Sobre debater com haters de Maçonaria

Você está na internet e, de repente, vê uma postagem contra a Maçonaria:

IluminatiMe sinto assim. Frequentemente.

O coração acelera, você estala os dedos, olha para o teclado e pensa:

isso-vai-dar-uma-treta-maligna

Você está decidido a mandar o incauto caluniador para uma tumba no cemitério de Refutópolis. Certo? Bem, te digo uma coisa:

joao-kleber-paraMelhor não.

O recém falecido escritor Umberto Eco já havia notado que a internet havia dado voz uma legião de imbecis. Não é uma crítica nova ou restrita à internet. Afinal, como Nelson Rodrigues já havia notado lá nos anos 70,  que os idiotas “descobriram que são em maior número e sentiram a embriaguez da onipotência numérica. E, então, aquele sujeito que, há 500 mil anos, limitava-se a babar na gravata, passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente etc. houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas.

Pois bem. Se você não quer se juntar ao coro dos idiotas, melhor pensar duas vezes antes de debater com um hater virtual.

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A retórica é uma das artes liberais clássicas. Você deveria tê-la visto lááááá no Grau de Companheiro, mas talvez não prestou muita atenção (não sei, presumo eu). Recomendo que preste a partir de agora, não somente para distinguir retórica de erística mas também para saber se portar e evitar cair no buraco negro da refutação infinita..

As redes sociais são um bom passatempo, mas devem ser usadas com moderação e etiqueta. Além disso, a internet possui uma fauna peculiar nos grupos de discussão: são os trolls.

Os Trolls são seres que agem individualmente ou em bando, protegidos ou não pelo anonimato. Muitos são motivados ideologicamente, mas muitos são simplesmente ociosos que gostam de ver o mar pegar fogo. Os trolls não estão dispostos ao convencimento. Eles não querem convencer nem ser convencidos. Eles só querem plantar a treta.

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Então, a primeira dica sobre debater com hater: não alimente o troll. Se ele não tem um interesse sincero em mudar de opinião, a discussão não tem qualquer sentido.

A segunda dica é: Você quer e precisa mesmo “refutar” tudo o que se diz da Maçonaria?

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Ok. Você quer.

IMG_20160216_192242772E, aparentemente, você pode

Então vou dar mais algumas dicas.

SAIBA DO QUE ESTÁ FALANDO: Você estuda sobre a Maçonaria ou se limita a ir nas reuniões? Está familiarizado com a literatura maçônica e anti-maçônica? Não? Então, vai discutir o que? Ah, seu oponente também não sabe do que está falando? Você pode sintetizar sugerindo ao interlocutor que utilize um supositório de opinião. Ou se arriscar em receber a mesma sugestão, caso o ignaro seja você..

O fato é que muitos maçons, no afã de defender a Ordem, acabam corroborando com as acusações. Por exemplo: Se você afirmar que “A Maçonaria fez a Revolução Francesa” ou “A Revolução Francesa foi feita com ideais maçônicos” você vai estar adotando uma tese levantada primeiro pelo Abade Barruel contra a Maçonaria (absolutamente discutível do ponto de vista histórico). Se o seu adversário, em resposta, imputar à Maçonaria os crimes do Terror Jacobino, você ficará em uma sinuca de bico.

7abfb8b1d5637b5c5d6f8d9068e3e1c5O Terror Jacobino? Bem…”

Minha sugestão: comece a estudar as fontes antimaçônicas e as tretas maçônicas do passado. Estude o affaire Taxil. Estude a questão religiosa do Brasil no século XIX. Estude a Revolta Cristera no México. Antes de dizer com orgulho que Dom Pedro I era maçom, que tal estudar a relação dele com o Grande Oriente? Você fala com orgulho dos nossos presidentes maçons, mas é sério que você teria orgulho de dividir uma coluna com um Floriano Peixoto?

