A Hierarquia da Caridade

Quem tira o pão de um filho para dar a um estranho? Esta conhecida expressão é universalmente aceita, não se pode tratar todas as pessoas da mesma maneira, existem pesos e medidas diferentes para as diferentes pessoas do nosso convívio.

É comum em nossas reuniões, avisos transmitidos por irmãos ausentes notificando e dando contas dos motivos de sua falta, alguns, como eu, se sentem realmente incomodados quando não podem estar presentes, ainda que por um justo motivo. Mas como saber qual motivo é justo, como decidir entre comparecer a reunião em loja e o convite de um amigo para um jantar?

Tempo é algo precioso. É uma riqueza! Extendendo os questionamentos, levando-o a como dispor de nossas outras riquezas, qual a régua a ser usada? Cem reais podem pagar um brinquedo novo para um filho, mas igualmente podem alimentar uma família por alguns dias, seria errado deixar uma família passando fome para que nossos filhos tenham um brinquedo a mais? Poderia a consciência de um cristão lidar tranquilamente com isso?

Buscar a riqueza é obrigação de qualquer pessoa que tenha cérebro”, esta frase, por mais estranho que pareça, encontrei em livros religiosos. É um conselho da mentora espiritual do Médium Divaldo Franco, Joana De Angelis, e ela estava falando sobre riqueza material mesmo! Explicando, fala que a riqueza é o combustível do progresso, financia pesquisas, estudos, gera trabalho e impulsiona o progresso da humanidade. Sem acúmulo de capital, ainda nem teríamos chegado a idade média. Muito se fala em distribuição de riqueza, mas, não se pode dividir o que não existe, riqueza material é conquistada com acúmulo. Voltando aos cem reais, poderemos alimentar uma família por alguns dias, presentear nosso filho com um novo brinquedo ou simplesmente guardar, investir para que em alguns anos em vez de um carrinho de plástico possamos dar a nosso filho um automóvel de verdade, pagar uma faculdade ou suprir outra necessidade que ele venha a ter. Como regular essa balança, qual a parte justa a ser usada, doada e acumulada?

Crer em um ser superior é condição de ingresso na Maçonaria, todo maçom é, pois, um religioso, uma pessoa que acredita na sobrevida do espírito sobre o corpo físico. A fé cristã ensina que teremos que prestar conta, ceitil por ceitil, do que fizemos durante o nosso tempo de permanência na terra. Será que estamos fazendo bom uso da nossa riqueza?

Estudando o assunto, cheguei ao padre Jean-Baptiste-Henri Dominique Lacordaire, pensador dominicano radicado na França do século XIX. Partindo do pressuposto que tudo vem de Deus e somos apenas meros possuidores das riquezas materiais, das quais teremos que dar conta, respondendo sobre um questionamento sobre esses limites, ele foi enfático em afirmar:

Vossa parte, senhores, é o necessário, nada mais que o necessário, e não é preciso que exagereis (…) Do vosso patrimônio, como do vosso trabalho, não vos é permitido retirar senão uma coisa em vosso proveito: o necessário. O resto cabe aos pobres. Esta é a lei.

Claro que conhecemos diversos exemplos que levaram tal pensamento a efeito de forma integral durante suas vidas, Francisco de Assis, Madre Teresa, Irmã Dulce, Chico Xavier. Admiramos essas pessoas mas não temos a coragem de viver assim, chegamos a afirmar que é um pensamento muito radical… Mas continuando, uma vez estabelecido que nossa parte é o necessário, devendo o restante ser destinado aos pobres, temos outro questionamento: são muitos os pobres no mundo, muitos os necessitados de muitas coisas. Como escolher qual deles atender? Novamente as palavras de Lacordaire lançam luz sobre a questão:

Do momento em que reconheceis a necessidade de vos despojar pelos pobres, trata-se de fazer uma escolha e estabelecer uma hierarquia. Ora, vossas mulheres e vossos filhos são os vossos primeiros pobres; a eles deveis, pois, dar as vossas primeiras esmolas. Velai pelo futuro de vossos filhos; preocupai-vos em lhes preparar dias calmos e tranquilos em meio a esse vale de lágrimas; deixai-lhes até em depósito uma pequena herança que lhes permita continuarem o bem que haveis começado: isto é legítimo.

