Resenha: “Entre Dois Amores”

Duas semanas atrás me deparei com uma postagem em uma página do facebook que mencionava um livro recém lançado que trataria da influência da Maçonaria na política brasileira contemporânea. Como se trata de um tema que me interessa sob vários aspectos – inclusive pelo fato de minha dissertação de Mestrado(em andamento) versar sobre a influência da Maçonaria nas relações internacionais (com foco na África Ocidental e Europa) tratei de adquirir para mim um exemplar. Foi assim que tomei contato com o livro ora resenhado, “Entre dois amores: como a Maçonaria vem transformando o Brasil e o mundo”, de autoria de Luiz Cláudio de Assis Pereira (Joinville: Manuscritos Editora, 2018. 182p).

Trata-se de um pequeno livro bem encadernado, com uma capa muito bonita e com uma proposta interessante. Mas, temo, acabam aí os elogios possíveis, e advirto que neste caso é especialmente verdadeiro o ditado de que não se deve julgar um livro pela capa.

O autor, segundo a orelha do livro, é Engenheiro Químico e tem se dedicado a estudar “profundamente” o tema, aplicando o que diz ser o “Ceticismo Metodológico” cartesiano à sua pesquisa, ou seja, “duvidar de todas as informações levantadas até que as mesmas se torne irredutivelmente evidentes”. Ele se propôs – assim o diz – a “juntar, analisar, conforntar e colocar em ordem todas as informaçõs levantadas e, a partir daí, construir um raciocínio lógico para um tema um tema que muitos consideram confuso”. Sigamos.

Já a bastante tempo eu cultivo um hábito antes de comprar um livro que verse sobre a Maçonaria: checar as referências bibliográficas, nos elementos pós-textuais. No caso de “Entre dois amores” salta aos olhos a quase inexistência de uma bibliografia consistente diretamente com o tema abordado, além de um número proporcionalmente alto de obras de qualidade duvidosa.

Nenhuma obra historiográfica maçônica recente é mencionada. Nem Tito Lívio Ferreira, em sua obra “A Maçonaria na Independência Brasileira” (1961), nem David Gueiros e seu “O Protestantismo a Maconaria e a Questao Religiosa no Brasil” (1983), nem os livros de Marco Morel, Alexandre Mansur Baratta, apenas para ficar em autores acadêmicos e não-maçons. Mas salta aos olhos, logo, a presença de várias obras de Gustavo Barroso, um historiador que encampou a teoria da conspiração judaico-maçônico-bolchevista.

O livro é dividido em 13 capítulos, que tratam basicamente de questões históricas e estruturais da Maçonaria global (Capítulos 1 a 7), da atuação histórica da Maçonaria no Brasil (Capítulos 8 a 12) e da atuação maçônica na política internacional contemporânea (Capítulo 13).

Há diversos erros, omissões, inconsistências e falácias ao longo do livro, de forma que seria impossível transcrever todos sem escrever um outro livro. Alguns erros decorrem claramente da falta de intimidade do autor com a temática – um erro compreensível e perdoável para qualquer um, exceto para quem se propõe a escrever um livro sobre o tema. Tratarei de alguns, entretanto:

1. O autor considera “Supremo Conselho do 33º Grau” como um órgão singular. Isto fica aparente no uso do singular ao tratar o tema, logo na primeira nota de rodapé e depois, na página 95, quando afirma que “o Supremo Conselho do 33º Grau do R.E.A.A” é “o” órgão mais importante da estrutura da Maçonaria mundial.

É uma ideia absolutamente errada. Cada Supremo Conselho é uma entidade absolutamente autônoma dos demais, aos quais se ligam por meio de tratados de reconhecimento. Existem dezenas, quiçá centenas de Supremos Conselhos ao redor do mundo – aqui no Braisl, por exemplo, existem dois, que são competidores.

Ainda que existisse UM Supremo Conselho, sendo os demais meras filiais, o autor não demonstra de que forma chegou à conclusão de que seria “o” mais importante, mormente quando se verifica que não existe relação de subordinação entre os Supremos Conselhos e as Grandes Lojas/Grandes Orientes ao redor do mundo.

