Maçonaria na Literatura: “Guerra e Paz”, de Leo Tolstoi

“Guerra e Paz”, de Lev Tolstoi, é considerado uma das obras primas da literatura russa, já tendo sido adaptado para o cinema e a televisão algumas vezes, incluindo uma nova série que estreou este ano (2016). Narra a história da Rússia durante o período das Guerras Napoleônicas, sob a ótica de cinco famílias. Um dos personagens, talvez o mais importante, é o Conde Pierre (ou Pedro) Bezukov, um jovem herdeiro que tenta vencer suas paixões e impulsos e dar um sentido à própria vida, e que acaba se tornando Maçom.

Transcrevo um trecho interessante, em que dois personagens tratam da Maçonaria (não é o único, adianto).

“- É ao conde Bezukov que eu tenho o prazer de dirigir a palavra, se me não engano – disse o viajante, em voz alta e sem pressa.

Pedro, sem dizer palavra, interrogou o interlocutor olhando-o por detrás dos cristais das lunetas.

Tenho ouvido falar de si – continuou o velho – e da desgraça de que é vítima. – Acentuou a palavra, como se quisesse dizer: «Sim, seja qual for o nome que lhe queira dar, é uma desgraça, eu sei que o que lhe aconteceu em Moscovo é uma desgraça.» – Creia que sinto muito.

Pedro corou, deu-se pressa em saltar da cama e inclinou-se para o velho com um sorriso forçado e tímido.

Não foi por mera curiosidade que lhe falei disto, mas por mais graves razões.

Calou-se o velho sem deixar de fitar Pedro e convidou-o, dando-lhe lugar no divã, a que se sentasse a seu lado.

Eu sei que é infeliz – prosseguiu ele. – É novo e eu sou velho. Na medida das minhas forças, muito gostava de o poder auxiliar.

Ah!, sim – disse Pedro, com o seu sorriso forçado.- Ficar-lhe-ei muito reconhecido… Donde vem?

 O recém-chegado tinha uma expressão bem pouco cordial, mesmo fria e severa até. No entanto a sua palavra e a sua expressão atraíam irresistivelmente o conde Bezukov.

Mas se a minha conversa, por esta ou aquela razão, lhe for desagradável – disse o velho –, peço-lhe que mo diga francamente.

No seu rosto perpassou, sem ser esperado, um sorriso paternal e afectuoso.

Mas de maneira alguma, pelo contrário, gostei muito de o conhecer. – E lançando outro olhar ao anel do seu novo amigo, examinou-o de mais perto. Era urna caveira com dois ossos cruzados, insígnia da franco-maçonaria.

Permita-me que lhe pergunte – disse ele.- É franco-mação?

Sim, pertenço à fraternidade dos franco-mações – disse o viajante, fixando Pedro com uma insistência cada vez maior. – E em meu nome e em nome deles aqui tem a minha mão fraternal.

 Tenho medo – balbuciou Pedro, sorrindo hesitante entre a confiança que lhe inspirava aquele indivíduo e o seu hábito de troçar das crenças maçónicas -, tenho medo de estar muito longe da compreensão.., como é que hei-de dizer? Tenho receio de que as minhas ideias relativamente ao universo em geral sejam tão opostas às suas que não nos possamos entender.

 Conheço as suas ideias – replicou o mação – e essas opiniões de que fala e que lhe parecem o resultado de um pensamento pessoal são as ideias da maioria das pessoas, são o fruto, sempre o mesmo, do orgulho, da indolência e da ignorância. Desculpe-me, meu caro senhor, mas se eu o não tivesse conhecido não teria entabulado conversa consigo. As suas opiniões são um erro lamentável.

 Exactamente como se, eu pretendesse afirmar que era o senhor quem estava em erro – disse Pedro, com um breve sorriso.

