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Maçonaria e COVID-19

A atual pandemia de COVID-19 (Coronavirus) está gerando repercussões na vida maçônica no Brasil e no mundo. Não era para menos, uma vez que se trata de um virus que se espalha com muita facilidade e que tem um índice de hospitalização e letalidade elevado entre pessoas mais velhas, na mesma faixa etária da maior parte dos maçons.

As recomendações gerais vão no sentido de se evitar reuniões e aglomerações desnecessárias. O objetivo é retardar o avanço do vírus para evitar um crescimento muito rápido no número de doentes, o que causaria o colapso do sistema de saúde.

O York Blog recomenda que os maçons se lembrem das virtudes cardeais, em especial as da prudência e fortaleza, e as virtudes teologais (fé, esperança e caridade) na hora de conduzirem suas famílias e de se portarem publicamente neste momento complexo.

Nesta hora muitos se perguntam em como as obediências devem agir. A decisão de paralisar ou não as atividades não é simples e nem deve ser uniforme, devendo se observar a realidade local. Buscaremos manter a atualização da posição de cada obediência ante a crise. Você pode nos manter atualizados, enviando informações e cópias dos atos.

Atualizado em 17.03, 07:00
AMAPÁ – GOB-AP suspendeu todas as atividades por 20 dias, prorrogáveis (Ato 001/2020 DRGA)
AMAZONAS – GOB-AM suspendeu todas as atividades por 20 dias, prorrogáveis (Ato 006/2020)
BAHIA – GLEB suspendeu sessão de Equinócio marcada para 21/03 e autorizou que cada Loja decida se suspende ou não atividades por 30 dias a partir de 13/03 (Ato 0508)
BAHIA – GOBA facultou às Lojas a decisão sobre suspensão ou não e recomendou que maçons que façam parte dos grupos de risco que evitem frequentar atividades (ATO 057 2018-2020, DE 16 DE MARÇO)
BAHIA – GOB-BA facultou às Lojas a decisão sobre suspensão ou não e recomendou que maçons que façam parte dos grupos de risco que evitem frequentar atividades (ATO 397-IT, de 16 de MARÇO)
CEARÁ – GOCE suspendeu todas as atividades da jurisdição até dia 30/03, podendo prorrogar. (Decreto 005/-2017-2020, de 15 de março de 2020)
DISTRITO FEDERAL – GLDF suspendeu atividades sine die
Distrito da Grande Loja da Inglaterra no Brasil: Cada Loja tem a liberdade de decidir (District News nº 2)
GOIÁS – GLEGO suspendeu todas as atividades das jurisdicionadas até 30 de abril (Decreto 008/2020)
GOIÁS– GOB-GO suspendeu todas as atividades das jurisdicionadas por 30 dias (Ato Administrativo 01/2020, de 16/03)
MATO GROSSO DO SUL – GOB-MS autorizou as Lojas a suspenderem as atividades por até 30 dias, a partir de 13/03 (GME 0068-2019-2023)
MINAS GERAIS – GLMMG suspendeu as atividades sine die. (Circular 078-2018/2021)
MINAS GERAIS – GOMG suspendeu as atividades das jurisdicionadas por 30 dias, prorrogávei, mantendo as eleições para o grão mestrado marcadas para 23/03, fixando que devem ocorrer fora de templo, sem formalidades ritualísticas. (Ato 1029 de 16 de março de 2020)
PARANÁ – GOB-PR deu autonomia às Lojas para decidirem sobre a realização de reuniões e abono de faltas, sem limite de prazo (Pr 079-2020)
PARANÁ – GLPR suspendeu as atividades sine die (Decreto 033-017/2020)
RIO DE JANEIRO – GLMERJ – autorizou as lojas a suspenderem as atividades até 26/04 (13/03).
RIO DE JANEIRO – GORJ – autorizou as lojas a suspenderem as atividades até 26/04 (13/03).
RIO DE JANEIRO  – GOB-RJ suspendeu atividades por 15 dias. Agenda do Grão-Mestre suspensa até 30 de abril.
RIO GRANDE DO SUL – GOB-RS: Dispensou de frequência maçons que façam parte de grupo de risco, autorizou suspensão de atividades de Lojas em cidades em que já há casos confirmados por 60 dias e suspendeu eventos que reúnam mais de 100 pessoas por 30 dias. Suspenderá toda a jurisdição pro 30 dias assim que for identificada transmissão comunitária (Decreto 004/2020, de 16 de março)
SANTA CATARINA – GLSC/GOBSC/GOSC suspenderam as atividades por 30 dias a partir de 13/03 (Comunicado Consunto GLSC/GOBSC/GOSC nº 02)
SÃO PAULO – GOP suspendeu as sessões até 31/03 e reavaliará após isso. (corrigido em 16/03, 11:45. Ato 104 de 16/03/2020)
SÃO PAULO – GOBSP e GLSP recomendaram a suspensão dos trabalhos, mas deixaram a critério de cada loja (12/03) (Comunicado da GLESP e Comunicado GOBSP)
SUPREMO CONSELHO DO GR 33 PARA A RFB (JACAREPAGUÁ) – Suspendeu investidura que aconteceria dia 14/03, sine die (Circular 022-2018/2023). Autorizou suspensão das atividades nas inspetorias litúrgicas por 30 dias, prorrogáveis (Ato 065-2018/2023)
GRANDE ORIENTE DO BRASIL – A SAFL suspendeu a sessão ordinária marcada para 21/03 (Ato Administrativo 010/2020)
SUPREMO CONCLAVE DO BRASIL (RITO BRASILEIRO) – determinou a suspensão das atividades dos corpos filosóficos do Rito até 31/05 (Ato 4735 de 16 de março de 2020)

Para informações sobre obediências ao redor do mundo, recomendamos este link, do site maçônico Forthright

NOTAS FINAIS SOBRE O LIVRO “ENTRE DOIS AMORES”

“Contra fatos, não há argumentos”. Resposta à tréplica da resenha de “Entre Dois Amores”.

 LUIZ CLAUDIO DE ASSIS PEREIRA

A tréplica elaborada por Edgard Freitas começa por justiçar as omissões de sua resenha afirmando: “resenhas não se destinam a refutar de modo completo, mas a apresentar, de um modo geral, um determinado texto”. Ora, mas foi justamente essa a falha apontada por mim, pois ao ser omisso aos fatos narrados e comprovados no livro, meu oponente mostrou seu lado tendencioso, como ele mesmo disse, ao “escolher alguns aspectos”. Interessante que depois dessa consideração inicial, pensei eu, que Edgard Freitas iria, então, dar sequência à sua tréplica, respondendo aos itens apontados por mim como tendo por ele sido omitidos. Mas, nada. Ele parte para uma estratégia bastante empregada por políticos em debates na televisão, desviando-se do que foi provocado a responder. Mas, para não deixar meu oponente continuar usando esse artifício, antes de responder à sua tréplica, eu vou propor a ele o seguinte: a partir de agora, vamos nos concentrar em pontos específicos. Está bem, assim? Caso não esteja de acordo, não tem problema, voltaremos à formatação atual para continuarmos esse debate. Para simplificar ainda mais, proponho que sua resposta se atenha a apenas três dos seis pontos que apontei na réplica como parte da omissão, agora proposital, os quais reproduzo abaixo:

1- a resenha foi omissa ao não comentar fator narrados e comprovados no livro em relação ao “entra governo, sai governo” tendo sempre um maçom comandando o Poder Executivo Federal, Estadual e Municipal, descrito em detalhes, no capítulo referente à “Ascensão e Queda do Partido dos Trabalhadores”, e no capítulo seguinte, “A atuação política da Maçonaria brasileira”, nos exemplos dados, tanto pelo Estado do Mato Grosso do Sul, quanto pelo Distrito Federal, além da atuação institucional da Maçonaria paulista nas eleições municipais.

2- a resenha foi omissa ao não comentar fatos narrados, e comprovados, no livro, quanto à tentativa de intervenção militar engendrada dentro da sede do Grande Oriente do Brasil, em Brasília, pelo atual candidato à vice-presidência da República, na chapa de Jair Bolsonaro, com apoio declarado de maçons da iniciativa privada, tais como o catarinense dono da Havan, Luciano Hang.

3- a resenha também foi omissa ao não comentar a existência de um grupo autodenominado “maçons petroleiros” que agiu junto ao governo do ex-presidente Lula para a criação de uma subsidiária ligada à Petrobras para atender interesses de seus membros e que essa ação, tal como comprovada, foi articulada pelo Grão Mestre Estadual do Grande Oriente do Estado de São Paulo, Benedito Marques Ballouk Filho.

 

Para finalizar, gostaria de mencionar apenas dois “pequenos” detalhes que, para muitos, poderá passar despercebido.

O primeiro diz respeito à “lista dos 110 ilustres” que a tréplica volta a afirmar ser apócrifa, para, logo abaixo, reconhecer que a mesma tem autor declarado. Não sendo apócrifa, como não é, e sendo tão fácil recorrer ao maçom que a elaborou para verificar sua autenticidade, como ele diz, por que será que o treplicante não o faz? Será que receia a confirmação da mesma ou será que tem medo que a retratação possa soar da mesma forma como aconteceu com a dupla Léo Taxil e de La Rive? E por que deixou de reconhecer também o que foi reafirmado na réplica, qual seja, que o livro aponta exatamente de onde a lista surgiu, quem a fez e como que, “de uma hora pra outra”, ela desapareceu da internet com o firme propósito de que ninguém dela mais tomasse conhecimento? Questões como essas enfraquecem sobre maneira o meu oponente.

O segundo “detalhe” trata de uma “nuance”, como diriam os franceses. Reparem que Edgard Freitas ancorou sua tréplica quase que com a mesma argumentação que finalizou sua resenha quando disse que “A pesquisa sobre a influência maçônica na política é extremamente complicada pela impossibilidade de demonstrar relações causais com precisão, em parte por conta do véu de segredo, em parte pela razão de os fatos sociais terem causas múltiplas e complexas, de forma que nenhum dado, isoladamente, poderá ser interpretado como a causa.”. Há que se destacar que, nesta tréplica, ele deixa de usar o argumento do “véu de segredo”. Será por que? Vale ainda salientar o fato de, apesar de não reconhecer valor na obra lida e resenhada por ele, estrategicamente, Edgard Freitas, dessa vez, deixa margem a uma futura saída honrosa ao concluir que “as relações entre maçonaria e política são um campo que merece um estudo acadêmico sério”. É mesmo?

P.S.: aproveito para informar a que possa interessar que, na semana passada, entrei com uma Representação no Ministério Público Federal para saber “se há instrumento legal para anular eleições que tenham sofrido interferência de sociedades não partidárias secretas ou não”, embasando meu pedido nos fortes indícios apontados no livro. Grato pela atenção. LCAP.

 

CONTRA CRENÇAS NÃO HÁ FATOS OU ARGUMENTOS: CONSIDERAÇÃO FINAL

Edgard da Costa Freitas Neto

  1. Luiz Claudio de Assis Pereira insiste que a falta de provas é prova da falta;
  2. Luiz Claudio de Assis Pereira insiste que uma lista apócrifa prova a filiação maçônica de pessoas vivas que negam a filiação maçônica imputada (como Edir Macedo ou Silas Malafaia);
  3. Luiz Claudio de Assis Pereira não aceita estar errado em relação a Leo Taxil ou em relação à própria ignorância sobre a estrutura interna e externa da Maçonaria.
  4. Luiz Claudio de Assis Pereira acredita que correlação implica em causação.