A Hierarquia da caridade, segundo Lacordaire segue com:

  1. Os nossos pais, logo após nossos filhos e as vezes em primeiro;
  2. Irmãos;
  3. Amigos; e, por fim
  4. Todos os outros pobres, começando pelos mais miseráveis.

Em qual ponto dessa escala entraria a Maçonaria? Felizmente, nossa ordem, como um todo, bem como seus membros, não têm necessidade imperiosa de nossos metais, mas e de nossas outras riquezas? Da mesma forma que em nossos rituais a régua de 24” nos ensina, simbolicamente, a dividir o tempo, creio que a regulagem proposta na balança da caridade é bastante justa. Se nossas esposas ou filhos precisam da riqueza da nossa presença, é justo que a lhes demos, e não devemos nos constranger com isso. É a lei do nosso coração. Um fato excepcional que nos impeça de comparecer a reunião para atender a uma necessidade de um parente não pode ser considerado uma falta de compromisso com a instituição, é antes, uma prova do senso de responsabilidade do maçom para com os seus.

Mas a pergunta permanece, estamos distribuindo as nossas riquezas entre os nossos irmãos maçons da forma correta? Durante nossa permanência em loja, em secretaria ou mesmo no Whatsapp, estamos distribuindo corretamente nossa inteligência, nossos conselhos, nosso sorriso? E em pensamento? O que trazemos dentro do coração pelos membros de nossa oficina nos permite olhar nos olhos de cada um e o chamar de irmão sem falsidade? Durante a preparação para a entrada no templo da loja em alguns ritos, um oficial proclama: “Irmãos, observai ao redor, vede todos que aqui estão. Se em teu coração tendes algo contra alguém aqui presente, não deveis entrar nesse templo.” Caso esse procedimento fosse universal, em nossa própria loja, teríamos sempre coragem de adentrar o templo?

Desacompanhada de um sorriso, uma esmola não pode ser chamada de caridade, assim como um aperto de mãos também não pode ser chamado de cumprimento. Tenho visto muitos maçons colocarem outros na conta de um quase inimigo em virtude de opiniões diferentes. Uma ordem que prega a livre investigação da verdade infelizmente em alguns lugares tornou-se um foco de estagnação intelectual.

Há esperança! Algum motivo nos leva a abandonar o conforto do lar para a reunião uma vez por semana, ou duas, ou três… Enquanto acreditarmos que tal motivo é, ao menos a vontade de melhorar-se, valerá a pena privar por alguns instantes da riqueza de nossa presença os maiores merecedores dela, na certeza de que retornaremos ao lar com mais riquezas de que quando saímos.

Publicado por Luiz Carlos Santana Barreira

Gente boa!

Um comentário em “A Hierarquia da Caridade

  1. Por.’. Ir.’.,

    Excelente texto(aliás tem sido regra). Merece ser lido de tempo em tempo. Favoritarei esse link para levar essa reflexão para onde for.
    Assim como você, não estar na Loj.’. me causa certa angústia. É como se a semana demorasse 15 dias para acabar. Desde que nasci para a Maç.’. não faltei uma sessão. Sei que em algum momento irá acontecer, mas até lá, movo todos os esforços para que esse dia demore a chegar. Da mesma forma, acredito que haja esperança. Esperança de que possamos gozar da fraternidade plena em nossa Sublime Ordem. Esperança que com dedicação, trabalho e estudo, possamos ainda suplantar nossos vícios,(sobretudo a vaidade) e erguer templos às virtudes. Esperança…

    Sigamos em frente,

    T.’.F.’.A.’.

    Curtir

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