Nunca me atreveria a afirmar que estou na posse da verdade – voltou o Mação, que cada vez impressionava mais o interlocutor com a nitidez e a firmeza das suas palavras – Ninguém só por si pode atingir a verdade. Só pedra a pedra, com o concurso de todos, graças a milhões de gerações, desde o nosso primeiro pai. Adão, até hoje, se vai erguendo o templo digno de ser habitado pelo Grande Deus – acrescentou, cerrando os olhos.

 Devo confessar-lhe que não creio, não creio.., em Deus – disse Pedro Com esforço e como penalizado, sentindo, no entanto, a necessidade de dizer toda a verdade.

O franco-mação observou-o atento, sorrindo como sorriria um homem rico, com as mãos cheias de dinheiro, dirigindo-se ao pobre que lhe dissesse que lhe faltavam cinco rublos para ser feliz.

É certo que o senhor O não conhece – disse-lhe ele -, o senhor não O pode conhecer. O senhor não O conhece, e é por isso mesmo que é infeliz.

 – Sim, é verdade, sou infeliz – corroborou Pedro – mas que hei-de eu fazer?

O senhor não o conhece, e é por isso que é infeliz. O senhor não O conhece e Ele está aqui. Está em mim. Está nas minhas palavras. Está em ti e até mesmo nas palavras sacrílegas que acabas de proferir! – disse o velho numa voz severa e trémula. Calou-se e suspirou, procurando, claramente, retomar a serenidade. – Se Ele não existisse – continuou em voz baixa – nós não estaríamos aqui, o senhor e eu, a falar d’Ele. De quê? De quê e de quem falamos então? Quem é que tu acabas de negar? – prosseguiu, com uma exaltação severa e autoridade na voz. – Quem é que O inventou então se Ele não existe? Donde é que te veio então a ideia de um ser tão incompreensível? Donde é que então o mundo inteiro e tu próprio tiraram a noção da existência de um ser inacessível, de um ser todo-poderoso, eterno e infinito em todos os seus atributos?…

Calou-se e ficou silencioso por muito tempo. Pedro não pode nem quis romper esse silêncio.

Existe, mas é difícil compreendê-l’O – recomeçou, sem olhar de frente o interlocutor. Com os olhos fitos diante de si e com as suas mãos de velho, que não podia manter quedas, mercê da agitação interior que o tomava, ia virando as páginas do livro.- Se se tratasse de um homem de cuja existência tu duvidasses, eu trazer-te-ia esse homem, pegar-lhe-ia pela mão e mostrar-to-ia. Mas como é que eu, miserável mortal, saberia mostrar a Sua força todo-poderosa, a Sua eternidade, a Sua misericórdia infinita àquele que é cego, ou àquele que tapa os ouvidos, ou àquele que fecha os olhos para O não ver, para O não compreender e para não ver e para não compreender a sua própria miséria, a sua própria corrupção? – Ficou um momento calado. – Quem és tu? Que és tu? Julgas-te um sábio só porque és capaz de pronunciar essas palavras sacrílegas – prosseguiu ele, com um sorriso amargo e desdenhoso – e ainda és mais tolo o mais insensato do que o garoto que se entretém com o movimento artisticamente combinado de um relógio e que seria capaz de dizer que pelo facto de não compreender a finalidade de todas aquelas engrenagens também não acredita no artista que o fez. Conhecê-lo é difícil… Durante séculos, desde o nosso primeiro pai. Adão, até aos nossos dias, trabalhámos nessa ciência e ainda estamos muito longe do fim a alcançar: mas é nesta impossibilidade que se revelam a nossa fraqueza e a Sua grandeza.

 Pedro, com o coração angustiado, fitando no franco-mação os seus olhos brilhantes, escutava-o sem o interromper, sem lhe fazer qualquer pergunta e de todo o seu coração acreditava nas palavras desse homem, um estranho para ele. Seriam as deduções lógicas daqueles discursos que o tinham persuadido, ou, como acontece às crianças, a entoação, o acento de convicção e sinceridade do seu interlocutor? Estaria ele abalado por essa emoção que chegava a interromper a voz do orador ou por esses olhos cintilantes de um homem que envelhecera agarrado à sua fé, ou por essa serenidade, essa segurança, a consciência do apóstolo que se lia em todo aquele ser e que tanto mais o perturbava a ele. Pedro, quanto era certo ser ele próprio cobarde e sem energia moral? Fosse como fosse, o certo é que ele desejava de todo e seu coração adquirir fé e experimentava um alegre sentimento de serenidade, de renovação e como que de regresso à vida.