 

Não há muito mais o que falar. Quem está predisposto, por um mal disfarçado e latente antimaçonismo, a acreditar que todas as pessoas em posição de destaque são maçons até prova em contrário e que a Maçonaria está infiltrada em todos os níveis da sociedade e dá causa aos principais eventos desta mesma sociedade – como um titereiro – vai achar  o livro do Sr. Luiz Claudio de Assis Pereira bastante razoável.

“Ausculta Fili”: Um comentário em 7 pontos

O escritor Luiz Cláudio de Assis Pereira escreveu uma réplica à minha resenha crítica sobre seu livro “Entre Dois Amores”, democraticamente publicada aqui no meu York Blog. Julgo de bom alvitre, entretanto, fazer um (espero que breve) comentário sobre a réplica, sumarizado em 7 pontos essenciais sobre os quais o Sr. Luiz Claudio não prestou atenção:

  1. RESENHA OMISSA?

A réplica se inicia com uma reclamação de que a resenha teria sido omissa em não comentar algumas das várias afirmações do seu livro. Isso não foi feito, de fato, e por uma boa razão: resenhas não se destinam a refutar de modo completo, mas a apresentar, de um modo geral, um determinado texto. Neste sentido, a resenha só poderia, como de fato fez, escolher alguns aspectos, sob pena de se converter em outro livro. Neste sentido, a crítica exposta na resenha de que o autor aponta uma grande quantidade de pessoas como sendo maçons, mas falha em comprovar esta filiação, é suficiente para demonstrar a sua falta de rigor metodológico.

De todo modo, a resenha foi bem clara ao apontar um problema óbvio: do fato de que um ou mais agentes sejam maçons não segue necessariamente que suas ações sejam maçônicas. Esse salto indutivo, tônica do livro resenhado, é uma falácia.

  1. COMO IDENTIFICAR UM MAÇOM?

O autor se queixa das dificuldades em identificar um determinado cidadão como maçom, reclamando que a resenha teria apontado de modo falacioso uma suposta facilidade em obter tal informação. Inicialmente, quem ler com atenção a resenha verá que em nenhum momento foi sugerido que a busca pelas informações seria “fácil”. Quando se tratar de pessoa morta, por exemplo, o pesquisador pode ir atrás de fontes primárias – documentos, testemunhos de primeiro grau, por exemplo – ou secundárias, como notícias de jornal.

Quando se trata de pessoa viva, entretanto, surge uma facilidade: é possível perguntar diretamente à pessoa – que pode ou não confirmar, e ao seu círculo social direto.

Dois que são frequentemente apontados como maçons são Edir Macedo e Silas Malafaia. No meio evangélico contemporâneo a condição de maçom é anátema, de forma que esta acusação é sempre utilizada para fins de difamação. Ambos negam categoricamente serem ou terem sido maçons. A biografia de Edir Macedo escrita por Christina Lemos, por exemplo, afirma que o pai de Macedo era maçom, mas nada diz sobre o filho. A negativa pode ser mentirosa? Pode. Mas neste caso, invariavelmente, ela impõe um ônus sobre o pesquisador que queira afirmar este fato.

É possível afirmar categoricamente, por exemplo, que Michel Temer e o General Hamilton Mourão são maçons? Sim, pois nenhum dos dois fez segredo desta afiliação, existindo fotos deles paramentados, ou de seus cadastros maçônicos. É possível saber a Loja em que foram iniciados, o dia, etc.

Mas quando o autor afirma, por exemplo, que Palocci, Maluf, Edir Macedo, José Sarney, etc, são maçons não traz nenhuma fonte que corrobore tal informação, a não ser a tal lista dos 110 maçons famosos. Só que esta lista, apócrifa que é, não serve isoladamente como fonte de absolutamente nada.

A famosa lista de 110 maçons à qual o resenhado/replicante se apega é uma compilação de outras listas, igualmente apócrifas que circulam desde o início dos tempos na internet. Quando DeMolay ativo, em 2002, editei um jornalzinho do meu Capítulo e publiquei uma compilação de uma dessas listas, retirada da internet. Fonte? Times New Roman.

O fato de esta versão específica ter sido publicada por um maçom não lhe confere especial autoridade. Como disse na resenha, a lista tem nome de maçons notórios e de outros não tanto. Não há maiores indicações de fontes adicionais. Se eu publicar essa lista – ou, pior, os 231 nomes com o “tag” maçons do Brasil no Wikipedia isto conferiria autoridade à citação? Não, apenas afundaria qualquer pretensão de autoridade que eu tivesse.

Na minha dissertação de mestrado estou pesquisando as relações entre maçonaria e política na África Ocidental. Eu nunca afirmo a condição maçônica de alguém sem antes cruzar dados. Quando não consigo confirmar, coloco uma ressalva. Se a única fonte é duvidosa (como por exemplo um grupo salafista que protestou contra a realização do REHFRAM 2018 alegando que a Rihanna é uma agente maçônica) eu simplesmente ignoro.

  1. O PROBLEMA DAS FONTES

O problema das fontes não é um problema apenas da pesquisa maçônica, é um problema geral de qualquer pesquisa em ciências humanas e sociais. Já falamos aqui das fontes primárias – depoimentos de testemunhas, documentos originais, etc. E as fontes secundárias?

Ao contrário da queixa do replicante eu não desdenho de autores não-maçons. Alguns, inclusive, são amplamente citados nos meus escritos e/ou compõem parte central, por exemplo, da minha dissertação de mestrado. De autores estrangeiros, por exemplo, cito José Ferrer Benimelli, Guillermo de los Reyes, Jessica Harland-Jacobs, Margaret C. Jacob, Reinhart Koselleck; dos nacionais Alexandre Mansur Barata, Marcos Morel, David Gueiros. Todos fizeram ou fazem pesquisas direcionadas à história da Maçonaria e nenhum, até onde eu saiba, é ou foi maçom.

A crítica direcionada a Gustavo Barroso se justifica e permanece. Por todas as glórias literárias que ele tenha, é um fato notório que os seus escritos contra a Maçonaria foram fortemente influenciados pela literatura fascista ou proto-fascista e antissemita. Isto não pode ser ignorado por nenhum autor que o cite.

Mas este não é um problema que aflige apenas o campo anti-maçônico. A Maçonaria já teve – e ainda tem – apologistas inconsequentes que reproduziam qualquer boato que julgassem válido. No Brasil, por exemplo, autores como Arcy Tenório D’Albuquerque (que, por coincidência, foi colega de Gustavo Barroso na Ação Integralista) endossou a tese de que tudo o que foi feito no Brasil o foi pela Maçonaria.

Só que as dificuldades de pesquisa da década de 30 não são mais as de hoje. É inconcebível que um autor busque escrever uma história política da maçonaria, nos dias de hoje, calcado em autores como Barroso e Albuquerque, ignorando TODA a produção historiográfica subsequente.

  1. QUANTAS CORRENTES IDEOLÓGICAS EXISTEM NA MAÇONARIA?

A má escolha das fontes acarretou na má compreensão do fenômeno. O autor persiste em sustentar a existência de três grandes linhas político-ideológicas da maçonaria, ilustrando esta afirmação com a união entre Roosevelt, Churchill e Stálin. Que Roosevelt e Churchill foram maçons não há dúvidas – é um dado histórico facilmente comprovável. Mas Stálin?

Pondo de modo simples: Não havia maçonaria na União Soviética, e a associação com a maçonaria poderia valer uma viagem só de ida para o Gulag. A Maçonaria foi perseguida pelos Czares e pelos Bolcheviques. O Grande Oriente da Rússia funcionou, no início do século XX, apenas entre 1905 e 1917, e era associado aos liberais urbanos e à facção Menchevique, tendo sido radicalmente suprimida após o golpe bolchevique. A 4ª Internacional, em 1922, declarou a incompatibilidade entre ser maçom e ser comunista.

A tese de que o bolchevismo era ligado à maçonaria existe por força da adesão dos fascistas aos Protocolos dos Sábios de Sião, segundo o qual as forças da revolução e a maçonaria eram ambas instrumentos do judaísmo. Era uma tese endossada por Gustavo Barroso, mas essencialmente falsa.

Existem correntes na Maçonaria? Sim, mas elas não dizem respeito à política ideológica exterior, mas à política ideológica interna, decorrente da adesão a um ou outro discurso de regularidade maçônica.

  1. ALBERT PIKE: FALTA DE PERSISTÊNCIA OU PERSISTÊNCIA NA FALTA?

Na resenha foi dado o benefício da dúvida ao autor do livro – já que ninguém pode ser inteiramente culpado de má pesquisa – mas a réplica dissipou, infelizmente, a dúvida. Não é razoável alguém citar Abel Clarín de La Rive, alegar luciferanismo de Albert Pike e ignorar o caso Taxil.

O replicante diz que conhece o caso Taxil, mas o julgou irrelevante. Significa que ele deliberadamente utiliza citações que sabe ser falsas ou descontextualizadas. Não é mais o caso, assim, de supor mero desleixo metodológico, mas afirmar cabalmente a desonestidade intelectual.

Leo Taxil se retratou publicamente, mas não como um arrependido, mas como um gozador. Ele não mostrou a farsa com aquele olhar compungido desses pequenos marginais que pedem “perdão pelo vacilo”, mas como um Sérgio Mallandro gritando “Pegadinha! Gluglu iéié!”.

  1. QUEM MANDA EM QUEM?

O replicante, ainda, insiste na existência de subordinação do GOB com a Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI). Como “prova”, cita o link geral da homepage da GLUI. Em  local algum no site da GLUI se diz que o GOB é subordinado. O Distrito da América do Sul é subordinado à GLUI, mas não o GOB. O GOB tem um tratado de reconhecimento mútuo com a GLUI. Potências maçônicas, de regra, apenas reconhecem-se, umas às outras, mas cada uma é autônoma.

  1. UMA REDE OU UMA HIERARQUIA?

Um comentário final: A maçonaria tem uma estrutura hierárquica, mas o que se destaca no ambiente social é seu caráter horizontal, como rede. A natureza fraternal da maçonaria, seus símbolos como língua franca possibilitam a formação de laços – fortes ou fracos – entre homens que em princípio não têm outra coisa em comum.

A visão conspiracionista de mundo vê nisso um perigo. A falta de provas só pode ser vista como prova da falta.Ocorre que do fato de se facilitar este contato não segue que os maçons necessariamente ajam como bloco. Não existe uma “bancada do bode” em sentido estrito, mas parece ser um bom tema de pesquisa. Em verdade, o atual cenário político mostra de modo cabal a existência de grupos de maçons que atuam politicamente nos diversos campos ideológicos, existindo grupos de maçons à esquerda, à direita e liberais.

Se isto não é prova da falta de unidade de ação e intenção, então não sei o que mais pode ser.

CONCLUSÃO:

Reitero o afirmado: as relações entre maçonaria e política são um campo que merece um estudo acadêmico sério, mas creio que a obra analisada passou longe desta meta.

 

 

RÉPLICA À RESENHA DO LIVRO “ENTRE DOIS AMORES”

O York Blog publica hoje uma réplica à resenha do livro “Entre Dois Amores”, escrita pelo autor da obra resenhada, Luiz Claudio de Assis Pereira. O texto segue reproduzido na íntegra, sem qualquer edição, e será objeto de uma tréplica amanhã.

