro, eu providenciei a feitura de uma Ata Notarial no Cartório de Joinville (SC).

A resenha faz sugerir que foram “alguns” poucos maçons para os quais o autor conseguiu recolher provas concretas. Isso não é verdade. Foram muitos inclusive reproduzindo fotos de maçons ilustres em eventos registrados em sites maçônicos. E de todas as esferas de poder (Federal, Estadual e Municipal) e dos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário).

O caso do José Roberto Arruda, diferentemente, do que foi mencionado na resenha, está muito bem registrado no livro, tendo, inclusive, sido mencionado o fato de “um membro da Maçonaria estar batendo de frente com o Arruda como se a Ordem estivesse disposta a passar a limpo o ocorrido”, no caso, o repasse de R$ 30 milhões para uma tal Fundação Gonçalves Lêdo, ligada à Maçonaria do Distrito Federal, através de convênio realizado sem licitação.

Diga-se de passagem, a maioria dos maçons mencionados no livro, entre eles diversos assessores do atual presidente da República, aparecem citados em operações da Polícia Federal, tendo, em vários casos, sido presos em Operações da Lava Jato, entre outras.

Antes porém, a resenha dedica dois parágrafos à avaliação da qualidade das referências bibliográficas utilizadas pelo autor. Não sendo as obras, citadas ao final do livro, de autores de sua familiaridade, Edgard Freitas tratou de classificá-las como sendo obras de qualidade inferior, criticando o escritor Gustavo Barroso, um dos maiores intelectuais da sua época, membro da Academia Brasileira de Letras entre outras qualificações que aqui dispenso comentar. A crítica feita ao fato de Gustavo Barroso ter “encampado a teoria da conspiração judaico-maçônico- bolchevista” é desprovida de argumentação como que a citação em si fosse suficiente para desqualificar aqueles que durante a Segunda Guerra Mundial pensavam como os nazistas alemães. Para tanto, nem ao menos levou em consideração justamente o fato histórico, citado pelo autor no capítulo 6 (“A atuação conjunta das três correntes divergentes”), onde o mesmo descreve como as Forças Aliadas juntaram as três correntes maçônicas, via de regra, antagônicas, (a conservadora à época liderada por Winston Churchill, a liberal comandada por Franklin Delano Roosevelt  e a progressista capitaneada por Josef Stálin, todos estes reconhecidamente pertencentes à Maçonaria) que, no fundo, representavam, justamente, a aliança judaico-maçônico-bolchevista contra a qual Hitler lutava, sendo essa uma realidade e não uma mera “teoria da conspiração”.

Ainda sob o aspecto das fontes pesquisadas, nenhum comentário foi feito ao sem-número de notas de rodapé, que nem por serem de rodapé são menos importantes, e que compõe o acervo de informações levantadas, muitas delas retiradas de sites maçônicos.

Logo em seguida, Edgard tratou de elencar uma série de adjetivos pejorativos (“diversos erros, omissões, inconsistências e falácias”) e, como de costume a todos os maçons, procurou desqualificar o autor pelo fato do mesmo escrever um livro sobre a Maçonaria não sendo ele maçom. Isso já é lugar comum. Sem comentários.

Ressalte-se que a resenha não tece nenhuma linha sobre a origem da maçonaria tal como descrita no livro, envolvendo não somente os Templários e os pedreiros-livres (construtores medievais), mas outros grupos, notadamente, os judeus cabalistas e os cátaros, a quem o autor de “Entre Dois Amores – Como a Maçonaria vem transformando o Brasil e o mundo” credita maior influência à filosofia e ensinamentos maçônicos. Não por acaso, dois grupos não incluídos na história oficial da Maçonaria por terem sido acusados de bruxaria durante a Idade Média.

E é justamente nesse campo, místico-esotérico, que a resenha entra no aspecto religioso largamente abordado no livro, mas apenas para se dedicar ao fato do autor ter apontado Albert Pike como “ardoroso defensor do luciferianismo”, sem levantar qualquer outro dos vários temas relativos à religiosidade professada por maçons de diferentes crenças, por exemplo, onde o autor descreve exaustivamente a Thelema, uma religião nascida, criada e desenvolvida por uma ordem maçônica denominada O.T.O. – Ordem dos templários Ocidentais, que tem Baphomet, o deus pagão da fertilidade, como referência. Vamos então à replica quanto a Albert Pike e o seu livro “Morals & Dogma”.

1º) O livro de Albert Pike é sim uma referência mundial para todos os maçons que seguem o Rito Escocês Antigo e Aceito – R.E.A.A., que é o rito praticado pela maioria esmagadora dos maçons brasileiros. Ocorre que o mesmo, por vezes, sofre algumas adaptações à cultura local e passa a ser assim chamado de Rito Escocês Retificado.

2º) Pike foi, sim, Grande Comandante, Soberano Pontífice da Maçonaria Mundial, título a ele atribuído dada a importante contribuição que deu ao R.E.A.A. em particular e a Maçonaria Mundial.

