Um sentido para a Maçonaria

Um dos modos mais tradicionais de se definir a Maçonaria é como sendo um sistema peculiar de moralidade velado em alegorias e ilustrado por símbolos. Esta frase, de uma singela linha, desafia uma explicação tão complexa que temo por não conseguir atender sua profundidade no espaço de uma reunião.

Permitam-me fazer como Jack, o estripador: vamos por partes.

Um sistema é, grosso modo, um todo harmônico. Cogitei transcrever aqui a definição do dicionário, mas temi parecer o Capitão Nascimento explicando estratégia para os pobres alunos do Curso de Operações Especiais…..

Satisfaçamo-nos então, pelo bem do relógio, com a noção de todo harmônico, ou seja, um conjunto de ideias, princípios, coisas e pessoas ordenadas em prol de uma noção de moralidade.

Perdoem-me, mais uma vez, pela simplificação. A descrição de o que é moral, e a distinção entre moral e ética ocupam volumes de bibliotecas. Pesquei na minha edição do Dicionário de Filosofia de Ferrater Mora (Detalhe: edição condensada): 8 páginas. Então, simplifiquemos: A moral seria uma ordem que diz respeito ao indivíduo, sendo um dever de consciência, em torno da qual gravitam as virtudes.

Retomemos, pois: um conjunto de ideias, princípios, coisas e pessoas ordenadas em prol daquilo que a consciência do indivíduo ordena a ele, com base nas virtudes reconhecidas.

Mas não se trata, naturalmente, de qualquer virtude. A moral de um oficial nazista, por exemplo, era balizada por aquilo que a ideologia definia como sendo virtuoso. Hoje, em tempos cada vez mais niilistas, tende-se a crer que nada é verdadeiro ou falso, vigendo assim o mais forte, o mais apto, reduzindo a moralidade a uma palavra estéril de grupos de facebook ou whatsapp.

Nossos rituais falam expressamente em virtudes cardinais e teologais, e creio que devemos prestar mais atenção ao estudo delas, em primeiro lugar, no primeiro grau.

Mas por que velado em alegoria?

Uma alegoria é uma história. Por exemplo: estamos perto do carnaval. Teremos carros alegóricos no desfiles de escola de samba, aquelas coisas medonhas feitas de isopor, purpurina e subcelebridades, que passam pela Sapucaí tentando fazer seu significado ser percebido pelo público.

Mas não basta, para uma boa alegoria, que se acumulem os elementos. É por isso que os carros de carnaval são medonhos, em minha opinião. Todos os elementos da alegoria devem formar uma unidade impactante e coerente, fornecendo um sentido lógico para a coisa.

Observem que alegoria tanto pode significar, em seu nível mais baixo, uma figura de linguagem (e me reportei ao carnaval e a Jack, o estripador, neste nível) ou a um modo narrativo. Me parece óbvio que quando fazemos Maçonaria estamos trabalhando com alegorias como modo narrativo.

E como eu afirmo isso? Nenhum de nós é pedreiro, presumo eu. Eu, pelo menos, nunca quebrei uma pedra. No máximo ajudei a bater uma laje de minha tia, empurrando materiais no carrinho de mão.

Mas aqui estamos, como que trabalhando nas pedreiras de Salomão, não?

E os símbolos?

Quando pegamos qualquer livro, no geral, que trate do “simbolismo” ou da “simbólica” maçônica os autores não fazem muita questão de tentar explicar o que é símbolo e o que é alegoria. Misturam tudo na mesma argamassa….

Vou me arriscar, sabendo que estarei apenas molhando os pés na beira da praia. Mas o símbolo seria um elemento que carrega em si inúmeros significados, que são identificados primordialmente por aquele que o enxerga.

Assim, temos o esquadro, o nível, o prumo, o cinzel, a régua, os aventais, o sol, a lua, todos símbolos com infinitos significados. Os símbolos não são inventados. Os seus significados simbólicos é que são descobertos.

Como são descobertos? No contexto da alegoria.

Uma das razões do estado de confusão reinante hoje na maçonaria decorre precisamente do hábito das diversas autoridades maçônicas interpretarem os símbolos deslocados das alegorias em que são usados, não raro praticando um verdadeiro sincretismo entre diversas formas simbólicas e iniciáticas.

Eis, então, o meu projeto de proposta de interpretação da definição: A Maçonaria é um conjunto de ideias, princípios, coisas e pessoas ordenadas em prol daquilo que a consciência do indivíduo ordena a ele, com base nas virtudes reconhecidas, conforme exposto nas narrativas e conforme significam, nas narrativas, os símbolos.

Desta forma, praticar maçonaria é oferecer ao indivíduo uma ordem moral que é desvendada paulatinamente através da interpretação que ele faz das alegorias e da decodificação contextual dos símbolos.

Cada maçom que busque entender por qual razão tem que sair de casa toda semana para ir à Loja deve, portanto, se fazer primeiro a pergunta fatal: Eu quero fazer isso?

Trabalho apresentado na A.R.L.S. Fraternidade, Auxílio e Verdade Nº 187 da GLEB em 27 de janeiro de 2016.

This article has 1 Comment

  1. Tive a honra de assistir a apresentação desta peça. Nosso Pod.’. Ir.’. Edgard como sempre nos brindando com sua competência e dedicação à nossa Or.’.. Não vejo a hora de apreciar mais um dos seus TTrab.’..

    Parabéns, Mano

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