RÉPLICA À RESENHA DO LIVRO “ENTRE DOIS AMORES”

LUIZ CLAUDIO DE ASSIS PEREIRA

Vou iniciar essa réplica por aquilo que Edgard Freitas omitiu na resenha que fez do livro de minha autoria, intitulado “Entre Dois Amores – Como a Maçonaria vem transformando o Brasil e o mundo”. Nela o meu oponente conclui que “A pesquisa sobre a influência maçônica na política é extremamente complicada pela impossibilidade de demonstrar relações causais com precisão, em parte por conta do véu de segredo, em parte pela razão de os fatos sociais terem causas múltiplas e complexas, de forma que nenhum dado, isoladamente, poderá ser interpretado como a causa.”.

Quanto a essa afirmação, tenho a observar que a resenha foi omissa ao não comentar fatos narrados, e comprovados, no livro, quanto a várias questões relacionadas à perniciosa relação entre o poder constituído e agentes públicos e privados maçons, relação essa feita de forma orquestrada e institucionalizada pelas três correntes ideológicas abrigadas pela Maçonaria brasileira. Exemplos:

1- a resenha foi omissa ao não comentar o “entra governo, sai governo”, apontado no livro, tendo sempre um maçom comandando o Poder Executivo Federal, Estadual e Municipal, descrito em detalhes, no capítulo referente à ascensão e queda do Partido dos Trabalhadores, e nos exemplos dados no capítulo seguinte, “A atuação política da Maçonaria brasileira”, tanto do Estado do Mato Grosso do Sul, quanto do Distrito Federal, além da atuação institucional da Maçonaria paulista nas eleições municipais.

2- a resenha foi omissa ao não comentar sobre os diversos maçons membros do Poder Judiciário, inclusive do Supremo Tribunal Federal, do Supremo Tribunal de Justiça, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, além de políticos das mais diversas agremiações partidárias, citados por outros maçons em solenidades oficiais, tal como relatado na transcrição do discurso proferido no Senado Federal pelo maçom ex-senador Mozarildo Cavalcanti, quando da comemoração do 40º aniversário de fundação do Grande Oriente do Distrito Federal.

3- a resenha foi omissa ao não comentar fatos narrados, e comprovados, no livro, quanto à tentativa de intervenção militar engendrada dentro da sede do Grande Oriente do Brasil, pelo atual candidato à vice-presidência da República, na chapa de Jair Bolsonaro, com apoio declarado de maçons da iniciativa privada, tais como o catarinense dono da Havan, Luciano Hang.

4- a resenha também foi omissa ao não comentar a existência de um grupo autodenominado “maçons petroleiros” que agiu junto ao governo do ex-presidente Lula para a criação de uma subsidiária ligada à Petrobras para atender interesses de seus membros e que essa ação, tal como comprovada, foi articulada pelo Grão Mestre Estadual do Grande Oriente do Estado de São Paulo, Benedito marques Ballouk Filho.

5- a resenha foi omissa ao não comentar fatos narrados, e comprovados, no livro, quanto à idêntica ingerência da maçonaria na política de outros países, dados os exemplos da França e Portugal.

6- por fim, vale também dizer, a resenha foi omissa ao não reconhecer o nível de detalhes dos fatos narrados e comprovados no livro, fatos estes que nenhum jornalista investigativo no Brasil, até hoje, teve coragem de revelar.

Nesse sentido, a meu ver, temos algumas questões muito importantes que formam a base dessa discussão e que vamos ter que a ajustar para dar sequência ao debate. A meu juízo, a mais importante de todas trata da dificuldade, inerente a qualquer sociedade secreta (ou discreta, como queira), de se identificar um cidadão como membro daquela organização, e se, no caso da maçonaria, ele (ou ela) está ativo ou “adormecido”, qual o grau que atingiu, ou seja, se ainda está, e irá permanecer, nos graus inferiores, ou se já entrou nos graus filosóficos e em que nível se encontra, qual o rito que segue a sua Loja, e assim por diante. Obviamente, essa é uma questão crucial. Sem isso, nosso debate vai entrar pelo campo do “eu acho que fulano é maçom” e do “eu acho que não”, e aí, não vamos chegar a lugar nenhum. No livro, eu aponto nomes de agentes públicos e privados, muitos deles com provas cabais da sua pertença à maçonaria, inclusive reproduzindo fotos registradas em sites maçônicos durante a realização de eventos nas respectivas Lojas. Edgard Freitas questionou alguns nomes que aparecem numa lista de 110 maçons ilustres. Para ajudar a clarear esse ponto específico, a lista dos 110, eu já solicitei a colaboração do conhecido e reconhecido escritor Laurentino Gomes. Espero que ele dê essa enorme contribuição ao debate. Creio que o primeiro ponto a ser debatido deva ser: “O maçom que seja agente público ou mesmo aquele que, sendo agente privado, tenha alguma interface com a esfera pública, tipo um financiamento do BNDES, por exemplo, deve declarar sua condição de membro da maçonaria? Não sendo assim, como posso identificar um maçom que exerça atividades nessas condições?”.

Sob esse aspecto, vale salientar que a facilidade mencionada por Edgard Freitas para se saber se um determinado cidadão pertence ou não à Maçonaria é, sim, me desculpe usar o mesmo termo utilizado por ele, uma falácia. Isso, simplesmente, não existe. Vá você procurar saber se um determinado sujeito é maçom ou não para você ver qual resposta irão lhe dar.

Em determinada altura, a resenha passa por essa questão, volto a dizer, crucial, que é a exposição de dezenas de pessoas citadas no livro como maçons, especialmente políticos das mais diversas correntes ideológicas, como por exemplo, Antônio Palocci, Michel Temer, Paulo Maluf, e etc. Nesse particular, a resenha comete um erro grave ao afirmar que a lista dos 110 maçons ilustres do GOB é apócrifa, pois não é. Ela tem autor e o mesmo é um membro do próprio GOB, tal como citado na pág. 34. Aliás, sob esse aspecto, na mesma página eu menciono o fato de que essa “lista estava em pdf anexada à página da Loja Maçônica à qual pertence o Venerável que a publicou”. E concluo o parágrafo dizendo que antes do site ser retirado do ar, “várias pessoas produziram vídeos mostrando a sua veracidade”. Detalhe: temendo que fatos semelhantes venham a ocorrer com diversos sites e vídeos citados no livro, eu providenciei a feitura de uma Ata Notarial no Cartório de Joinville (SC).

A resenha faz sugerir que foram “alguns” poucos maçons para os quais o autor conseguiu recolher provas concretas. Isso não é verdade. Foram muitos inclusive reproduzindo fotos de maçons ilustres em eventos registrados em sites maçônicos. E de todas as esferas de poder (Federal, Estadual e Municipal) e dos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário).

O caso do José Roberto Arruda, diferentemente, do que foi mencionado na resenha, está muito bem registrado no livro, tendo, inclusive, sido mencionado o fato de “um membro da Maçonaria estar batendo de frente com o Arruda como se a Ordem estivesse disposta a passar a limpo o ocorrido”, no caso, o repasse de R$ 30 milhões para uma tal Fundação Gonçalves Lêdo, ligada à Maçonaria do Distrito Federal, através de convênio realizado sem licitação.

Diga-se de passagem, a maioria dos maçons mencionados no livro, entre eles diversos assessores do atual presidente da República, aparecem citados em operações da Polícia Federal, tendo, em vários casos, sido presos em Operações da Lava Jato, entre outras.

Antes porém, a resenha dedica dois parágrafos à avaliação da qualidade das referências bibliográficas utilizadas pelo autor. Não sendo as obras, citadas ao final do livro, de autores de sua familiaridade, Edgard Freitas tratou de classificá-las como sendo obras de qualidade inferior, criticando o escritor Gustavo Barroso, um dos maiores intelectuais da sua época, membro da Academia Brasileira de Letras entre outras qualificações que aqui dispenso comentar. A crítica feita ao fato de Gustavo Barroso ter “encampado a teoria da conspiração judaico-maçônico- bolchevista” é desprovida de argumentação como que a citação em si fosse suficiente para desqualificar aqueles que durante a Segunda Guerra Mundial pensavam como os nazistas alemães. Para tanto, nem ao menos levou em consideração justamente o fato histórico, citado pelo autor no capítulo 6 (“A atuação conjunta das três correntes divergentes”), onde o mesmo descreve como as Forças Aliadas juntaram as três correntes maçônicas, via de regra, antagônicas, (a conservadora à época liderada por Winston Churchill, a liberal comandada por Franklin Delano Roosevelt  e a progressista capitaneada por Josef Stálin, todos estes reconhecidamente pertencentes à Maçonaria) que, no fundo, representavam, justamente, a aliança judaico-maçônico-bolchevista contra a qual Hitler lutava, sendo essa uma realidade e não uma mera “teoria da conspiração”.

Ainda sob o aspecto das fontes pesquisadas, nenhum comentário foi feito ao sem-número de notas de rodapé, que nem por serem de rodapé são menos importantes, e que compõe o acervo de informações levantadas, muitas delas retiradas de sites maçônicos.

Logo em seguida, Edgard tratou de elencar uma série de adjetivos pejorativos (“diversos erros, omissões, inconsistências e falácias”) e, como de costume a todos os maçons, procurou desqualificar o autor pelo fato do mesmo escrever um livro sobre a Maçonaria não sendo ele maçom. Isso já é lugar comum. Sem comentários.

Ressalte-se que a resenha não tece nenhuma linha sobre a origem da maçonaria tal como descrita no livro, envolvendo não somente os Templários e os pedreiros-livres (construtores medievais), mas outros grupos, notadamente, os judeus cabalistas e os cátaros, a quem o autor de “Entre Dois Amores – Como a Maçonaria vem transformando o Brasil e o mundo” credita maior influência à filosofia e ensinamentos maçônicos. Não por acaso, dois grupos não incluídos na história oficial da Maçonaria por terem sido acusados de bruxaria durante a Idade Média.

E é justamente nesse campo, místico-esotérico, que a resenha entra no aspecto religioso largamente abordado no livro, mas apenas para se dedicar ao fato do autor ter apontado Albert Pike como “ardoroso defensor do luciferianismo”, sem levantar qualquer outro dos vários temas relativos à religiosidade professada por maçons de diferentes crenças, por exemplo, onde o autor descreve exaustivamente a Thelema, uma religião nascida, criada e desenvolvida por uma ordem maçônica denominada O.T.O. – Ordem dos templários Ocidentais, que tem Baphomet, o deus pagão da fertilidade, como referência. Vamos então à replica quanto a Albert Pike e o seu livro “Morals & Dogma”.

1º) O livro de Albert Pike é sim uma referência mundial para todos os maçons que seguem o Rito Escocês Antigo e Aceito – R.E.A.A., que é o rito praticado pela maioria esmagadora dos maçons brasileiros. Ocorre que o mesmo, por vezes, sofre algumas adaptações à cultura local e passa a ser assim chamado de Rito Escocês Retificado.

2º) Pike foi, sim, Grande Comandante, Soberano Pontífice da Maçonaria Mundial, título a ele atribuído dada a importante contribuição que deu ao R.E.A.A. em particular e a Maçonaria Mundial.