Não se chega lá pela inteligência, mas pela experiência da vida – disse o francomação.

Não compreendo – interrompeu Pedro, sentindo, com angústia, erguerem-se nele as dúvidas. Tinha medo de verificar a obscuridade e a fraqueza dos argumentos do interlocutor, tinha receio de não acreditar nele. – Não compreendo como é que o espírito

humano não pode alcançar esse conhecimento de que o senhor fala.

O velho sorriu, e o seu sorriso era benigno e paternal.

A suprema sabedoria e a verdade são como um orvalho muito puro de que nós gostaríamos de nos sentir repassados. Poderei eu recolher este puro orvalho num vaso impuro e pensar que ele é a própria pureza? Só graças a uma redenção interior poderei fazer que este orvalho que eu venha a recolher em mim tinja um certo grau de pureza.

Sim, é assim mesmo – exclamou Pedro com alegria.

A sabedoria suprema não se baseia apenas na razão, nas ciências profanas como a física. É história, a química e outras em que o conhecimento intelectual está dividido. A sabedoria suprema é una. A sabedoria suprema só conhece uma ciência – a ciência do todo, a ciência que explica toda a criação e o lugar que o homem ocupa. Para instilar esta ciência em nós próprios temos de purificar e de renovar o nosso eu interior, e assim, antes de conhecermos, devemos crer e tornarmo-nos perfeitos. E para atingirmos esta finalidade há no interior da nossa alma luz divina, que é a consciência.

Sim, sim – aprovou Pedro.

Contempla com os olhos da alma o teu ser interior e pergunta a ti mesmo se estás contente contigo. Onde é que chegaste guiado apenas pela inteligência? Quem és tu? É novo, rico, inteligente, cultivado, meu caro senhor. Que fez de todos estes bens que lhe foram concedidos? Está contente consigo e com a sua existência?

Não, odeio-a – exclamou Pedro, franzindo as sobrancelhas.

Odeia-la? Então transforma-a, purifica-te, e, à medida, que te fores purificando, conhecerás a sabedoria. Lance um olhar à sua existência, meu caro senhor. Como é que a passou? Em orgias e no deboche. Tendo recebido tudo da sociedade e sem nada lhe restituir, adquiriu a riqueza. Que uso fez dela? Que fez pelo próximo? Já pensou nas dezenas de milhares dos seus escravos? Ajudou-os, porventura, física e moralmente? Não. Tirou beneficio do seu trabalho para levar uma vida desregrada. Eis o que o senhor fez. Escolheu porventura uma profissão em que fosse útil ao próximo? Não. Tem passado a vida inteira ocioso. Em seguida, veio o casamento, meu caro senhor, e o senhor assumiu a responsabilidade da conduta de uma mulher. E que fez? Não a ajudou a procurar o caminho da verdade e arrastou-a para o abismo da mentira e da infelicidade. Um homem ultrajou-o e o senhor procurou matá-lo, e é o senhor quem diz agora que não acredita em Deus e que odeia a, sua própria existência. Não há nada de estranho em tudo isso, meu caro senhor!

Tendo assim falado, o franco-mação, como se se sentisse, fatigado por uma longa conversa, de novo voltou a recostar-se na almofada do divã, fechando os olhos. Pedro pôsse a contemplar aquele rosto de velho, severo e imóvel, que parecia quase sem vida, e remexeu os lábios sem dizer uma palavra. Teria querido dizer: «Sim, que miserável vida de ociosidade e deboche!», mas não ousou romper o silêncio.

O franco-mação teve uma tosse rouca, como é próprio dos velhos, e chamou o criado.

E então, os cavalos? – perguntou, sem olhar para Pedro.