2. O autor cita uma quantidade avassalora de pessoas como sendo maçons, mas falha em provar adequadamente esta filiação.

Ao longo do texto o autor vai atribuindo a condição maçônica a dezenas de pessoas: Roberto Marinho (p.31), Edir Macedo (p.32), Silas Malafaia (p.34), João Figueiredo e João Havelange (p. 88) e outros vários políticos das mais diversas matizes (p. 139).

O fio condutor desta afirmação é uma famosa lista apócrifa de “110 maçons famosos”, que contém, é verdade, vários maçons notórios, mas também dezenas de atribuições falsas.

Esta lista circula a bastante tempo, e foi (é) ainda reproduzida de forma acrítica por muitos sites maçônicos. Mas a realidade é menos sensacional. Ora, desde o século XIX já não se fazem mais iniciações secretas na Maçonaria. O pertencimento duradouro de um político a uma Loja nunca é um segredo duradouro, no máximo um segredo de polichinelo. Desta maneira, é lícito que se questione a pertença de alguém à Maçonaria com duas perguntas: Quando o sujeito foi feito Maçom? Em qual Loja?

Mas o autor não as faz. E não faz mesmo com personagens que ainda estão vivos, dos quais se encontraria alguma informação com relativamente pouca pesquisa. Assim, que outra fonte o autor tem para afirmar que Ciro Gomes é maçom? Ou Geraldo Alckmin? E, desta forma, atribui força probante a um documento apócrifo, o que acaba por macular a sua pretensão de demonstrar uma preponderância maçônica na política brasileira (que depende, decerto, de maçons ativos em posição de influenciar os rumos dos acontecimentos).

Claro, alguns são, e em alguns casos o autor consegue demonstrar a filiação de modo convincente ao leitor – caso, por exemplo, do deputado Sandro Mabel (p. 153). Em outras, entretanto, se limita a uma ilação – caso de Demóstenes Torres, ou nem isso, como no caso de Joesley Batista (todos na mesma página 153). Ele menciona, ainda, o José Roberto Arruda como maçom, mas não informa ao leitor que Arruda se demitiu da Maçonaria para evitar a expulsão num processo interno.

3. O autor claramente não entende algumas questões básicas de Maçonaria as quais deveria dominar antes de pretender escrever um livro.

Ele afirma, por exemplo, que o Grande Oriente do Brasil é subordinado à Grande Loja Unida da Inglaterra: não é, pura e simplesmente.

4. O autor informa ao leitor a existência de três correntes mundiais da Maçonaria. Ele sustenta no Capítulo 4 que três grandes correntes maçônicas existem hoje: Uma conservadora, oriunda da Inglaterra; Outra liberal, oriunda da França, e uma terceira “progressista”, que encarnaria os movimentos revolucionários marxistas e derivados.

Trata-se de uma balela que ecoa, muito provavelmente, a influência de Gustavo Barroso, que ecoa em todo o livro. Karl Marx desdenhava da Maçonaria. Não houve influência maçônica na revolução russa, e a organização foi perseguida em quase todos os países em que uma revolução socialista se operou.

Existem duas correntes, é verdade, a tradicional e a continental (ou liberal), mas elas não se distinguem por facções político-ideológica, mas pela interpretação dos padrões de regularidade maçônica.

5. O autor reproduz falsidades sobre Albert Pike.

Com uma linguagem pretensamente neutra o autor reproduz uma calúnia no seu livro calcado numa deturpação de uma citação de Albert Pike. Ele diz, supostamente citando “Morals & Dogma”:

“Em 1871 ele publicou seus estudos sobre todos os graus do Rito Escocês no livro intitulado ‘Moral e Dogma do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria’, que após diversas revisões passou a servir de orientação para os outros Supremos Conselhos pelo mundo afora. (…)

Várias passagens nesse livro mostram que Albert Pike, ao mesmo tempo em que fazia oposição ao satanismo tomando o conceito dos judeus cabalistas: ‘pois satã não é um deus negro, mas a negação de Deus. O diabo ´a personificação do ateísmo e da idolatria’ era também um ardoroso defensor de Lúcifer:

‘LÚCIFER, o portador da luz! Estranho e misterioso nome para se dar ao espírito das trevas. Lúcifer, o filho da manhã!, É ele quem ostenta a Luz…? Não duvide.’ (…)

É bom frisar que o fato de Albert Pike ter sido um ardoroso luciferiano não significa que todos os maçons sejam também defensores do luciferanismo, seja lá o que isso signifcia, pois até o 18º Grau esse tema fica fora dagrade curricular do iniciado”

Na seqüência, escorado na obra de Abel Clarín de La Rive, cita uma suposta carta de Albert Pike na qualidade de “Soberano Pontífice da Maçonaria Universal”.

O autor coloca Moral e Dogma na sua bibliografia, bem como de la Rive. São duas menções importantes pois demonstra que ou o autor usou deliberadamente da distorção de fonte original cumulada como uma fonte falsa OU foi negligente na sua pesquisa básica. NÃO HÁ MEIO TERMO.

Explico pontuando:

a) “Moral e Dogma” nunca foi utilizado como livro base de orientação por “todos os outros” Supremos Conselhos do Mundo, mas apenas pelo Supremo Conselho da Jurisdição Sul dos EUA, da qual Pike foi presidente.
b) Pike nunca foi “Soberano Pontífice da Maçonaria Mundial”, pois esse título não existe;
c) O autor omite precisamente a primeira frase do parágrafo que ele transcreve de Pike, a qual diz: “O Apocalipse é, para aquele que rexebe o décimo nono grau, a apoteose daquela sublime Fé que aspira somente a Deus e despreza todas as pompas e obras de de Lúcifer.” Uma omissão significativa, pois distorce completamente o sentido do texto original;
d) O livro de de la Rive citado, “La Femme et l’enfant dans la Franc-Maçonnerie“, de 1894, transcreve informações que foram passadas pelo falsário Leo Taxil, que enganou o mundo católico de 1885 a 1897 com informações inventadas sobre uma suposta maçonaria Luciferiana. Quando Taxil revelou sua fraude Rive publicou uma retratação.

Daí meu questionamento: Como é possível citar o parágrafo omitindo uma frase essencial para a compreensão do seu sentido? Como é possível pesquisar e encontrar Pike, de la Rive e não tomar conhecimento da fraude de Taxil?

Se a omissão da frase e do caso Taxil foram propositais, estamos diante de uma instância de desonestidade intelectual do autor. Se foram acidentais, por desconhecimento, estamos diante de uma instância de desleixo metodológico. A escolha é do leitor.

CONCLUSÃO: O livro foi uma grande decepção. O autor dispara uma quantidade gigantesca de dados, mas se revela incapaz de filtrar o que é lixo e o que é relevante. Do fato de algumas pessoas serem maçons não segue necessariamente que elas atuem “maçonicamente”. Tome-se, por exemplo, o caso de Jânio Quadros, último presidente da República COMPROVADAMENTE maçom antes de Michel Temer. Constado site do GOB que Jânio foi iniciado maçom em 1946, mas que se afastou logo após atingir o terceiro grau (o que não leva necessariamente muito tempo), somente retornando à Loja em 1985. É perfeitamente possível presumir que a influência maçônica foi mínima nos momentos históricos cruciais de que tomou parte.

A pesquisa sobre a influência maçônica na política é extremamente complicada pela impossibilidade de demonstrar relações causais com precisão, em parte por conta do véu de segredo, em parte pela razão de os fatos sociais terem causas múltiplas e complexas, de forma que nenhum dado, isoladamente, poderá ser interpretado como a causa.

As redes de mobilização maçônicas que se revelaram nestes últimos anos, com destaque para a rede virtual “Avança Brasil – Maçons.BR”, que teve destacado papel na mobilização virtual contra o governo de Dilma Rousseff bem merecem um estudo aprofundado. Este livro, entretanto, não me parece um ponto de partida relevante.

This article has 1 Comment

Deixe uma resposta