3º) O livro “Morals & Dogma” é cercado de simbolismos, como de praxe, para dar pistas a quem saiba decifrá-los e despistar os iniciados que não tenham ultrapassado a enorme barreira do 30º Grau, fato destacado pelo autor de “Entre Dois Amores”. O autor salienta inclusive que, ao se referir a Lúcifer e ao diabo, Pike utiliza “palavras dúbias em relação a eles, o que levou a interpretações incorretas ou, ao menos, inconclusivas”. Citando, então, a seguinte frase: “A convicção de todos os homens que Deus é bom levou à crença em um diabo, o Lúcifer caído … como uma tentativa para explicar a existência do Mal, e torná-lo consistente com o Poder Infinito, Sabedoria e Benevolência de Deus”.

4º) Quanto à famosa “fraude de Taxil”, o autor teve dela conhecimento mas julgou irrelevante face a outras informações levantadas que provam a prática do luciferianismo por alguns membros da Maçonaria, fato que poucos maçons sabem e um número ainda menor reconhece. Quanto à também famosa retratação de Leo Taxil, sabe-se lá em que condições ela foi cedida ou concedida.

5º) Portanto, diferentemente do que a resenha afirma, não houve “desonestidade intelectual” do autor, nem tão pouco “desleixo metodológico”. A resenha, nesse particular, só tem razão em uma afirmação: “A escolha é do leitor”.

Seguindo, quanto à colocação feita pelo autor, criticada na resenha, de que o Grande Oriente do Brasil é subordinado à Grande Loja Unida da Inglaterra, o autor volta a afirmar a relação de subordinação e aponta o site desta instituição inglesa (www.ugle.org.uk) para conferir que a estrutura organizacional da Grande Loja Unida da Inglaterra destaca a mencionada relação de subordinação. O GOB é ligado à Divisão Norte do Distrito da América do Sul, tendo como Grão-Mestre Distrital o maçom inglês, Colin Foster, marido da ex-presidente da Petrobras no governo Dilma Rousseff, Sra. Graça Foster.

A resenha aponta ainda o que considera falhas cometidas na obra, sendo a primeira delas relacionada ao Supremo Conselho do 33º Grau do Rito Escocês Antigo e Aceito – R.E.A.A., órgão que o autor descreve pormenorizadamente como sendo exatamente aquilo que a resenha aponta como tendo sido omitido, e não foi, qual seja, o fato de ser uma “instituição autônoma”, ligada às demais por “tratados de reconhecimento” (vide pág. 19). O fato do autor ter citado nesta mesma página 19 o Supremo Conselho do 33º Grau no singular, e não no plural, foi tão somente por uma questão de dar clareza ao que se desejava expor no início da obra, tanto é que, na própria página 95 mencionada na resenha, o autor afirma que o livro Moral e Dogma “passou a servir de orientação para outros Supremos Conselhos pelo mundo afora”. Na página 97, o autor volta ao tema citando a existência de 23 Supremos Conselhos Confederados à época em que Albert Pike era, então, considerado o Grande Comandante, Soberano Pontífice da Maçonaria Mundial. Além disso, o autor menciona na página 97 a existência de duas sedes do órgão nos Estados Unidos e, na página 99, o fato do “primeiro Supremo Conselho do Grau 33 fundado no Brasil” ter surgido apenas dez anos após a fundação do Grande Oriente do Brasil em 1822. Portanto, fica claro que o autor abordou exaustivamente o assunto “Supremo Conselho do 33º Grau” como deveria.

Quanto ao fato do autor considerar os Supremos Conselhos do 33º Grau do R.E.A.A. existentes pelo mundo afora como o mais importante órgão da Maçonaria é uma conclusão decorrente da forma como essa instituição se mostra bem mais estruturada do que as congêneres de outros ritos, tanto que esses órgãos “acolhem membros oriundos dos Graus Filosóficos (inferiores) de qualquer outro rito”. Ou seja, do ponto de vista organizacional, todos os demais ritos reconhecem a importância e a relevância dos ensinamentos transmitidos pelo Supremo Conselho do 33º Grau.

Da mesma forma, ou seja, reafirmando o que está escrito no livro, o autor destaca a existência de três correntes ideológicas abrigadas pela Maçonaria no Brasil. O fato da corrente progressista não ter estrutura comparável às demais não quer dizer que ela não esteja ativa. E isso nada tem a ver com Gustavo Barroso, pois o mesmo não exerce ou exerceu influência sobre o conteúdo da obra. O fato de Karl Marx ter, segundo a resenha, desdenhado da Maçonaria, o mesmo, posso acrescentar, aconteceu com Leon Trótsky, e é mais um, entre vários casos, de líderes políticos que se sentiram traídos pela Maçonaria e a ela lhe viraram as costas, tal como aconteceu com Getúlio Vargas e João Goulart no Brasil e com Simon Bolívar na Venezuela que confessou ao escritor maçônico Louis P. de la Croix ter sido iniciado numa Loja em Paris mas afastou-se ao verificar “ que era uma associação ridícula, formada por fanáticos, mentirosos e inocentes úteis, enganados”. O conteúdo político-ideológico, bem como o aspecto religioso, dessas três correntes está bem explicitado no livro. Cabe, por fim, registrar a existência de um grupo autodenominado “Maçons Progressistas do Brasil” – MPB, que pode confirmar (ou não) o que estou dizendo.

 

Resenha: “Entre Dois Amores”

Duas semanas atrás me deparei com uma postagem em uma página do facebook que mencionava um livro recém lançado que trataria da influência da Maçonaria na política brasileira contemporânea. Como se trata de um tema que me interessa sob vários aspectos – inclusive pelo fato de minha dissertação de Mestrado(em andamento) versar sobre a influência da Maçonaria nas relações internacionais (com foco na África Ocidental e Europa) tratei de adquirir para mim um exemplar. Foi assim que tomei contato com o livro ora resenhado, “Entre dois amores: como a Maçonaria vem transformando o Brasil e o mundo”, de autoria de Luiz Cláudio de Assis Pereira (Joinville: Manuscritos Editora, 2018. 182p).

Trata-se de um pequeno livro bem encadernado, com uma capa muito bonita e com uma proposta interessante. Mas, temo, acabam aí os elogios possíveis, e advirto que neste caso é especialmente verdadeiro o ditado de que não se deve julgar um livro pela capa.

O autor, segundo a orelha do livro, é Engenheiro Químico e tem se dedicado a estudar “profundamente” o tema, aplicando o que diz ser o “Ceticismo Metodológico” cartesiano à sua pesquisa, ou seja, “duvidar de todas as informações levantadas até que as mesmas se torne irredutivelmente evidentes”. Ele se propôs – assim o diz – a “juntar, analisar, conforntar e colocar em ordem todas as informaçõs levantadas e, a partir daí, construir um raciocínio lógico para um tema um tema que muitos consideram confuso”. Sigamos.

Já a bastante tempo eu cultivo um hábito antes de comprar um livro que verse sobre a Maçonaria: checar as referências bibliográficas, nos elementos pós-textuais. No caso de “Entre dois amores” salta aos olhos a quase inexistência de uma bibliografia consistente diretamente com o tema abordado, além de um número proporcionalmente alto de obras de qualidade duvidosa.

Nenhuma obra historiográfica maçônica recente é mencionada. Nem Tito Lívio Ferreira, em sua obra “A Maçonaria na Independência Brasileira” (1961), nem David Gueiros e seu “O Protestantismo a Maconaria e a Questao Religiosa no Brasil” (1983), nem os livros de Marco Morel, Alexandre Mansur Baratta, apenas para ficar em autores acadêmicos e não-maçons. Mas salta aos olhos, logo, a presença de várias obras de Gustavo Barroso, um historiador que encampou a teoria da conspiração judaico-maçônico-bolchevista.

O livro é dividido em 13 capítulos, que tratam basicamente de questões históricas e estruturais da Maçonaria global (Capítulos 1 a 7), da atuação histórica da Maçonaria no Brasil (Capítulos 8 a 12) e da atuação maçônica na política internacional contemporânea (Capítulo 13).

Há diversos erros, omissões, inconsistências e falácias ao longo do livro, de forma que seria impossível transcrever todos sem escrever um outro livro. Alguns erros decorrem claramente da falta de intimidade do autor com a temática – um erro compreensível e perdoável para qualquer um, exceto para quem se propõe a escrever um livro sobre o tema. Tratarei de alguns, entretanto:

1. O autor considera “Supremo Conselho do 33º Grau” como um órgão singular. Isto fica aparente no uso do singular ao tratar o tema, logo na primeira nota de rodapé e depois, na página 95, quando afirma que “o Supremo Conselho do 33º Grau do R.E.A.A” é “o” órgão mais importante da estrutura da Maçonaria mundial.

É uma ideia absolutamente errada. Cada Supremo Conselho é uma entidade absolutamente autônoma dos demais, aos quais se ligam por meio de tratados de reconhecimento. Existem dezenas, quiçá centenas de Supremos Conselhos ao redor do mundo – aqui no Braisl, por exemplo, existem dois, que são competidores.

Ainda que existisse UM Supremo Conselho, sendo os demais meras filiais, o autor não demonstra de que forma chegou à conclusão de que seria “o” mais importante, mormente quando se verifica que não existe relação de subordinação entre os Supremos Conselhos e as Grandes Lojas/Grandes Orientes ao redor do mundo.

2. O autor cita uma quantidade avassalora de pessoas como sendo maçons, mas falha em provar adequadamente esta filiação.

Ao longo do texto o autor vai atribuindo a condição maçônica a dezenas de pessoas: Roberto Marinho (p.31), Edir Macedo (p.32), Silas Malafaia (p.34), João Figueiredo e João Havelange (p. 88) e outros vários políticos das mais diversas matizes (p. 139).

O fio condutor desta afirmação é uma famosa lista apócrifa de “110 maçons famosos”, que contém, é verdade, vários maçons notórios, mas também dezenas de atribuições falsas.

Esta lista circula a bastante tempo, e foi (é) ainda reproduzida de forma acrítica por muitos sites maçônicos. Mas a realidade é menos sensacional. Ora, desde o século XIX já não se fazem mais iniciações secretas na Maçonaria. O pertencimento duradouro de um político a uma Loja nunca é um segredo duradouro, no máximo um segredo de polichinelo. Desta maneira, é lícito que se questione a pertença de alguém à Maçonaria com duas perguntas: Quando o sujeito foi feito Maçom? Em qual Loja?

Mas o autor não as faz. E não faz mesmo com personagens que ainda estão vivos, dos quais se encontraria alguma informação com relativamente pouca pesquisa. Assim, que outra fonte o autor tem para afirmar que Ciro Gomes é maçom? Ou Geraldo Alckmin? E, desta forma, atribui força probante a um documento apócrifo, o que acaba por macular a sua pretensão de demonstrar uma preponderância maçônica na política brasileira (que depende, decerto, de maçons ativos em posição de influenciar os rumos dos acontecimentos).

Claro, alguns são, e em alguns casos o autor consegue demonstrar a filiação de modo convincente ao leitor – caso, por exemplo, do deputado Sandro Mabel (p. 153). Em outras, entretanto, se limita a uma ilação – caso de Demóstenes Torres, ou nem isso, como no caso de Joesley Batista (todos na mesma página 153). Ele menciona, ainda, o José Roberto Arruda como maçom, mas não informa ao leitor que Arruda se demitiu da Maçonaria para evitar a expulsão num processo interno.