Trouxeram-nos agora mesmo. Não descansa um bocadinho?

Não, manda atrelar.

«Ir-se-á ele embora, deixando-me só, sem ter dito tudo que queria dizer e sem me prometer o seu apoio?», dizia Pedro de si para consigo, e, erguendo-se, pôs-se a andar de um lado para o outro através do quarto, de cabeça baixa, lançando olhares furtivos para onde estava o franco-mação. «Sim, nunca tinha pensado nisso, mas a verdade é que tenho levado uma vida desprezível de deboche. É certo que a detestava e que não era o meu ideal. Este homem conhece a verdade, e, se estivesse disposto, podia revelar-ma.»

Era isto mesmo que Pedro lhe queria dizer, mas não o ousava. Tendo o viajante acabado de arranjar as bagagens com suas velhas mãos assaz diligentes, pôs-se a abotoar a tulupa. Assim que acabou voltou-se para Bezukov e disse-lhe, em tom indiferente e cortês,

Aonde se dirige, meu caro senhor?

Eu?… Eu vou para Petersburgo – replicou Pedro numa voz hesitante de criança. – Estou-lhe muito reconhecido. Estou inteiramente de acordo consigo. E não vá julgar que sou uma pessoa tão pervertida como pensa. De todo o coração gostaria de poder vir a ser o homem que o senhor quereria que eu fosse. Mas nunca encontrei ninguém que me ajudasse… De resto, sou eu, claro está, o maior culpado. Ajude-me, instrua-me, e talvez eu venha a ser…

 Pedro nada mais pôde dizer. A emoção estrangulou-o, e afastou-se. O franco-mação ficou calado por muito tempo, como quem reflecte.

A ajuda só Deus a pode dar – disse ele -, mas aquela que , nossa ordem está em condições de lhe prestar, essa prestar-lha-á, meu caro senhor. Como vai para Petersburgo, entregue isto ao conde Villarski. – Abriu a pasta e escreveu qualquer coisa numa grande folha de papel que dobrou em quatro. – Permita que lhe dê ainda mais um conselho. Assim que chegar à capital consagre os primeiros dias à solidão, faça o seu exame de consciência e não volte à sua vida antiga. Agora desejo que faça boa viagem, meu caro senhor – acrescentou ao ver entrar o criado – e que seja feliz.

 Este viajante chamava-se Osip Alexeievitch Bazdeiev, como Pedro veio a saber pelo livro da posta. Era, franco-mação e martinista dos mais conhecidos desde os tempos de Novikov. Muito tempo depois da sua partida ainda Pedro, sem se deitar nem dar ordem para que atrelassem, continuava a ir e vir na sala da posta, pensando no seu passado corrupto e figurando-se, com o entusiasmo da renovação, um futuro venturoso para ele e irrepreensível na sua virtude, coisa que lhe parecia agora muito fácil de realizar. Pelo que imaginava, apenas era um homem corrompido por haver esquecido sem querer quanto era belo ser virtuoso. Na sua alma não havia vestígios das suas antigas dúvidas. Acreditava firmemente na possibilidade de uma união fraternal dos homens com vista a auxiliarem-se mutuamente no caminho da virtude e era assim que imaginava a franco-maçonaria.

(…)”

TOLSTOI, Lev. Guerra e Paz (Livro II, Capítulo II). Lisboa: Editorial Presença, 2005

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Cena da iniciação do Conde Bezukov (interpretado por Paul Dano) no episódio 3 da 1ª Temporada de Guerra e Paz (War and Peace, BBC1 e The History Channel, 2016)

2 comentários em “Maçonaria na Literatura: “Guerra e Paz”, de Leo Tolstoi

  1. Edgard, tenho me deliciado com os artigos que Vc tem postado. Agradeço-lhe a lembrança de enviar p meu e-mail. Vc está cumprindo c/ o compromisso q. assumiu no ano passado, de começar a produzir esses textos. Estão excelentes. Meus parabéns. Um TFA Herminio – Aracaju

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