RORAIMA: Um chamado à ação maçônica

“Não oprimirás o estrangeiro: conheceis bem a vida de estrangeiro, porque fostes forasteiros no Egito.” Êxodo 23:9

Assisti ontem, estarrecido, a vídeos dos conflitos ocorridos ontem na cidade de Pacaraima, RR, em que uma turba de brasileiros, inflamada ao que parece por um latrocínio praticado por bandidos venezuelanos, ataca e expulsa refugiados daquele país (incluindo mulheres e crianças), queimando suas barracas e colchões entoando o hino nacional: “mas se ergue da justiça a clava foooorte“….

Como é sabido, o governo socialista da Venezuela levou o país ao colapso econômico, político e social. Violência urbana e política, hiperinflação, estagnação econômica, tudo contribuiu para que um grande fluxo de refugiados (apesar de o status jurídico destes migrantes ainda ser objeto de debate acadêmico eu opto por esta classificação, por ora) viesse a se instalar em países vizinhos, entre eles, o Brasil.

Roraima é o estado limítrofe com a Venezuela, e é também um dos, senão o, mais pobre estado do Brasil. Um estado que não estava preparado para acolher este volume de pessoas, que precisam de abrigo, alimentação, apoio jurídico e trabalho. Assim como Roma não caiu em um dia, os refugiados não apareceram da noite para o dia. O fluxo tem sido contínuo já a alguns anos.

Impossibilitados de seguir adiante estes refugiados acabam acumulados em Roraima, o que levou os serviços públicos locais ao colapso. Isto os tornou alvos fáceis de incitadores e populistas que os apontam como causadores das agruras vivenciadas por todos. Foi o que vimos neste fim de semana.

A gestão da crise pelo governo estadual e federal tem sido pífia, para dizer o mínimo. Na prática, é possível falar que os governos se limitam a reagir aos problemas, e apenas quando eles se tornam insuportáveis.

Em setembro de 2017 eu apresentei um trabalho na UnB sobre a Maçonaria e as Relações Internacionais. Respondendo a uma pergunta do público, disse que Roraima era um caso exemplar de como a Maçonaria brasileira, que gosta de lembrar glórias (reais ou putativas) do passado estava deixando passar um chamado de ação no presente. O caso de Roraima depende de muito mais que o mero fornecimento de alimentos para as vítimas. Disse, na ocasião, que a Maçonaria deveria montar um plano de ação inter-Obediência (conglobando GOB, COMAB e CMSB e organizações paramaçônicas) para se aproveitar da capilaridade da Maçonaria no Brasil para:

1. Organizar, sem esperar o governo, um plano de acolhimento local para refugiados;
2. Difundir nas comunidades o imperativo moral de acolher, respeitar e ajudar os refugiados;
3. Tomar a iniciativa de chamar outros órgãos da sociedade civil para colaborar;
4. Colaborar na des-Roraimação do acolhimento dos refugiados, “adotando” famílias de refugiados nas diversas cidades do Brasil;
5. A partir daí, EXIGIR publicamente a responsabilidade do Estado.

Não considero um plano inexeqüível. Ele tem aspectos materiais e ideológicos. Obviamente seu escopo é limitado – não visa “resolver” o problema dos refugiados como um todo, mas ajudar algumas pessoas e mobilizar a sociedade (e o governo) neste sentido. Creio firmemente que existem algumas centenas de Lojas no Brasil que têm em seus quadros gente capacitada para conseguir um emprego de salário mínimo, ajudar na regularização jurídica, matricular crianças em escolas públicas, conseguir tratamento médico-dentário….

Rejeitei a objeção de que temos nossos próprios problemas. Sustentei que a filosofia maçônica é cosmopolita. Que o dever de solidariedade não encontra restrição “nem de fronteiras nem de raças”. E que a situação dos refugiados é especial e pior do que a dos “nossos” pobres, que já contam com uma rede estruturada (bem ou mal) de acolhimento. Eles estão em um país estranho, sem falar a língua, fugindo de um regime em colapso.

Rejeitei, também, a alegação de que “a obrigação é do governo”. A obrigação moral é de todos. E se a Maçonaria sonha ainda em ter alguma posição de relevo social, sustentei, tem que parar de ir a reboque do governo e “das massas que não sabem se governar”. Non dvcor, dvco.

Sustentei, a quem tentou comparar a situação de Roraima com a migração islâmica na europa, que era uma comparação descabida: Os venezuelanos descendem, como nós, de ibéricos. Inclusive soldados brasileiros – vide o general (maçom) Abreu e Lima – ajudaram na independência Venezuelana. Temos laços históricos e culturais comuns.

Sei que a Maçonaria Roraimense lançou uma campanha em março deste ano. Desconheço, entretanto, o seu desenvolvimento atual, pois não há informações nos sites da Grande Loja e do Grande Oriente locais. Mas vi, também ontem, maçons aplaudindo e justificando (não se limitando a explicar as concausas, mas efetivamente dizendo que a turba estava correta) o que aconteceu, ignorando uma bem (ou mal, pelo visto) conhecida advertência:

“Mostrou-me também assim: e eis que o Senhor estava sobre um muro, levantado a prumo; e tinha um prumo na sua mão. E o Senhor me disse: Que vês tu, Amós? E eu disse: Um prumo. Então disse o Senhor: Eis que eu porei o prumo no meio do meu povo Israel; nunca mais passarei por ele” (Amós 7:7-8)

O chamado à boa ação está feito. Fora isso os maçons devem escolher se vão deixar o bonde da história passar ou se, pior, vão embarcar no bonde errado.

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