3. O autor claramente não entende algumas questões básicas de Maçonaria as quais deveria dominar antes de pretender escrever um livro.

Ele afirma, por exemplo, que o Grande Oriente do Brasil é subordinado à Grande Loja Unida da Inglaterra: não é, pura e simplesmente.

4. O autor informa ao leitor a existência de três correntes mundiais da Maçonaria. Ele sustenta no Capítulo 4 que três grandes correntes maçônicas existem hoje: Uma conservadora, oriunda da Inglaterra; Outra liberal, oriunda da França, e uma terceira “progressista”, que encarnaria os movimentos revolucionários marxistas e derivados.

Trata-se de uma balela que ecoa, muito provavelmente, a influência de Gustavo Barroso, que ecoa em todo o livro. Karl Marx desdenhava da Maçonaria. Não houve influência maçônica na revolução russa, e a organização foi perseguida em quase todos os países em que uma revolução socialista se operou.

Existem duas correntes, é verdade, a tradicional e a continental (ou liberal), mas elas não se distinguem por facções político-ideológica, mas pela interpretação dos padrões de regularidade maçônica.

5. O autor reproduz falsidades sobre Albert Pike.

Com uma linguagem pretensamente neutra o autor reproduz uma calúnia no seu livro calcado numa deturpação de uma citação de Albert Pike. Ele diz, supostamente citando “Morals & Dogma”:

“Em 1871 ele publicou seus estudos sobre todos os graus do Rito Escocês no livro intitulado ‘Moral e Dogma do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria’, que após diversas revisões passou a servir de orientação para os outros Supremos Conselhos pelo mundo afora. (…)

Várias passagens nesse livro mostram que Albert Pike, ao mesmo tempo em que fazia oposição ao satanismo tomando o conceito dos judeus cabalistas: ‘pois satã não é um deus negro, mas a negação de Deus. O diabo ´a personificação do ateísmo e da idolatria’ era também um ardoroso defensor de Lúcifer:

‘LÚCIFER, o portador da luz! Estranho e misterioso nome para se dar ao espírito das trevas. Lúcifer, o filho da manhã!, É ele quem ostenta a Luz…? Não duvide.’ (…)

É bom frisar que o fato de Albert Pike ter sido um ardoroso luciferiano não significa que todos os maçons sejam também defensores do luciferanismo, seja lá o que isso signifcia, pois até o 18º Grau esse tema fica fora dagrade curricular do iniciado”

Na seqüência, escorado na obra de Abel Clarín de La Rive, cita uma suposta carta de Albert Pike na qualidade de “Soberano Pontífice da Maçonaria Universal”.

O autor coloca Moral e Dogma na sua bibliografia, bem como de la Rive. São duas menções importantes pois demonstra que ou o autor usou deliberadamente da distorção de fonte original cumulada como uma fonte falsa OU foi negligente na sua pesquisa básica. NÃO HÁ MEIO TERMO.

Explico pontuando:

a) “Moral e Dogma” nunca foi utilizado como livro base de orientação por “todos os outros” Supremos Conselhos do Mundo, mas apenas pelo Supremo Conselho da Jurisdição Sul dos EUA, da qual Pike foi presidente.
b) Pike nunca foi “Soberano Pontífice da Maçonaria Mundial”, pois esse título não existe;
c) O autor omite precisamente a primeira frase do parágrafo que ele transcreve de Pike, a qual diz: “O Apocalipse é, para aquele que rexebe o décimo nono grau, a apoteose daquela sublime Fé que aspira somente a Deus e despreza todas as pompas e obras de de Lúcifer.” Uma omissão significativa, pois distorce completamente o sentido do texto original;
d) O livro de de la Rive citado, “La Femme et l’enfant dans la Franc-Maçonnerie“, de 1894, transcreve informações que foram passadas pelo falsário Leo Taxil, que enganou o mundo católico de 1885 a 1897 com informações inventadas sobre uma suposta maçonaria Luciferiana. Quando Taxil revelou sua fraude Rive publicou uma retratação.

Daí meu questionamento: Como é possível citar o parágrafo omitindo uma frase essencial para a compreensão do seu sentido? Como é possível pesquisar e encontrar Pike, de la Rive e não tomar conhecimento da fraude de Taxil?

Se a omissão da frase e do caso Taxil foram propositais, estamos diante de uma instância de desonestidade intelectual do autor. Se foram acidentais, por desconhecimento, estamos diante de uma instância de desleixo metodológico. A escolha é do leitor.

CONCLUSÃO: O livro foi uma grande decepção. O autor dispara uma quantidade gigantesca de dados, mas se revela incapaz de filtrar o que é lixo e o que é relevante. Do fato de algumas pessoas serem maçons não segue necessariamente que elas atuem “maçonicamente”. Tome-se, por exemplo, o caso de Jânio Quadros, último presidente da República COMPROVADAMENTE maçom antes de Michel Temer. Constado site do GOB que Jânio foi iniciado maçom em 1946, mas que se afastou logo após atingir o terceiro grau (o que não leva necessariamente muito tempo), somente retornando à Loja em 1985. É perfeitamente possível presumir que a influência maçônica foi mínima nos momentos históricos cruciais de que tomou parte.

A pesquisa sobre a influência maçônica na política é extremamente complicada pela impossibilidade de demonstrar relações causais com precisão, em parte por conta do véu de segredo, em parte pela razão de os fatos sociais terem causas múltiplas e complexas, de forma que nenhum dado, isoladamente, poderá ser interpretado como a causa.

As redes de mobilização maçônicas que se revelaram nestes últimos anos, com destaque para a rede virtual “Avança Brasil – Maçons.BR”, que teve destacado papel na mobilização virtual contra o governo de Dilma Rousseff bem merecem um estudo aprofundado. Este livro, entretanto, não me parece um ponto de partida relevante.

Maçons, eleições e discussões políticas

Polarização de redes políticas no Facebook. Extraído do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados in https://www.ibpad.com.br/blog/comunicacao-digital/analise-de-redes-para-compreender-a-polarizacao-politica-do-brasil-no-facebook/)

(trabalho apresentado na Loja Maçônica Fraternidade, Auxílio e Verdade nº 187, Grande Loja do Estado da Bahia, em 19 de setembro de 2018)

Amados Irmãos,

Estamos nos aproximando das eleições profanas nacionais, e eu me sinto na obrigação de oferecer uma breve preleção sobre uma das mais antigas proibições da Maçonaria: a proibição de discussões políticas entre seus membros.

Vamos ao contexto histórico. Esta proibição remonta, no mínimo, às Constituições de Anderson, de 1723. A Maçonaria especulativa surge na Inglaterra do início do século XVIII, um país que nos últimos cem anos foi sacudido por conflitos religiosos e uma guerra civil. Os ingleses sabiam na pele o que a intolerância e o fanatismo político e religioso eram capazes.

A Ordem trazia uma grande inovação. Ela trazia a semente do que hoje chamamos sociedade civil, conceito que só seria trabalhado filosoficamente décadas mais tarde com Adam Ferguson (1723-1816) e Georg Hegel (1770-1831). Ferguson afirmava que as sociedades polidas se caracterizavam por um senso de humanidade mais refinado, com apreço pela sabedoria e justiça e com repulsa pela violência descontrolada. Hegel definia a sociedade civil como um espaço de convivência diferente da família, do Estado e das religiões, onde os homens se ligavam de modo voluntário.

Nesta grande inovação a Maçonaria rompeu com o princípio “cuius regio eius religio”, que tornava obrigatório que o súdito seguisse a religião do Rei e fazia com que os não-conformistas fossem tratados como cidadãos de segunda classe. Este princípio vigia em toda a Europa, mesmo nos países protestantes, como a Inglaterra. As Constituições de Anderson – como, posteriormente, a de Dermott – diziam que o Maçom deveria crer em Deus – mas não poderia fazer proselitismo em Loja; Deveria ser um súdito fiel e pacífico do Estado, mas ao mesmo tempo proibia a expulsão de um irmão apenas pelo crime de Rebelião.

Este fato permitiu que às reuniões maçônicas pudessem atender homens de todas as religiões e de todos os partidos políticos. Fez, por exemplo, com que católicos e jacobitas pudessem conviver em Loja com anglicanos e hanoverianos. A condição necessária, entretanto, era a de que eles se abstivessem de debater justamente estes dois pontos, justamente os pontos que mais promoviam a discórdia.

A ideia por trás desta proibição está no fato de que nas discussões político-partidárias ou religioso-sectárias frequentemente os ânimos se exaltam, a temperança e a prudência caem pelo ralo e o amor fraterno – cimento que “une homens de todos os países, religiões e opiniões e fomenta uma verdadeira amizade entre aqueles que, de outro modo, poderiam permanecer eternamente distantes uns dos outros”  – é posto em risco.

Quando tal princípio não foi observado a Maçonaria se tornou um braço de partidos políticos, instrumentalizada para seus fins, e se tornou ora vítima, ora algoz, sempre que os ventos políticos sopravam numa ou noutra direção.

Tenho assistido com muito desgosto os “debates” políticos atuais. Mas me limito a alguns poucos comentários, a maior parte deles jocosos, na minha própria página pessoal ou, mais raramente, na de amigos íntimos com quem tenho recíproca liberdade. Mas vejo irmãos se lançando com paixão uns contra os outros por conta de suas opções políticas, utilizando adjetivos de baixo calão, chavões, slogans, flood. Vejo parentes se ofendendo mutuamente. Vi uma filha bloquear ostensivamente a mãe numa rede social!

Já disse em uma ocasião, aqui nesta Loja, que devemos nos esforçar para construir pontes, não muros. Como maçons, devemos lembrar das palavras de Thomas Smith Webb, e usar nossa condição para “amortecer as disputas que amarguram a vida e azedam o temperamento humano, zelando-se assim pelo bem comum, principal objetivo da Ordem”. Por mais que gostemos do nosso candidato – e desgostemos do outro, não devemos nos misturar à ralé que luta pelos políticos como quem luta por suas famílias. Não devemos nos isolar nas bolhas políticas que se formaram, abertos apenas às ideias e opiniões com as quais já concordamos.

Não, irmãos! Existe uma hierarquia de valores neste mundo. Nossos deveres com Deus, nossas famílias e nossos irmãos, revelados pelas virtudes cardeais (prudência – fortaleza – temperança – justiça) e teologais (fé – esperança – caridade) com que devemos trabalhar, vêm em primeiro lugar. Devemos, pelo exemplo pessoal, persuadir os exaltados, os zelosos, os extremistas (ou, como se dizia naquele tempo, os entusiasmados), a manterem o padrão e o decoro, evitando tentar impor, pela linguagem intemperada e comportamento bruto, suas visões sobre os outros.

Devemos ser corteses, e esta cortesia implica em aceitarmos que não precisamos ir ao embate com qualquer pessoa que, em nossa opinião pessoal, esteja errada. O filósofo Conde de Shaftesbury, uma inspiração mais ou menos perceptível na filosofia subjacente à Maçonaria britânica no século XVIII escreve em sua obra “Characteristicks of men, manners, opinions, times.” (1709), p. 42, sobre a importância da polidez no trato social: “Toda cortesia é credora da liberdade. Polimo-nos uns aos outros e desbastamos nossas arestas e lados brutos por um tipo de ‘colisão amigável’. Impor isso [nossos valores e visão de mundo] equivale, inevitavelmente, a enferrujar o entendimento entre os homens. É a destruição da civilidade, da boa educação e da caridade mesma, sob o pretexto de protege-la.”.