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SAIBA QUEM ESTÁ FALANDO: Nem todas as críticas da Maçonaria são iguais. E nem todas são inverídicas. Por exemplo, as acusações de anticlericalismo feitas no catolicismo contra a Maçonaria são verdadeiras, pelo menos no que tange à maçonaria continental. Maçons se engajaram em campanhas anticlericais por todo o século XIX e parte do XX, e o ranço anticlerical segue forte em muitos países. Como esse sentimento anticlerical surgiu, e o seu alcance, é matéria para debate. Da mesma forma, não é possível acusar os católicos de afirmarem que a Maçonaria cultua satanás. Esta é uma acusação que, apesar de originalmente católica (vide o affaire Taxil), ganhou força no meio do protestantismo neopentecostal (inclusive por gente que volta e meia acusa a própria Igreja Católica de culto satânico). A crítica católica oficial tem outros fundamentos, muito mais refinados, por sinal.

Sem conhecer as premissas em que muitas acusações, especialmente as teológicas, se baseiam você vai acabar andando em círculos. Por exemplo, a rejeição aos juramentos decorre de uma interpretação teológica mais comum entre os protestantes que entre os católicos. Saiba se posicionar em relação às premissas. Se você não é protestante, não precisa aderir à premissa do sola scriptura. Se você não é católico, não precisa aderir à premissa Roma locuta causa finita est. Em ambos os casos, convém estudar antes e mais do que falar. Se pertencer à Maçonaria vai contra as convicções íntimas – filosóficas ou religiosas – de um sujeito, você acha mesmo que é seu dever reformar essas convicções?

SAIBA COMO ESTÁ FALANDO: Entrar numa discussão para afirmar que o seu interlocutor é movido por ressentimento, que “na certa é um profano que foi recusado“, ou “é um pobre ignorante/fanático, digno de pena” depõe mais contra quem o diz do que contra quem a ofensa é direcionada. Da mesma maneira, se você diz que “a maçonaria ensina que todas as religiões são iguais” para quem a acusa de pregar a nova ordem mundial, você estará confirmando a visão daquela pessoa. Cuidado para não projetar suas visões pessoais da Maçonaria como se fossem compartilhadas por toda a instituição.

A MAÇONARIA NÃO É MONOLÍTICA: Os maçons não são iguais e não têm uma agenda unificada. A maçonaria é um espaço de sociabilidade onde pessoas diferentes podem conviver e se tolerar. Se todos os maçons do mundo tivessem os mesmos objetivos sociais, políticos, econômicos e religiosos a acusação de complô seria verossímil. Mas não têm. Se você acha que os maçons conseguem se reunir mundialmente para planejar conspirações, deveria ver antes como eles conseguem planejar o churrasco anual da Loja.

0,,34578056,00Irmão vota em irmão”

NINGUÉM TEM QUE GOSTAR DA MAÇONARIA: Nem todo mundo deseja secretamente fazer parte da Maçonaria. Acostume-se com isso.

TENHA BOM HUMOR: Sério.

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Por fim, se lembre que você é uma vitrine da Ordem. Se você está a fim de passar vergonha na internet, bancar o tiozão do caps lock, boa sorte e boa noite.

tumblr_na08imoFnr1s632r2o1_1280Eu, pessoalmente, prefiro passar por misantropo

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O York Blog não impõe absolutamente nenhum tipo de objeção ao compartilhamento ou transcrição total ou parcial de qualquer post. Só o que se pede – com especial ênfase aos maçons – é que se respeite a autoria dos textos e das traduções. Pede-se, também, que o link para o York Blog seja sempre disponibilizado.

This article has 4 Comments

  1. Na absoluta maioria das vezes eu evito qualquer tipo de embate por redes sociais, e não apenas sobre a maçonaria. Se for alguém conhecido, e o assunto merecer ser debatido, em um momento oportuno eu puxo o papo pessoalmente. Acho, na maioria das vezes, infrutíferos os debates que percebo pela web.

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