3º) O livro “Morals & Dogma” é cercado de simbolismos, como de praxe, para dar pistas a quem saiba decifrá-los e despistar os iniciados que não tenham ultrapassado a enorme barreira do 30º Grau, fato destacado pelo autor de “Entre Dois Amores”. O autor salienta inclusive que, ao se referir a Lúcifer e ao diabo, Pike utiliza “palavras dúbias em relação a eles, o que levou a interpretações incorretas ou, ao menos, inconclusivas”. Citando, então, a seguinte frase: “A convicção de todos os homens que Deus é bom levou à crença em um diabo, o Lúcifer caído … como uma tentativa para explicar a existência do Mal, e torná-lo consistente com o Poder Infinito, Sabedoria e Benevolência de Deus”.

4º) Quanto à famosa “fraude de Taxil”, o autor teve dela conhecimento mas julgou irrelevante face a outras informações levantadas que provam a prática do luciferianismo por alguns membros da Maçonaria, fato que poucos maçons sabem e um número ainda menor reconhece. Quanto à também famosa retratação de Leo Taxil, sabe-se lá em que condições ela foi cedida ou concedida.

5º) Portanto, diferentemente do que a resenha afirma, não houve “desonestidade intelectual” do autor, nem tão pouco “desleixo metodológico”. A resenha, nesse particular, só tem razão em uma afirmação: “A escolha é do leitor”.

Seguindo, quanto à colocação feita pelo autor, criticada na resenha, de que o Grande Oriente do Brasil é subordinado à Grande Loja Unida da Inglaterra, o autor volta a afirmar a relação de subordinação e aponta o site desta instituição inglesa (www.ugle.org.uk) para conferir que a estrutura organizacional da Grande Loja Unida da Inglaterra destaca a mencionada relação de subordinação. O GOB é ligado à Divisão Norte do Distrito da América do Sul, tendo como Grão-Mestre Distrital o maçom inglês, Colin Foster, marido da ex-presidente da Petrobras no governo Dilma Rousseff, Sra. Graça Foster.

A resenha aponta ainda o que considera falhas cometidas na obra, sendo a primeira delas relacionada ao Supremo Conselho do 33º Grau do Rito Escocês Antigo e Aceito – R.E.A.A., órgão que o autor descreve pormenorizadamente como sendo exatamente aquilo que a resenha aponta como tendo sido omitido, e não foi, qual seja, o fato de ser uma “instituição autônoma”, ligada às demais por “tratados de reconhecimento” (vide pág. 19). O fato do autor ter citado nesta mesma página 19 o Supremo Conselho do 33º Grau no singular, e não no plural, foi tão somente por uma questão de dar clareza ao que se desejava expor no início da obra, tanto é que, na própria página 95 mencionada na resenha, o autor afirma que o livro Moral e Dogma “passou a servir de orientação para outros Supremos Conselhos pelo mundo afora”. Na página 97, o autor volta ao tema citando a existência de 23 Supremos Conselhos Confederados à época em que Albert Pike era, então, considerado o Grande Comandante, Soberano Pontífice da Maçonaria Mundial. Além disso, o autor menciona na página 97 a existência de duas sedes do órgão nos Estados Unidos e, na página 99, o fato do “primeiro Supremo Conselho do Grau 33 fundado no Brasil” ter surgido apenas dez anos após a fundação do Grande Oriente do Brasil em 1822. Portanto, fica claro que o autor abordou exaustivamente o assunto “Supremo Conselho do 33º Grau” como deveria.

Quanto ao fato do autor considerar os Supremos Conselhos do 33º Grau do R.E.A.A. existentes pelo mundo afora como o mais importante órgão da Maçonaria é uma conclusão decorrente da forma como essa instituição se mostra bem mais estruturada do que as congêneres de outros ritos, tanto que esses órgãos “acolhem membros oriundos dos Graus Filosóficos (inferiores) de qualquer outro rito”. Ou seja, do ponto de vista organizacional, todos os demais ritos reconhecem a importância e a relevância dos ensinamentos transmitidos pelo Supremo Conselho do 33º Grau.

Da mesma forma, ou seja, reafirmando o que está escrito no livro, o autor destaca a existência de três correntes ideológicas abrigadas pela Maçonaria no Brasil. O fato da corrente progressista não ter estrutura comparável às demais não quer dizer que ela não esteja ativa. E isso nada tem a ver com Gustavo Barroso, pois o mesmo não exerce ou exerceu influência sobre o conteúdo da obra. O fato de Karl Marx ter, segundo a resenha, desdenhado da Maçonaria, o mesmo, posso acrescentar, aconteceu com Leon Trótsky, e é mais um, entre vários casos, de líderes políticos que se sentiram traídos pela Maçonaria e a ela lhe viraram as costas, tal como aconteceu com Getúlio Vargas e João Goulart no Brasil e com Simon Bolívar na Venezuela que confessou ao escritor maçônico Louis P. de la Croix ter sido iniciado numa Loja em Paris mas afastou-se ao verificar “ que era uma associação ridícula, formada por fanáticos, mentirosos e inocentes úteis, enganados”. O conteúdo político-ideológico, bem como o aspecto religioso, dessas três correntes está bem explicitado no livro. Cabe, por fim, registrar a existência de um grupo autodenominado “Maçons Progressistas do Brasil” – MPB, que pode confirmar (ou não) o que estou dizendo.

 

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