Na mesma obra, à p. 426, ele recapitula que o “homem sábio e apto, que se interesse por tais coisas [beleza, conhecimento, razão, Bem], tendo perante si os modelos corretos, se aplicará em cultivar um tipo de solo diferente, construir com matérias diferentes da pedra e do mármore, ou seja, se tornará Arquiteto da própria vida e sorte, depositando em si as fundações duradouras da Ordem, Paz e Concórdia”.

A prudência e a temperança, duas virtudes cardeais trabalhadas em alguns Ritos Maçônicos logo no Primeiro Grau, nos oferecem um modelo para atuação. Evitemos, pois, a linguagem imoderada, o comportamento imprudente. Como diz Webb em sua exortação ao Terceiro Grau, “deveis (…) pela regularidade de vosso próprio comportamento, dar o melhor exemplo dela para os menos esclarecidos”. Sejam, pois, faróis em suas famílias, nos seus trabalhos, nas suas classes.

Aproveito aqui dois tópicos trabalhados pelo psicólogo Jordan Peterson em recente livro: Sejam bons ouvintes. Presuma que a pessoa com quem você está conversando sabe de algo que você não sabe. Perguntem mais do que afirmem. Quando precisarem afirmar, o façam de forma precisa e direta, sem desperdiçar energia com adjetivos ofensivos e inúteis.

Não se empolguem, pois, com a política, pois é um simples desperdício de tempo – a menos que esta seja sua profissão – pois nem tudo é política, em especial aquelas três coisas no topo da hierarquia das prioridades. A política é o espaço do embate, da retórica e da erística – ou seja, da pura persuasão per fas et nefas – e não da contemplação e da busca pela beleza, conhecimento, razão do Bem e da Verdade.

Não estou dizendo que não devamos ter opiniões políticas, fortes e contundentes. Apenas alerto que existem locais, modos e momentos convenientes para expressá-las. E os espaços de Loja, definitivamente, não o são, como não são a mesa de jantar, o grupo de cursilhos e os correspondentes grupos de Whatsapp.

Na pior das hipóteses, caso se veja preso a um desses tipos insuportáveis e bitolados, não desça ao nível da imbecilidade do seu interlocutor. Sem um interlocutor honesto e disposto a aprender não há diálogo possível, senão, talvez, conforme o “Diálogo ultrarrápido”, de Mário Quintana (in Poesia completa. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 2006):

            “- Queria propor-lhe uma troca de ideias…

             – Deus me livre!”

Era o que eu tinha para dizer hoje, irmãos. Boa noite.

RORAIMA: Um chamado à ação maçônica

“Não oprimirás o estrangeiro: conheceis bem a vida de estrangeiro, porque fostes forasteiros no Egito.” Êxodo 23:9

Assisti ontem, estarrecido, a vídeos dos conflitos ocorridos ontem na cidade de Pacaraima, RR, em que uma turba de brasileiros, inflamada ao que parece por um latrocínio praticado por bandidos venezuelanos, ataca e expulsa refugiados daquele país (incluindo mulheres e crianças), queimando suas barracas e colchões entoando o hino nacional: “mas se ergue da justiça a clava foooorte“….

Como é sabido, o governo socialista da Venezuela levou o país ao colapso econômico, político e social. Violência urbana e política, hiperinflação, estagnação econômica, tudo contribuiu para que um grande fluxo de refugiados (apesar de o status jurídico destes migrantes ainda ser objeto de debate acadêmico eu opto por esta classificação, por ora) viesse a se instalar em países vizinhos, entre eles, o Brasil.

Roraima é o estado limítrofe com a Venezuela, e é também um dos, senão o, mais pobre estado do Brasil. Um estado que não estava preparado para acolher este volume de pessoas, que precisam de abrigo, alimentação, apoio jurídico e trabalho. Assim como Roma não caiu em um dia, os refugiados não apareceram da noite para o dia. O fluxo tem sido contínuo já a alguns anos.

Impossibilitados de seguir adiante estes refugiados acabam acumulados em Roraima, o que levou os serviços públicos locais ao colapso. Isto os tornou alvos fáceis de incitadores e populistas que os apontam como causadores das agruras vivenciadas por todos. Foi o que vimos neste fim de semana.

A gestão da crise pelo governo estadual e federal tem sido pífia, para dizer o mínimo. Na prática, é possível falar que os governos se limitam a reagir aos problemas, e apenas quando eles se tornam insuportáveis.

Em setembro de 2017 eu apresentei um trabalho na UnB sobre a Maçonaria e as Relações Internacionais. Respondendo a uma pergunta do público, disse que Roraima era um caso exemplar de como a Maçonaria brasileira, que gosta de lembrar glórias (reais ou putativas) do passado estava deixando passar um chamado de ação no presente. O caso de Roraima depende de muito mais que o mero fornecimento de alimentos para as vítimas. Disse, na ocasião, que a Maçonaria deveria montar um plano de ação inter-Obediência (conglobando GOB, COMAB e CMSB e organizações paramaçônicas) para se aproveitar da capilaridade da Maçonaria no Brasil para:

1. Organizar, sem esperar o governo, um plano de acolhimento local para refugiados;
2. Difundir nas comunidades o imperativo moral de acolher, respeitar e ajudar os refugiados;
3. Tomar a iniciativa de chamar outros órgãos da sociedade civil para colaborar;
4. Colaborar na des-Roraimação do acolhimento dos refugiados, “adotando” famílias de refugiados nas diversas cidades do Brasil;
5. A partir daí, EXIGIR publicamente a responsabilidade do Estado.

Não considero um plano inexeqüível. Ele tem aspectos materiais e ideológicos. Obviamente seu escopo é limitado – não visa “resolver” o problema dos refugiados como um todo, mas ajudar algumas pessoas e mobilizar a sociedade (e o governo) neste sentido. Creio firmemente que existem algumas centenas de Lojas no Brasil que têm em seus quadros gente capacitada para conseguir um emprego de salário mínimo, ajudar na regularização jurídica, matricular crianças em escolas públicas, conseguir tratamento médico-dentário….

Rejeitei a objeção de que temos nossos próprios problemas. Sustentei que a filosofia maçônica é cosmopolita. Que o dever de solidariedade não encontra restrição “nem de fronteiras nem de raças”. E que a situação dos refugiados é especial e pior do que a dos “nossos” pobres, que já contam com uma rede estruturada (bem ou mal) de acolhimento. Eles estão em um país estranho, sem falar a língua, fugindo de um regime em colapso.

Rejeitei, também, a alegação de que “a obrigação é do governo”. A obrigação moral é de todos. E se a Maçonaria sonha ainda em ter alguma posição de relevo social, sustentei, tem que parar de ir a reboque do governo e “das massas que não sabem se governar”. Non dvcor, dvco.

Sustentei, a quem tentou comparar a situação de Roraima com a migração islâmica na europa, que era uma comparação descabida: Os venezuelanos descendem, como nós, de ibéricos. Inclusive soldados brasileiros – vide o general (maçom) Abreu e Lima – ajudaram na independência Venezuelana. Temos laços históricos e culturais comuns.

Sei que a Maçonaria Roraimense lançou uma campanha em março deste ano. Desconheço, entretanto, o seu desenvolvimento atual, pois não há informações nos sites da Grande Loja e do Grande Oriente locais. Mas vi, também ontem, maçons aplaudindo e justificando (não se limitando a explicar as concausas, mas efetivamente dizendo que a turba estava correta) o que aconteceu, ignorando uma bem (ou mal, pelo visto) conhecida advertência:

“Mostrou-me também assim: e eis que o Senhor estava sobre um muro, levantado a prumo; e tinha um prumo na sua mão. E o Senhor me disse: Que vês tu, Amós? E eu disse: Um prumo. Então disse o Senhor: Eis que eu porei o prumo no meio do meu povo Israel; nunca mais passarei por ele” (Amós 7:7-8)

O chamado à boa ação está feito. Fora isso os maçons devem escolher se vão deixar o bonde da história passar ou se, pior, vão embarcar no bonde errado.

A política da gênero da Grande Loja Unida da Inglaterra: Notas iniciais

Ontem, 01 de agosto de 2018, a Grande Loja Unida da Inglaterra (GLUI) emitiu uma orientação geral de sua nova política sobre transição de gênero, consignando que homens trans (isto é, pessoas biologicamente do sexo feminino que façam a transição civil para o gênero masculino) passarão a poder ser iniciadas nas Lojas sob a jurisdição da GLUI, ao passo que maçons que façam sua transição de gênero para o feminino não perderão por esta razão sua condição maçônica.

Os sete pontos da política constituem-se nos seguintes:

1. Esta política não impõe uma regra cogente, mas um guia geral para orientar as Lojas no processo decisório, já que à medida em que as questões de gênero se tornam cada vez mais prevalentes na sociedade devem ser abordadas de acordo com os princípios maçônicos da legalidade, bondade e tolerância;

2. Qualquer situação que envolva transição de gênero de um maçom deve ser tratada com a máxima compaixão e sensibilidade visando o apoio ao indivíduo, que deve receber o máximo de apoio de seus irmãos; Sua privacidade deve ser respeitada e não haverá nenhuma obrigação de informar tal fato à Secretaria;

3. Apenas homens podem ser admitidos maçons sob a jurisdição da GLUI. Uma pessoa que passe pela transição de gênero para o masculino pode peticionar sua admissão do mesmo modo que qualquer outro. Nenhum candidato deve ser submetido a questionamentos constrangedores sobre sua identidade de gênero;

4. Um maçom que após sua iniciação faça a transição de gênero não deixa de ser maçom e não deve ser intimidado, hostilizado, degradado ou ofendido; Quem o fizer estará praticando conduta antimaçônica e ilegal;

5. Um maçom que transicione para o gênero feminino não precisa se demitir da Ordem; Demissionários e seus dependentes perderão direito aos benefícios assistenciais maçônicos.

6. Uma Loja pode excluir qualquer membro por justa causa (sufficient cause); NÃO constitui justa causa, e pode significar discriminação ilícita: a) O fato de um membro se tornar legalmente uma mulher; b) A crença equivocada de que um membro se tornou mulher; c) O fato de um membro estar em processo de transição de gênero; d) a crença equivocada de que um membro esteja em processo de transição de gênero. Da mesma forma uma Loja não pode “persuadir” um membro a se demitir por estas razões e nem discriminá-lo. Uma Loja não pode, a qualquer tempo, exigir de um membro que prove ser legalmente homem.

7. A lei e os costumes neste campo estão em processo de mudança rápida. Esta política, portanto, pode ser alterada a qualquer tempo.

COMENTO:

Até onde se sabe a GLUI ainda não tem nenhum membro transgênero. a emissão desta política foi preemptiva, baseada na percepção de que os costumes e as leis estão mudando e a Maçonaria tem que responder de alguma forma a estas mudanças – ou perecer.

No caso da Inglaterra as leis antidiscriminação de gênero (Gender Recognition Act de 2004 e Equality Act de 2010) garantem a qualquer cidadão britânico o direito à identidade de gênero. Não é o caso aqui, agora, de discutir as ideias filosóficas subjacentes a esta corrente, e nem de dizer que a GLUI virou pós-moderna, comunista, conspirante da “””””””ideologia de gênero”””””””””, mas apenas reconhecer este é um dado da realidade social na qual a GLUI está inserida.

Historicamente a primazia masculina nas Lojas Regulares não está presente nas Old Charges. Segundo Alec Mellor, as primeiras regras neste sentido surgem na Constituição de Anderson e nos Deveres Prescritos aos Maçons Livres” publicado na França em 1735. A exclusão das mulheres surge no contexto da visão da Loja como club.

Eis como a regra era transcrita em um e outro:

Constituições de Anderson: “The Persons admitted Members of a Lodge must be good and true Men, free-born, and of mature anddiscreet Age, no Bondmen, no Women, no immoral or scandalous Men, but of good Report

“Deveres Prescritos”: “Aqueles que são admitidos como membros de uma Loja devem estar imbuídos de uma grande fidelidade, devem ser livres e de idade adulta. Um escravo ou um homem de costumes escandalosos e reprováveis não podem ser admitidos à Fraternidade: as mulheres também são excluídas, mas apenas por causa dos efeitos que seu mérito produz muito frequentemente sobre os melhores irmãos” (MELLOR,  1989, p. 105)

Mas desde o século XVIII esta questão existe. Por exemplo, Laurence Dermott, no seu Ahiman Rezon – a Constituição dos Maçons Antigos, oposta aos modernos de Anderson (1756) vai além:

“The men made Masons must be free born (or no bondmen), of mature age, and of good report; hale and sound, not deformed or dismembered at the time of their making ; but no woman, no eunuch.”

Na edição de 1778 Dermott chega a ironizar a Grande Loja de Londres por ter feito a iniciação do Cavaleiro D’Éon, um nobre diplomata inglês famoso, dentre outras coisas, por se vestir apenas como mulher, e de Tenducci, um tenor castrati italiano.

A participação de mulheres no mundo maçônico, via de regra, se resumia a organizações iniciáticas paralelas.

No século XVIII surgiram na França as chamadas Lojas de Adoção, de caráter paramaçônico.

No século XIX surgiram nos EUA ordens como a Estrela do Oriente. Na França, surgiu a primeira organização maçônica mista, a Droit Humain.

No século XX houve uma expansão de ordens maçônicas quer mistas quer exclusivamente femininas, com forte participação de seus membros nos primórdios do feminismo de primeira geração.

Em 1929, com o desenvolvimento das discussões sobre reconhecimento e regularidade, a GLUI adotou o que seriam os 9 Basic Principles, do qual o nº 4 seria o exclusivismo masculino no quadro de membros e proibição de contatos com organizações mistas ou femininas. É interessante notar, entretanto, que nos últimos tempos a postura pública da GLUI seja a de reconhecer duas organizações maçônicas inglesas exclusivamente femininas – a Order of Women Fremasons (fundada e 1908) e a Fraternity of Ancient Freemasons (fundada em 1913) – como alternativas válidas para a iniciação feminina, mantendo relações públicas amistosas com ambas as organizações, inclusive cedendo seus espaços para reuniões.

A política anunciada traz um grande potencial de mudança na interpretação dos Landmarks. Por exemplo, a interpretação da noção de “livre” era usada por Grandes Lojas do Sul dos Estados Unidos para recusar a iniciação de negros por boa parte do século XIX e XX; O landmark também proibia a iniciação de portadores de necessidades especiais: temos hoje, em todo o mundo, paraplégicos, hemiplégicos, cegos, portadores de doenças neurodegenerativas na Ordem Maçônica. Tenho notícias de ao menos um portador de síndrome de down na Ordem DeMolay. Homossexuais assumidos também fazem parte da Ordem. Não estaria aí provada a viabilidade de reinterpretação de landmarks (que não são dogmas)?

A política adotada torna anacrônica a vedação de entrada de mulheres (cis ou trans) na Maçonaria. Com efeito, o Grande Oriente da França (considerado irregular pela GLUI desde 1872 por retirar as menções ao Grande Arquiteto do Universo de seus trabalhos) se tornou uma potência mista em 2010 depois que um de seus membros, maçom desde 1990, passou pela transição de gênero (Olivia Chaumont, nascida Olivier).

Até então, dentre as organizações maçônicas consideradas regulares mainstream o único precedente de norma relativa à questão trans tinha vindo da Grande Loja da Virgínia (EUA), que em 2014 baixou um edito que vinculava o sexo e a identidade de gênero como conditio sine qua non para a manutenção da condição de maçom. Cito:

Freemasonry traditionally being a Fraternity of good men, no person shall become or remain a Mason who does not continue to remain both physically and legally a male or who does not continue to present and conduct himself as such.

O dado da realidade, assim, é que a GLUI vai passar a iniciar – se houverem candidatos – pessoas que são biologicamente mulheres e socialmente homens, bem como manterá em seus quadros pessoas que passem a ser socialmente mulheres. Vai ser interessante acompanhar a reação daqueles maçons que consideram a GLUI o farol da Regularidade (quer buscando ativamente seu reconhecimento ou, já o possuindo, brandindo como uma espécie de ISO 9000) e adotavam até anteontem a política “Londinium locuta, causa finita est“. Recusarão a hipotética visita (e, por extensão, os direitos maçônicos) de um/uma maçom/maçona regular da GLUI? A pergunta não é retórica e nem provocativa, é uma dúvida sincera.

Em 2016 publiquei aqui um texto em que eu tratava do abismo geracional na Maçonaria brasileira. Pois bem, a questão de gênero é um dos pontos deste abismo. É bom que a Maçonaria brasileira comece a discuti-lo com seriedade, sem ativar o modo tiozão do zapzap, e lembrando das palavras de Bob Dylan:

If your time to you
Is worth savin’
Then you better start swimmin’
Or you’ll sink like a stone
For the times they are a-changin’.

 

PARA ENTENDER MAIS

MELLOR, Alec. Os grandes problemas da atual franco-maçonaria. São Paulo: Pensamento, 1989

SNOEK, Jan; “Freemasonry and women”, in SNOEK, Jan; BOGDAN, Henrik (eds). Handbook of Freemasonry. Leiden: Brill, 2014

SNOEK, Jan. Initiating Women in Freemasonry: The adoption rite. Leiden: Brill, 2012

ÖNNERFORS, Andreas. Freemasonry, a very short introduction. Oxford: Oxford Univerity Press, 2017

PILCHER-DAYTON, Ann Jessica. Women Freemasons and Feminist Causes 1908-1935: the case of the Honourable Fraternity of Antient Masonry. (Tese de Doutorado, Universidade de Sheffield, 2011)

Journal for Research into Freemasonry and Fraternalism. Vol. 4. No 1 – 2 (2013) : Women and Freemasonry

DACHEZ, Roger. Masonic Regularity and Recognition: a Global Issue. Washington D.C.: Westphalia Press, 2016

MAHMUD, Lilith. The Brotherhood of Freemason Sisters: Gender, secrecy and fraternity in italian masonic lodges. Chicago: The University of Chicago Press, 2014

Estátua de Albert Pike no centro de controvérsia nos EUA.

As feridas da Guerra Civil Americana (ou Guerra de Secessão) ainda sangram nos Estados Unidos. Desde o massacre de Charleston (2015), onde um supremacista branco abriu fogo contra fieis de uma igreja, matando nove pessoas, avolumaram-se as críticas contra os símbolos dos Estados Confederados da América que resistem nos estados sulistas que o compunham.

O anúncio da retirada de uma estátua equestre do General Confederado Robert Lee (1807-1870) na cidade de Charlottesville (Virgínia) causou nos dias 11 e 12 últimos uma manifestação de protesto da extrema-direita que acabou confrontada diretamente por uma manifestação da extrema-esquerda, numa espiral de violência que resultou em um morto e quase quarenta feridos.

O episódio acendeu um rastilho de manifestações, depredações e retiradas de estátuas de líderes confederados por todo o Sul dos EUA. E neste contexto a estátua de Albert Pike (1809-1891) se tornou o alvo mais recente de protesto, vandalismo e do oportunismo de políticos locais

Albert Pike é conhecido pelos maçons como sendo o autor de diversas obras sobre simbolismo e filosofia maçônica, tendo sido Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Rito Escocês da Jurisdição Sul dos EUA por mais de trinta anos. Também é objeto de lendas e mitos, como o de ser satanista e fundador da Ku Klux Klan.

Pike serviu no exército americano durante a Guerra Mexicano-Americana (1846-1848) no posto de Capitão, servindo posteriormente ao exército da Confederação durante a guerra civil, com o posto de General de Brigada, comandando uma unidade de índios (Pike morara bastante tempo com os índios Cherokee). Durante a Batalha de Pea Ridge (março de 1862) índios de sua unidade mataram e escalpelaram soldados da União capturados. Acusado de incompetência e malversação (acusações depois levantadas por falta de provas), Pike renunciou ao posto no Exército Confederado, retornando para o Estado do Arkansas depois de um breve período de prisão.

A estátua em questão foi mandada construir em Washington D.C. pelo Supremo Conselho do Rito Escocês após sua morte para lembrar seus feitos como maçom, tendo recebido autorização do Congresso dos EUA para tal. Ocorre que, tendo sido também General do exército confederado, Pike permanece sendo o único oficial confederado a ter uma estátua sua no Distrito de Columbia. Não possui nenhum símbolo militar ou da Confederação; a Estátua mostra apenas Pike Segurando um exemplar de sua obra prima Moral & Dogma e um estandarte com um símbolo do Supremo Conselho.

Protestos contra ela não são exatamente novos. No início dos anos 90 militantes de extrema direita liderados pelo professor e teórico da conspiração Lyndon LaRouche exigiram a retirada da estátua, acusando-o de satanista.

A acusação de satanismo tem origem no chamado Affaire Taxil (1890), quando um pornógrafo francês chamado Leo Taxil, fingindo-se convertido, inventou e distorceu uma série de textos de Pike, convencendo o clero católico de que Pike seria uma espécie de Papa mundial da Maçonaria e que tinha contatos com Satanás em pessoa (não é exagero, isso foi afirmado MESMO). Posteriormente a fraude foi revelada pelo próprio Taxil, mas requentada décadas depois (com a exclusão da referência à fonte) por fundamentalistas protestantes antimaçônicos.

Já a acusação de Pike ter sido membro da KKK não encontou qualquer respaldo probatório até hoje. Segundo Christopher Hodapp, citando um artigo de Gary Scott, a Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou a Ku Klux Klan na década de 1870 escreveu um relatório 13 volumes sem que o nome de Pike fosse citado uma única vez relacionado a qualquer atividade da KKK.

Pike era racista e defendia a segregação racial, e no período que antecedeu a guerra civil aceitava a escravidão como instituição social. Mas, como bem lembra Arturo de Hoyos, o principal especialista em Albert Pike na atualidade, Pike era um homem de seu tempo: Praticamente todos eram racistas e segregacionistas naquele tempo, incluindo aí muitos dos abolicionistas.

Políticos locais, como o conselheiro David Grosso, se apressaram em declarar que a estátua de Pike como um símbolo de ódio e opressão.

De todo modo, se antecipando ao oportunismo à direita e à esquerda que podem querer usar a estátua como plataforma de seus projetos de reescrita da história, De Hoyos já antecipou a um jornal local que o Supremo Conselho aceitará qualquer decisão da administração distrital sobre a estátua. “Certamente não queremos que um monumento erigido  em realidade para honrar a Fraternidade sirva de ponto divisivo na comunidade em matéria racial”.

Aguardemos cenas do próximo capítulo.

Montagem de autoria de Arturo de Hoyos

Maçonaria na Literatura: “Maçonaria”, conto de Jorge Medauar

” Diziam que lá dentro havia uma mesa grande, coberta de pano preto, com um caixão de defunto em cima. Espadas cruzadas nas paredes, caveiras. As cortinas das portas e janelas eram roxas. Também havia um bode solto, de cavanhaque pontudo, que rondava pela casa: era o diabo disfarçado de bode. De noite, corujas ficavam empoleiradas pelos vãos do telhado. Pelo lado de dentro, os morcegos voavam cegos, para chupar o sangue do morto estendido em cima da mesa. Uma casa misteriosa, mal-assombrada. Só entravam ali homens que tinham costeletas compridas, sobrancelhas grossas, olhos brilhantes. Corcundas, velhos de capote preto. Os meninos passavam longe, tinham medo de se aproximar até mesmo do muro.

Do lado de fora eram vistas as manchas das paredes, os rombos no reboco. Por cima dos muros caminhavam trepadeiras bravas, plantas com espinhos. Havia até, para o fundo do quintal, uma cacimba abandonada, com matos fechando a boca. O mamoeiro-macho nunca dera fruto. No tempo de laranja, fazia gosto ver as laranjeiras carregadas, as laranjas maduras cobrindo os ramos. Mas quem tinha coragem de colher uma? As pessoas que moravam por perto afirmavam que nunca viram nenhum passarinho bicando uma fruta daquele quintal. A casa era mesmo de fantasmas.

Em noites fechadas, de sem lua, ouviam gemidos vindos de dentro, subindo da cacimba. Os gatos arrepiavam os pêlos, disparavam na carreira. Cachorro gania, latia para o vento, arreganhava a dentuça, como se estivesse vendo visagem. Diz que no fundo da cacimba afogaram um homem. E que de noite sua alma subia, rondava por dentro do muro, querendo sair. O cadeado da corrente do portão vivia fechado. Só em noites de reunião é que abriam as portas, acendiam as velas socadas nos castiçais. Os homens vestiam capas, arrodeavam a mesa com o caixão de defunto, falavam baixo.

Um dia, os meninos resolveram pular o muro, arrombar a porta do fundo, entrar pela casa adentro. Era preciso muita coragem. Antes de entrar, amarraram apostas para ver quem ia na frente. Com pouco, todo mundo se sentiu corajoso. Todo mundo quis ir. O trabalho maior era escolher as pessoas. Edson era o chefe. Debaixo de suas ordens, os meninos faziam tudo.

Quando Lourdes quis entrar no grupo, Edson afastou-a:

Menina não entra em negócio de homem não.

Mas eu vou, nem que você queira nem que você não queira. A Maçonaria não é sua. É mais minha do que sua. Meu pai era de lá.

Depois que informara, Lourdes passou a ser vista com mais respeito. Queriam que ela perguntasse ao pai como era, como não era. Se tinha mesmo diabo disfarçado em bode, que palavras mágicas precisariam dizer para espantar os mistérios.

Lourdes inchava, se metia no meio dos meninos. Cada vez que vinha, para discutir planos, trazia uma nova informação: o pai dissera que era preciso repetir três palavras na hora de entrar. Para afastar o bode, era preciso tirar da parede uma espada, riscar o chão, esconjurar o pai de chiqueiro. O bode daria uns pinotes, bufaria, fungaria pelo chão até desaparecer. Na hora de desaparecer e virar diabo, estourava uma nuvem de enxofre, envolvendo o demônio, para que ninguém o pudesse ver

Os meninos arregalavam os olhos, ficavam ouvindo as palavras de Lourdes.

Tu falou mesmo com seu pai? – perguntavam.

Falei, sim. Ele me disse mais: que tem um porão por debaixo do soalho. Lá no fundo tá cheio de caveira, queixada de burro, sapo-boi, cobra venenosa.

Enquanto Lourdes ia trazendo informações, os meninos iam adiando o assalto. Edson às vezes duvidava, dizia que negócio com menina no meio não dava certo. E, se uma alma pegasse Lourdes pela saia? Homem não tinha saia, era mais fácil pular muro, sair correndo desembaraçado na hora da precisão. Uma vez – contou – sua irmã foi com ele para um assalto nas goiabeiras do lado de lá do rio. O homem das goiabas viu de longe os meninos empoleirados nos galhos, colhendo feito macaco. Panhou sua espingarda, encheu até à boca de sal, andou por detrás dos matos. Quando chegou bem de junto, cascou fogo. Todo mundo desceu com a bunda ardendo, danou-se na carreira desembestada pelo meio dos carrapichos, dos espinhos, dos galhos de ponta. No meio da carreira, a irmã ficara embaraçada no arame da cerca, pedindo pelo amor de Deus que a acudissem. O homem da goiabeira apanhou-a. E foi assim que ficou sabendo quem era o cabeça da traquinagem. O banzé, na hora que chegara em casa, foi maior do que o fim do mundo. Por isso não queria nenhuma menina no meio, no dia que fosse à Maçonaria.

Cada um já tinha sua arma: Zebinho arranjara um facão Jacaré, novinho em folha, tirado da loja do pai. O filho do gringo tinha um canivete Corneta, dos grandes, de duas folhas. Miguel tinha um bodoque construído com elástico de roda de automóvel. Edson, que era o chefe, tinha um punhal de ponta, com lâmina de palmo e meio. E Lourdes? – Cadê sua arma? – perguntava Edson.

Lourdes abaixava a cabeça, se sentia reduzida. Mas depois criava coragem, enfrentava os meninos. Dizia:

Apois vou na frente, abrindo caminho, sem arma na mão. Não tenho medo de coisa nenhuma: vocês todos têm. Ninguém aí é mais homem do que eu não, ouviu?

Aí os meninos caíam na pagodeira. Quá, quá, quá. Oxente! Era só o que faltava, uma menina querer ser mais homem do que eles! Ai, meu Deus! Se pudessem, iam mostrar uma coisa a Lourdes. Não mostravam porque não podiam. Tome – empinavam a banana.

Vá pra sua casa, menina. Não seja tola – pedia o chefe.

Edson outra vez tomava as rédeas do grupo, conduzia os meninos para onde bem quisesse. Mas Lourdes voltava de novo. Sabia onde se reuniam, por mais que vivessem trocando de lugar. Chegava, entrava no meio do grupo, ia dizendo coisas que seu pai contara. Os meninos arregalavam os olhos, ouviam em silêncio

Um dia, Edson decidiu reunir o pessoal no outro lado do rio. Combinaram tudo, chegaram na hora marcada. Lourdes nunca que haveria de descobrir o ponto. Ali poderiam discutir o plano todo, organizar os que iriam na frente, abrindo caminho, e os que iriam atrás, fazendo a cobertura. Alguém teria que ficar no muro, vigiando de cima. Um na porta da frente, um de junto da cacimba, os outros por dentro, vasculhando a casa.

Estavam assim, por debaixo do cacaueiro, quando ouviram barulho de passos pelas folhas do chão. Edson arrepiou os cabelos, os outros ficaram de orelha em pé. Zebinho fez “psiu“, com o dedo na boca. Escutaram o silêncio, os ouvidos apurados, esperando. Os passos aquietaram nas folhas secas. Que seria, que não seria?

Só se for a doida da Lourdes – disse Miguel em voz baixa, já com seu bodoque preparado para o que desse e viesse.

Com pouco mais, perceberam que os passos continuavam. Agora se aproximavam. Todos prepararam as armas.

Zebinho foi o primeiro a gaguejar. Depois, o próprio Edson quis falar, a palavra embolou, não saiu: ninguém ficou sabendo a ordem que queria dar.

Quando os passos se aproximaram ainda mais, ouviram um fungar forte: um bode foi entrando por onde estavam, seguindo seu caminho pelo meio do cacaueiro. No que viram o bicho, danaram-se – cada um para um lado, pulando por dentro do rio.

Depois que o bode passou, um olhou para a cara do outro, pouco a pouco foram se agrupando de novo.

Estavam novamente no esconderijo, quando viram Lourdes: vinha chegando pelo mesmo caminho que trouxera o bode.

Que foi, minha gente? – perguntou.

A gente viu um bode preto, de cavanhaque pontudo, no meio do cacaueiro – informou Edson. – Ficamos espiando de longe, vigiando e, na mesma hora, ninguém mais viu o bicho: sumiu feito fumaça.

Lourdes contou que uma vez seu pai dissera que o bode da Maçonaria costumava sair: era o Cão que vagava pelo mundo, atentando os outros. Se metia mesmo pelo meio do mato. Preferia o cacaueiro. Num lugar qualquer, que só ele sabia, arriava a pele no chão e corria o mundo com corpo de gente. Era encantado para o mal. Quando encontrava um tabaréu de alma fraca, parava, assuntava, conversava, pedia um pau de fósforo para acender o cigarro. Na hora que o homem dava o fósforo, o Cão desencantava, virava demônio mesmo e vupte! – fisgava o homem com o garfo de pontas. Um horror.

Fazia muito isso com meninos, oferecendo doces, bombom – coisas de dar água na boca. Só por via de um rosário bento o Cão estuporava. Quem não tivesse medalhinha de santo, rosário, bentinho, ai meu Deus! – nem queria pensar. Melhor era procurar o bode. Se tivesse sumido mesmo, conforme falaram, só podia ser o Cão – acentuou.

Todos obedeceram. Entraram pelo cacaueiro, bateram aquilo tudo, as armas preparadas. Se vissem o bicho, a fuzilaria ia ser pesada. Lourdes na frente, vasculhando o caminho. Cadê o bode? – cada um perguntava. Ninguém via nada, nem rastro. Foi aí que Lourdes falou:

Vamos cercar ele na porta da Maçonaria.

Vambora – responderam.

Lourdes sempre na frente, comandando o grupo. Quando passaram por sua casa, seu pai, que estava na porta chamou:

Venha cá, sua moleca.

Os meninos foram atrás. Era sua companheira: não iam deixar que fosse só.

O velho estava com uma cara de fazer medo, revirando o charuto nos dentes arregaçados.

Lourdes ia murcha, arrastando os passos, de cabeça baixa. Não estava com nenhum pingo de medo do carão que o pai por certo lhe daria. Mas seguia pedindo a Deus que abrisse um buraco em sua frente, para nele se enterrar, sumir, antes que alguém perguntasse ao velho pelo bode, pelas palavras mágicas, pelas coisas misteriosas da Maçonaria.”

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Jorge Medauar (Uruçuca, 15 de abril de 1918 – São Paulo, 3 de junho de 2003) foi um poeta e contista brasileiro. Nasceu em Água Preta do Mocambo, sede do então distrito de Ilhéus, hoje cidade e município de Uruçuca. Descende de pais sírio-libaneses. É da chamada “Geração de 45”. Em 1959 foi galardoado com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro na categoria “Contos/crônicas/novelas”, mesmo ano que Jorge Amado ganho na categoria romance. Foi diretor geral da sucursal paulista de “O Globo” e, no Rio, secretário da revista Literatura. Era membro da Academia de Letras de Ilhéus e da Academia de Letras do Brasil, com sede em Brasília. O presente conto faz parte da coletânea “Histórias de Menino”, publicada em 1961.